Galerias Luciana Caravello
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Canadá sedia em agosto conferência sobre literatura eletrônica

Pesquisadores se reúnem, a partir de amanhã, na Electronic Literature Organization para discutir rumos da criação literária no meio digital

Andréa Catrópia *, Especial para O Estado

11 Agosto 2018 | 16h00

Entre os sentidos possíveis da palavra literatura, dificilmente a associaríamos a um poema 3D que se deforma diante de nossos olhos ou a uma narrativa colaborativa que se desdobra como um videogame. Mas, na segunda semana de agosto, centenas de artistas, desenvolvedores e pesquisadores se reunirão no Canadá em mais uma conferência da Eletronic Literature Organization (ELO) para discutirem exatamente isso: a literatura que se desenvolve em meio digital.

Também conhecida como e-lit, ela não se confunde com os textos simplesmente veiculados e armazenados em nossos dispositivos eletrônicos, como os e-books, poemas inéditos nas páginas de escritores ou artigos de sites online. Isso porque essa forma relativamente nova de manifestação artística utiliza o digital como linguagem, e não meramente como suporte. Assim, para que seja definida como tal, uma peça de literatura eletrônica nasce no referido meio, aproveitando suas potencialidades. Exatamente como ocorre em outras artes contemporâneas, aqui também verificamos uma mescla de linguagens: sons, imagens, animações podem conviver em um mesmo trabalho.

Um dos expoentes da área, o poeta Jason Nelson concedeu uma entrevista ao jornal The Guardian sobre os motivos que impulsionaram a sua experimentação artística: “Em resumo, me aventurei no ambiente digital por causa da minha frustração com as limitações da página impressa de cima para baixo, plana e estática. Ao escrever poesia e prosa tradicionais, compondo um verso ou elaborando uma metáfora, eu queria fazer as palavras se moverem, adicionar sons e escrever sobre imagens; incentivar o leitor-jogador a encarar sua interação como uma forma de compor”.

No site do artista, encontramos diversos trabalhos interativos que propõem uma reflexão crítica sobre o mundo a partir de vídeos, gráficos e animações. Estes usam como fonte de criação a estética heterogênea da internet e o excesso de informação a que nos submetemos diariamente. Em The Required Field (algo como Campo Obrigatório), a inspiração são os formulários burocráticos que precisamos preencher diariamente. Assim, por meio desse jogo poético, o leitor poderá manipular virtualmente formulários distintos, que Nelson construiu mesclando cerca de vinte fontes como declaração de renda, fichas de imigração e cadastros de empresas.

No entanto, a interferência do ambiente digital na literatura também pode se manifestar de forma mais sutil e indireta do que nesse exemplo. Eduardo Kac, que assim como Jason Nelson também irá expor seu trabalho no ELO, desenvolveu em 2017 o trabalho Telescópio Interior. Realizado em parceria com a Agência Espacial Francesa, o poema tridimensional materializa as proposições do artista em seu manifesto Space Poetry, no qual especula os efeitos que a vida no espaço trará à fruição e à produção artística.

Nascido no Brasil, Kac radicou-se nos EUA e lá se tornou uma referência importante no campo da arte e tecnologia. Por aqui, durante a década de 1980, a exemplo de outros artistas como Arnaldo Antunes, Philadelpho Menezes e Lenora de Barros, buscou um caminho para experimentar poéticas fora do papel, criando a holopoesia. Nas palavras do autor, essa iniciativa buscava explorar as possibilidades da palavra como “signo capaz de se transformar ou de se dissolver no ar, rompendo sua rigidez formal”.

Por volta do mesmo período, Augusto de Campos desenvolveu uma versão holográfica para seu “poema-bomba” , em trajetória fiel aos caminhos abertos pela poesia concreta para a arte verbivocovisual. Expoentes da literatura internacional, como a crítica literária Marjorie Perloff e Kenneth Goldsmith, primeiro poeta laureado pelo MoMA, concordam com a perspectiva de que a poesia concreta paulistana foi um movimento literário pioneiro em lançar as bases da literatura digital.

Atualmente esse tema desenvolve-se timidamente no Brasil, recebendo contribuições de artistas como André Vallias, Marcelo Sahea e Alckmar Luiz dos Santos, só para citar alguns nomes que já estão na cena literária há mais de uma década. No entanto, com a nossa convivência crescente com os dispositivos eletrônicos, seria interessante ampliarmos a discussão desses recursos entre acadêmicos, autores e o público. Futuramente, tudo indica que estaremos cada vez mais mergulhados no mundo digital. Criar redes colaborativas para a produção artística nos meios disponíveis e naqueles que ainda estão por serem descobertos pode contribuir para inserirmos a literatura brasileira nesse panorama, promovendo a difusão de peculiaridades nacionais em ambientes eletrônicos cujas fronteiras são mais difusas e permeáveis do que aquelas enfrentadas pela literatura fixada no papel.

*Andréa Catrópia é escritora, doutora em Teoria Literária

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