REUTERS/ADREES LATIF
REUTERS/ADREES LATIF

Cansamos!

‘Se a polícia nos espanca e nos mata, é inútil dar as mãos e obedecer aos pastores. A opção é revoltar-se’, diz escritor morador de Baltimore

D. Watkins, O Estado de S. Paulo

02 Maio 2015 | 16h00

O que está ocorrendo em Baltimore neste momento, tem a ver com Freddie Gray, o jovem negro de 25 anos espancado de maneira selvagem por policiais no dia 19 de abril, aparentemente por ter olhado para eles. Depois de dominá-lo, eles praticamente quebraram sua espinha dorsal, destruíram sua laringe, e ele foi levado numa van da polícia, embora várias vezes pedisse um médico. Morreu uma semana mais tarde.


No entanto, não tem a ver apenas com Freddie Gray. Como ele, eu cresci em Baltimore, e eu e todos os meus conhecidos temos histórias semelhantes para contar, embora as nossas terminassem de maneira um pouco diferente. Para nós, a polícia de Baltimore não passa de um bando de terroristas pagos por nossos impostos, que espancam diariamente gente da nossa comunidade, sem jamais ter de explicar coisa alguma ou pagar por suas ações. A situação chegou a tal ponto que nós não chamamos a polícia, a não ser que precisemos de um boletim de ocorrência para pedir uma indenização. 

E a questão não é só a polícia. Nós ficamos assistindo enquanto a prefeita, Stephanie Rawlings-Blake, juntamente com o chefe do Departamento de Polícia, Anthony W. Batts, levaram uma semana investigando o que era claramente um caso elementar. Tenho certeza de que, se eu quebrasse o pescoço de uma pessoa sem nenhum motivo, seria acusado em poucos minutos. Mas o sistema - mesmo quando dirigido por um prefeito negro e um chefe de policia negro, e quando a maioria dos vereadores da cidade é negra - protege a polícia, independentemente do seu comportamento abertamente brutal.

Vou pular os casos das vítimas inocentes da sanha policial que receberam ao todo cerca de US$ 6 milhões em acordos extrajudiciais da prefeitura, nos últimos três anos, ou os de Tyrone West, Anthony Anderson, Freddie Gray e das mais de 100 pessoas assassinadas pelos policiais da cidade nos últimos dez anos, e trato diretamente de algumas das experiências que tive com policiais por eu ser preto em Baltimore.

Quando eu tinha dez anos, bandidos chutaram a porta da minha casa até arrancá-la das dobradiças, à procura de drogas. Eles nos mantiveram durante horas sob a mira das armas enquanto destruíam nossa casa. Quando foram embora, minha mãe chamou a polícia; ela chegou duas horas mais tarde, e nos tratou como se nós fôssemos os bandidos, queixando-se de ter de fazer um relatório policial.

Quando eu tinha 12 anos, jogava basquete em Ellwood Park, no lado leste da cidade. Um dia, os policiais chegaram dizendo que procuravam um suspeito de roubo. De repente, cerca de seis policiais entraram na quadra e mandaram todo mundo deitar no cimento, com a cara virada para o chão. Um amigo meu, Fat Kevlin, perguntou: “Por que tratam a gente como animais?” Um dos policiais berrou “Porque vocês não valem nada!” e falou um palavrão.

Então, quando eu tinha 14 anos, um policial derrubou um garoto chamado Rick da moto. Rick pulou na hora, gritando “O que foi que eu fiz?” e instantaneamente foi imobilizado com o cassetete por dois policiais. O rosto de Rick ficou bastante machucado durante semanas. 

Poderia contar um monte de episódios que ocorreram nos anos seguintes, do jardim da infância à universidade. Se agora fazem manifestações ou incendeiam carros da polícia é porque quase todos os negros de Baltimore já passaram por experiências semelhantes.

A polícia de Baltimore, como em muitas outras partes do país com uma densa população negra, está fora de controle há muito tempo. Um dos principais motivos é que muitos policiais de Baltimore não moram em Baltimore. Alguns nem sequer vivem no estado de Maryland. Muitos não conhecem ou não se importam com os cidadãos das comunidades que deveriam proteger. É por isso que vêm para cá, nos espancam e nos matam sem dó nem piedade.

Muitos outros cidadãos sentem da mesma maneira, e é por isso que os grupos mais variados de manifestantes vão para as ruas todos os dias desde a morte de Freddie Gray. A maioria dos protestos é pacífica. Os primeiros atos de violência só ocorreram depois de um protesto não violento na noite de sábado, na frente da prefeitura. Dali, um grupo de manifestantes, eu entre eles, se dirigiu para Camden Yards, onde os Orioles jogavam (beisebol) com os Boston Red Sox. Enquanto passávamos em frente a uma série de bares, torcedores brancos que estavam do lado de fora, com o uniforme de Baltimore e de Boston, gritaram: “Nós não damos a mínima! Não damos a mínima!” Nos chamaram de macacos. Então começou uma briga, pessoas se machucaram.

Alguns poderão perguntar: “Por que Baltimore?” Mas a pergunta certa é: “Por que demorou tanto?” Os jovens revoltados de Baltimore estão atentos aos protestos pacíficos de Sanford, Flórida, Ferguson, Missouri, e Nova York, e ficam decepcionados com o resultado.

Todos nós começamos a achar que darmos as mãos, obedecer aos pastores e os protestos pacíficos são inúteis. A única opção é revoltar-se. E obrigar a prefeita a fazer o que deveria ser uma opção fácil entre parar de proteger o emprego dos policiais que mataram Freddie Gray, ou então ficar vendo Baltimore queimar de cima abaixo. 

/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

D. WATKINS É ESCRITOR, AUTOR DE THE BEASTSIDE, UMA COLEÇÃO DE ENSAIOS, E COOK UP, UM LIVRO DE MEMÓRIAS, NO PRELO. ELE ESCREVEU ESTE ARTIGO PARA THE NEW YORK TIMES

Mais conteúdo sobre:
baltimoreeuapolíciaracismo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.