Cantando sem chuva

A dublagem da chinezinha, preterida por uma atriz mirim, relembrou antiga prática dos musicais de Hollywood

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2008 | 23h16

O acaso caprichou. Para alegria da mídia, que, salivando de prazer, debruçou-se sobre a assimétrica relação entre o início da Olimpíada de Pequim e a invasão, quase simultânea, da Geórgia pelos russos. Os Jogos seriam do bem, da paz; e a invasão, da guerra e do mal. E por aí se estendeu o lero-lero, até a revelação de que três das mais admiradas atrações da festa de abertura da Olimpíada - o cântico patriótico da menina Lin Miaoke, a pirotecnia do lado de fora do estádio olímpico e a "cascata" das 50 etnias, representadas no desfile das crianças - haviam sido manipuladas. E tome discussão, em geral bizantina, como se o artifício não fosse, há tempos, um elemento estético, um acréscimo embelezador, um subsídio de magia, sobretudo no cinema, a cujos recursos a cerimônia de abertura fartamente recorreu, não estivesse atrás dela um cineasta (o chinês Zhang Yimou), substituindo outro (o norte-americano Steven Spielberg). O que os chineses fizeram com a menina Yang Peiyi, aproveitando-lhe apenas a voz, e entregando as honras do palco a Lin Miaoke, sem as qualidades vocais da primeira, porém mais graciosa (há controvérsias), indignou a pieguice universal e exacerbou a má vontade da imprensa estrangeira com os excessos autoritários do governo chinês, como se um espetáculo de som, luz e tecnologia de ponta devesse seguir as mesmas regras de uma competição esportiva e um caso de doping artístico nele tivesse sido flagrado. Gozaram a "dublagem" de Miaoke por Peigy, comparando a protagonista da festa ao fraudulento roqueiro Milli Vanilli e à "rainha do playback" Ashlee Simpson, embora o parâmetro óbvio fosse o troca-troca entre Jean Hagen e Debbie Reynolds no musical Cantando na Chuva, que só a um jornalista (a colunista Gail Collins, do New York Times) vi ocorrer, assim mesmo com cinco dias de atraso. Se a China não tivesse se esforçado tanto para evitar que a festa de abertura se realizasse debaixo d?água (chega a US$ 90 milhões o custeio anual da "engenharia climática" chinesa), a semelhança com Cantando na Chuva teria sido, ironicamente, completa. Zhang Yimou não bebeu apenas na fonte de Leni Riefenstahl, a inventora da Olimpíada como espetáculo, e Busby Berkeley, o supremo coreógrafo de massas, mas também nas artimanhas de Betty Comden e Adolph Green, os roteiristas de Cantando na Chuva. Por falar em Hollywood, em seus estúdios a beleza física sempre teve prioridade, e muitas injustiças foram, em seu nome, cometidas, sem, contudo, despertar indignações coletivas. Marni Nixon emprestou sua voz superior a diversas beldades da tela, que, a exemplo de Miaoke, agradavam a vista, mas não os ouvidos. Sem traumas nem ressentimentos. É assim que se joga o jogo do ilusionismo cinematográfico.Em meio aos protestos pela "humilhação" de Peiyi (e a de Miaoke, não conta?), uma cobrança de coerência com putativos ideais comunistas. Onde já se viu, num país comunista, a aparência prevalecer sobre a competência?, interpelou um jornalista europeu. Se tivesse feito o trabalho de casa direito, saberia que também na China do comunismo de mercado só as pessoas superficiais não julgam as outras pela aparência. Nos classificados de emprego chineses as preferências recaem, explicitamente, sobre os candidatos de "boa aparência". E o que dizer do esmero com que foram selecionadas as 380 recepcionistas desta Olimpíada, todas do mesmo peso e da mesma estatura?Quanto à manipulação, muito pior fez a imprensa norte-americana, que durante seis dias escondeu de sua mais distinta clientela a ampla vantagem da China na conquista de medalhas de ouro. Esconder talvez não seja o verbo adequado, mas que a mídia dos EUA bushou na cobertura dos Jogos, bushou, destacando sempre o total de medalhas conquistadas por país, em vez de dar mais peso às de ouro, como é da praxe olímpica. Só no início da tarde de quinta-feira os que acompanham a Olimpíada exclusivamente pela imprensa e a TV norte-americanas puderam se dar conta de que os EUA afinal não estavam em primeiro lugar nos Jogos de Pequim. Aquela China que julgávamos conhecer, e não apenas condicionados pela propaganda da Guerra Fria temíamos como a um Império do Mal, não mede esforços nem truques para impor-se como uma potência à altura de sua cultura milenar e sua pujança demográfica, capaz de superar, com sobras, seu complexo de inferioridade em relação ao Japão e ao Ocidente, que, desde pelo menos a Guerra do Ópio, no século 19, tantas humilhações lhe impingiu. Na última edição da New York Review of Books, Orville Schell faz um balanço da "humilhação" da China e seu pertinaz empenho para ser aceita entre as grandes nações, com base em quatro livros (dois dos quais relacionados com a preparação do país para os Jogos Olímpicos) e no documentário Dark Matter, dirigido por Chen Shi-Zheng. Seria bom se todos os que estão cobrindo os Jogos o lessem. Cairiam com menos facilidade no oba-oba basbaque e entenderiam melhor por que, apesar do vertiginoso progresso, a China parece manter-se fiel à durindana maoísta. (Na verdade, o Partido Comunista chinês substituiu a ideologia maoísta pelo nacionalismo. O que não deixa de ser um perigo, na medida em que a seiva do nacionalismo é a competição, e esta carece de adversários que, com assustadora freqüência, são transformados em inimigos.)O personagem central do documentário Dark Matters é o físico Lu Gang, rebatizado Liu Xing, que no inverno de 1991, desesperado com a reprovação de sua dissertação por uma banca examinadora da Universidade de Iowa, chacinou três professores e um estudante, arrematando a tragédia com um tiro na própria cabeça. Lu é um paradoxo similar ao seu país de origem: orgulhoso da velha e poderosa cultura chinesa e envergonhado de seu atraso, do tratamento vexatório a que o Ocidente o submeteu. Outro Lu, Lu Xun, o mais famoso ensaísta e crítico social da China, foi o primeiro a notar, há quase 70 anos, a visão polarizada que seus patrícios têm dos estrangeiros: ou são deuses ou animais selvagens, motivos de inveja ou repugnância. A reprovação de um trabalho acadêmico foi o que bastou para Lu Gang transformar uma admiração pelos mestres norte-americanos num ódio alimentado pelo que os chineses chamam de bainian guochi (cem anos de humilhação nacional). É movida pela vitimização superada, ou transformada em fuqiang (riqueza e poder) e dezenas de medalhas de ouro, que a China, a primeira ditadura high-tech do planeta, vem ampliando sua sombra sobre o mundo. Ela é frondosa. E, por suas raízes, mete medo. TERÇA, 12 DE AGOSTOFalsificações chinesasRevelada a história de Yang Peiyi, 7 anos, que dublou Lin Miaoke, 9, ao cantar na abertura da Olimpíada de Pequim.Yang Peiyi não seria bonita o suficiente para representar seu país. Também os fogos de artifício e as 50 etnias da cerimônia não eram bem assim.

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