Capa em cor

Paula Sacchetta, O Estado de S. Paulo

23 Agosto 2014 | 16h00

Ele nasceu em Budapeste e nasceu Endre Erno Friedman. Húngaro e judeu. Mas foi em Paris que se transformou em Robert Capa. Se refugiou em Berlim para estudar jornalismo, mas acabou como assistente de laboratorista na agência Dephot e foi ali que recebeu sua primeira tarefa: fotografar Leon Trotski no exílio. Depois partiu atrás de guerras pelo mundo: cobriu a Guerra Civil Espanhola, a resistência chinesa à invasão japonesa, a 2ª Guerra Mundial, a primeira guerra árabe-israelense e a Guerra da Indochina. 

Ao pronunciar o nome de um dos maiores fotojornalistas de todos os tempos e um dos fundadores da agência Magnum, vêm logo à cabeça, para citar as mais icônicas, suas imagens em preto e branco do desembarque das tropas aliadas na Normandia, no Dia D, ou a do miliciano da Guerra Civil Espanhola caindo depois de levar um tiro. Difícil pensar em fotografias coloridas de Robert Capa. Nada de glamour, luxo, artistas, praias francesas ou mesmo a guerra em cor.

No entanto, Capa trabalhou com filme colorido em grande parte de sua carreira. Começou a experimentar os filmes Kodachrome em 1938. Ele estava na China cobrindo a 2ª Guerra Sino-Japonesa e pediu 12 rolos a um amigo da agência Pix, de Nova York. Queria também instruções de uso, porque tinha uma ideia “genial”: capturar as labaredas que consumiam a cidade de Hankou depois de um bombardeio japonês. Quatro dessas imagens saíram na Life em outubro daquele ano.

Capa passou a usar filme colorido regularmente em 1941, nos primeiros anos da 2ª Guerra, em travessias do Atlântico a bordo de comboios aliados e em campos na Inglaterra onde aviões de combate se aprontavam para sobrevoar a França ocupada. Mais tarde, frequentador e fotógrafo dos sets de Hollywood, clicou também modelos, atrizes e personalidades como os escritores Ernest Hemingway e Truman Capote, o pintor Pablo Picasso, e o ator Humphrey Bogart. Seu trabalho em cor passou então a ser parte integrante e fundamental de sua vida e carreira durante os anos 1950, e não mais mero complemento do trabalho em preto e branco.

Foi assim que Capa entrou em mais uma batalha, dessa vez com os próprios fotojornalistas, que negavam aquela nova forma de expressão. Henri Cartier-Bresson, seu sócio de Magnum e amigo próximo, chegou a dizer que a fotografia em cor era “indigesta” e a “negação de todos os valores tridimensionais da fotografia”.

Cynthia Young, a curadora da exposição Capa in Color, que ocorreu no centenário de seu nascimento, 2013, no International Center of Photography de Nova York, explica que, depois de sua morte, era quase inconcebível que o mestre do fotojornalismo tivesse feito tantas fotografias coloridas, exatamente pelo modo como esse tipo de imagem era recebida naquele período. E assim elas foram esquecidas. 

No fim da guerra, entre 1944 e 1945, Capa voltou a usar exclusivamente filme preto e branco, principalmente por causa do tempo e da complexidade maiores de processamento que as películas coloridas exigiam.

Algumas das imagens coloridas de Capa saíram em jornais e revistas da época, mas foi no começo dos anos 1950 que começaram a fazer mais sucesso, porque refletiam uma visão de mundo mais próspera no momento em que os países tentavam se reerguer da guerra. 

Endre Friedman, o homem que criou Robert Capa, se reinventava enquanto não cobria conflitos. Segundo Young, no pós-guerra ele percebeu que para se manter relevante para as agências e manter a própria Magnum firme teria que continuar trabalhando com a cor. Uma foto colorida passou a valer muito mais que uma em preto e branco. As revistas, que antes consideravam o trabalho em cor menor, passaram a apostar naquilo como uma forma mais exótica de contar determinadas histórias. A fotografia em cor, antes quase uma curiosidade para registrar momentos mais íntimos e familiares, começou, aos poucos, a ganhar espaço.

Capa geralmente andava com duas câmeras no pescoço. A partir dos anos 1950, uma delas estava sempre carregada com película colorida. Ele morreu em 25 de maio de 1954 ao pisar em uma mina terrestre na Guerra da Indochina. Entre suas últimas fotos, tiradas com uma câmera Nikon, estavam algumas coloridas de tropas vietnamitas avançando entre Namdinh e Thaibinh.

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