Stringer/Reuters
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Cantoras eruditas fazem releituras de música popular e clássica

Magdalena Kozená canta Cole Porter e Nora Fischer relê clássicos para as novas gerações de ouvintes

João Marcos Coelho*, Especial para o Estado

07 Julho 2018 | 16h00

Todo mundo tem seus prazeres secretos. O filósofo francês Jean-Paul Sartre, por exemplo, defendia publicamente Xenakis e Boulez, papas da vanguarda musical dos anos 1960, mas no aconchego de seu apartamento parisiense gostava mesmo de tocar Chopin. Sartre, porém, teve a decência de não mostrar em público “seu” constrangedor Chopin. 

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O exemplo é radical, mas cabe em uma dessas aventuras musicais recentíssimas – e chocantes. A mezzo-soprano checa Magdalena Kozená, 45 anos, que cancelou este mês sua primeira apresentação no Brasil, pensou que poderia cantar Cole Porter. Superstar no reino erudito, casada com Sir Simon Rattle e dona de uma fulgurante carreira, não lhe faltava mais nenhum desafio. 

Lançado em maio passado pela gravadora checa Supraphon, o CD é um fiasco de A a Z. Acompanhada por uma big band checa – Ondrej Havelka & His Melody Makers –, ela percorre os grandes sucessos de Cole Porter (1891-1964), para muitos o mais completo “songwriter” dos anos dourados da Broadway, responsável por dezenas de obras-primas em que a sutileza da música espanta tanto quanto suas letras apimentadas e nunca menos do que perfeitas. Basta lembrar Let’s do It, Let’s Misbehave, You’re the Top e, claro, Ev’ry Time We Say Goodbye.

Sartre atendia a um gosto pessoal e íntimo ao tocar Chopin escondido. Kozená e os músicos checos apenas parecem cumprir uma sacada desesperada dos executivos da gravadora: olham para Cole Porter como se estivessem interpretando música historicamente informada. Ou seja, tentam recriar as sonoridades dos anos 20 e 30 do século passado. Tudo ensaiadíssimo, nenhum deslize, ninguém desafina. Olhares de laboratório, clínicos. Frios, gelados. Descartável como um guardanapo usado.

Você pode até chamar de atrevido, fora da caixinha, profanador, etc., etc., o projeto da soprano húngara Nora Fischer, 30 anos, filha do notável maestro Ivan Fischer. Mas é impossível atacá-lo musicalmente. Em Hush, lançado simultaneamente ao CD de Kozená, pela Deutsche Grammophon, Nora desemposta a voz, trazendo os arranjos para sua linha de conforto vocal, abandona o vibrato e as ornamentações típicas e reinventa a música-título, de Henry Purcell, além de outros “hits” 400 anos atrás assinados por Dowland, Vivaldi, Alessandro Scarlatti e Monteverdi, entre os mais conhecidos, e pelos hoje esquecidos Stefano Landi, Antonio Cesti e Caldara. Conta apenas com a guitarra e a voz de Marnix Dorrestein, holandês de 27 anos.

São 21 gemas contrabandeadas para o século 21 que, nesta “roupagem”, têm tudo para seduzir ouvidos militantes das tribos das redes sociais. Tudo sem trair o espírito dessas maravilhosas canções, desapegando da partitura. Uma de suas reinvenções mais deslumbrantes é a de Cum Dederit, uma das partes do Nisi Dominus, composição de Antonio Vivaldi (1678-1741) sobre o Salmo 127, descoberta apenas em 2003 em Dresden. Vale a pena você ouvir o contratenor Philippe Jaroussky na leitura ortodoxa e em seguida os novos ares de Nora e Marnix, que têm tudo para seduzir gente que jamais pensou em gostar de música sacra de 300 anos atrás.

Marnix faz um pedal onipresente, pesado, no grave, e tece arabescos, até em terças com a voz de Nora. No original, Vivaldi colocou até uma “viola d’amore” na instrumentação. Músicas interpretadas de modo tão diverso e no entanto tão próximas entre si. Ambas arrebatadoras. 

As quatro criações de Henry Purcell (1659-1695) são um show à parte. A começar da faixa-título, Hush, originalmente uma ária para baixo e coro de A Fairy Queen, de 1692, baseada em Sonho de Uma Noite de Verão de Shakespeare. É uma canção de ninar para a personagem Titania. Também de A Fairy Queen é a deliciosamente suingante Come All Ye Songsters, em que as fadas convocam os pássaros para se juntarem a elas no que hoje seria uma “rave”. Soa moderníssima. Já Cold Song, de King Arthur, de 1691, fica ainda mais “dark” na leitura de Nora, acompanhada pelos acordes escuros e graves do início que evoluem para sonoridades minimalistas enquanto o narrador caminha para a morte. Wondrous Machine, máquina maravilhosa, apoia-se num baixo ostinato – motivo de dois compassos que se repete e funciona como base rítmica e harmônica da canção – para cantar o poder do órgão, milenarmente o mais poderoso dos instrumento, símbolo de Santa Cecília. Nora marca o contratempo com um estalar de dedos. Puro encantamento.

Nenhum dos alaudistas inglês da passagem dos séculos 16/17 foi mais modernamente adaptado e arranjado do que John Dowland (1563-1626), contemporâneo de Shakespeare e autor de muitas canções memoráveis. Até Sting já fez tributo a ele. Pois me arrisco a afirmar que a interpretação de Nora e Marnix para Can She Excuse My Wrongs? é tão boa que seria lícito esperar um disco inteiro só para suas canções. O dueto deles, no melhor estilo pop, é irresistível – e pode estar bem próximo das tavernas onde Dowland espalhou seu maravilhoso talento como “songwriter” (cantautore, diriam os italianos).

Deixei Claudio Monteverdi (1567-1643) para o fim de propósito. Como soam bem as célebres Vi Ricorda ò Boschi Ombrosi, do Orfeo, de 1607; e Oblivion Soave, de Incoronazione di Poppea, obra-prima da sua maturidade. Guitarra e voz colocam uma rara delicadeza nesta última, contrastando com a gingada de Vi Ricorda, com direito ao assobio preciso de Marnix.

*João Marcos Coelho é jornalista, crítico musical e autor do livro 'Pensando as Músicas no Século XXI' (Perspectiva) 

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