Câmera cúmplice

Fotógrafo tinha segundos para decidir se ajudava homem caído no trilho do metrô ou tirava a foto espetacular. Ganhou a ambição

O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2012 | 02h07

SÉRGIO AUGUSTO

Na segunda-feira, um homem de 58 anos, chamado Ki Suk Han, foi empurrado da plataforma de uma estação do metrô de Nova York por um morador de rua com problemas mentais. Ki tentou subir de volta à plataforma, mas não escapou do trem que já vinha em sua direção quando o jogaram sobre os trilhos.

Tragédias como essa, se não são corriqueiras, tampouco são inéditas no metrô nova-iorquino. Mas a de segunda-feira foi a primeira captada por uma câmera fotográfica. Embora tudo hoje seja registrado em imagens por câmeras de segurança ou pelos paparazzi informais que neste mundo cada vez mais voyeurista e narcísico proliferam como baratas, o acidente no metrô foi flagrado por um fotógrafo profissional. Em 24 horas, seu nome (R. Umar Abbasi) ganhou maior projeção que o do causador do acidente. Por motivo torpe: Abbasi saiu da estação do metrô da Rua 49 direto para a redação do tabloide New York Post, onde negociou sua imagem exclusiva sabe-se lá por quantos mil dólares.

No dia seguinte, o flagrante ocupou toda a capa do Post. Sobre a imagem de Ki prestes a ser estraçalhado, a chamada: "Empurrado da plataforma do metrô, este homem vai morrer". No rodapé da página, em letras garrafais, a palavra "Doomed" (condenado).

Indignação geral. Chocante, de mau gosto, crueldade, apelação, desrespeito à ética jornalística, aos leitores e à família da vítima - dessas e outras coisas o jornal foi acusado, inclusive por profissionais da imprensa que já deveriam ter se acostumado ao sensacionalismo congênito do Post. Do Post dos últimos 36 anos. Pois antes de ser comprado pelo australiano Rupert Murdoch e transformado num jornaleco reacionário e desonesto, o Post era um tabloide vivaz, ideologicamente liberal, solidário com as questões sociais, com colunistas de alto calibre, como Murray Kempton e Peter Hamill.

A dinheirama que Murdoch perde com ele é de somenos. Só o comprou e mantém para aumentar seu poder político, dar vazão ao seu espírito vingativo e ampliar seus negócios. No Post jamais se lerá uma crítica à China, por exemplo, a menos que o governo de Pequim ponha em risco os investimentos da News Corporation na televisão por satélite na China. É o jornal nova-iorquino de menor credibilidade, segundo uma pesquisa da Pace University. Pudera. Já adulterou fotos e repetiu como novas, em preto e branco, algumas fotos anteriormente publicadas em cores; protege descaradamente os republicanos; deu vitória eleitoral antecipada a Bush com a contagem de votos ainda rolando na Flórida; estampou um cartum "comparando" Obama a um chimpanzé; quando aquela camareira negra acusou Strauss-Kahn de assédio sexual, tomou sem pestanejar as dores do acusado e qualificou a camareira, levianamente, de "prostituta".

Suas chamadas de capa (tabloide, vale lembrar, não tem primeira página) são sempre apelativas, escandalosas, politicamente incorretas, não raro irresponsáveis, amiúde divertidas, como convém a um pasquim. Em outubro de 1979, quando o xá Reza Pahlevi foi se submeter a uma cirurgia complicada nos Estados Unidos, o Post saiu-se com esta: "Xá vai entrar na faca". A descoberta, em 1983, de um corpo decapitado num bar atendido por garçonetes com os seios à mostra inspirou o que muitos consideram a mais inventiva manchete de todos os tempos: "Headless body in topless bar". Seu autor, Vincent A. Musetto, contudo, prefere outra de sua lavra: "Granny executed in her pink pajamas" (Vovó executada em seu pijama cor-de-rosa).

Na edição de quarta-feira, o Post não só repercutiu a capa da véspera e a polêmica em torno dela como abriu espaço para Abbasi se defender da pecha de insensível e oportunista. O fotógrafo alegou ter usado a câmera não para documentar a morte de Ki, mas para alertar, com o flash, o condutor do trem. Não colou. Se tivesse usado as mãos e os braços para gesticular e boca para assoviar e gritar "pare o trem!" talvez lograsse chamar a atenção do condutor. Em compensação, não teria tirado a foto, sensacional, sem dúvida, mas deletéria.

O Código de Ética dos fotógrafos americanos recomenda-lhes que evitem interferir em situações dramáticas e "alterar ou influenciar acontecimentos". É uma questão complicada, muitas vezes enfrentada sem um mínimo de tempo para reflexão. Calcula-se que Abbasi não dispusesse de mais do que 20 segundos para esquecer sua câmera e tentar salvar Ki, puxando-o pelo braço. Seu maior erro, contudo, não foi optar pelo socorro menos eficaz (ou tão ineficaz quanto a inércia dos demais passageiros na plataforma), mas tirar o máximo efeito comercial da morte de uma pessoa, cujo corpo esfacelado, aliás, foi fartamente fotografado pelos celulares ali presentes.

Ki Suk Han era um cidadão comum, sem a mórbida transcendência daquele homem que se atirou ou caiu de uma das torres gêmeas, no 11 de Setembro, e ganhou o mundo numa foto espetacular de Richard Drew. Entre os raros leitores do Post que elogiaram o trabalho de Abbasi, dois ou três se lembraram do "homem em queda" do World Trade Center e também de vários prêmios Pulitzer de fotografia obtidos durante a guerra no Vietnã e a cobertura de chacinas e outros flagelos na África. Não há termos de comparação entre a morte de Ki e a violência de grandes tragédias coletivas.

Depois de fotografar aquela menina vietnamita ferida por napalm, em 1972, Huyng Cong Ut, da AP, levou-a para um hospital. Deprimido pela lembrança daquela criança sudanesa quase morta de subnutrição e espreitada por um abutre, que também lhe rendeu um Pulitzer, Kevin Carter, mesmo sabendo que ela afinal fora resgatada por soldados a serviço da ONU, suicidou-se em 1994.

Até atrás das câmeras o mundo piorou à beça depois que se digitalizou.

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