Damon Winter/The New York Times - 05/11/2008
O ex-presidente norte-americano Barack Obama Damon Winter/The New York Times - 05/11/2008

Autobiografia de Obama: confira os trechos mais impactantes, capítulo a capítulo

'Uma Terra Prometida', do ex-presidente dos Estados Unidos, chega ao Brasil em lançamento mundial

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2020 | 11h00

O ex-presidente norte-americano Barack Obama começou a escrever (à mão) a primeira parte de seu livro de memórias, Uma Terra Prometida, logo após o fim de seu mandato. Esse primeiro volume, com mais de 700 páginas, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, chega às livrarias hoje, 17, abrindo caminho para a reedição pela mesma editora das duas autobiografias anteriormente lançadas, Sonhos do Meu Pai e Audácia da Esperança – as novas edições chegam ao mercado em janeiro.

O primeiro dos dois volumes de Uma Terra Prometida tem sete capítulos. No primeiro, A Aposta, ele atualiza algumas informações de Sonhos do Meu Pai sobre sua família liberal. Nascido em Honolulu, em 1961, Obama tinha dois anos quando seus pais se divorciaram. A imagem paterna que ele tem foi construída por histórias narradas por sua mãe Ann Dunham, do Kansas, de personalidade forte e avessa a convenções sociais. Ele só veria o pai novamente em 1971 durante uma breve visita ao Havaí, casado com outra mulher. Obama pai morreu num acidente de carro no Quênia, em 1982.

Mãe influenciou mais Obama

Essa morte o marcou profundamente. O pai era um mito para ele, porém a mãe foi mais influente com suas leituras de poetas existencialistas e suas opiniões contra a guerra no Sudeste Asiático. Horrorizada com o racismo, conta Obama neste primeiro capítulo, ela se casou não uma, mas duas vezes com homens de outra raça. Divorciou-se dos dois, por não suportar a opressão chauvinista dos maridos.

Ainda no capítulo, Obama fala ainda de sua formação intelectual (leituras de Ralph Ellison, Langston Hughes, Dostoievski, D. H. Lawrence e Emerson) e seu batismo de fogo na política, ao concluir que não era totalmente absurda a ideia de um negro conseguir um assento no Senado. Sua eleição, revela, melhorou as finanças familiares, mas o furacão Katrina e sua visita ao Iraque puseram por terra seus sonhos juvenis. Teve, admite, uma crise de fé por volta de 2006 – ele nunca acreditou, na verdade, no destino. Mas foi a primeira vez que não considerou fora de cogitação concorrer à presidência (Joe Biden e Hillary Clinton também pensaram na mesma coisa, preparando o terreno para 2008).

Acusação maluca dizia que Obama foi traficante

No segundo capítulo do livro, Sim, Nós Podemos, que começa em 2007, Obama anuncia sua candidatura à presidência, comenta as teorias malucas sobre ele que ganharam ampla divulgação (de traficante de entorpecentes a michê quando jovem), cita a rivalidade inicial com Hillary Clinton (batalhando palmo a palmo o cargo presidencial) e o apoio decisivo do sete vezes senador Ted Kennedy (1932-2009), citando pela primeira vez (na página 177), o nome de seu futuro vice, Joe Biden, agora eleito presidente. Seu colega de Senado não poderia ser mais diferente de Obama.

Bush recebeu Obama bem

No terceiro capítulo, Renegade, Obama fala de Bush com simpatia – até mais do que se esperaria de um democrata – e diz que ele acabou fazendo de tudo para que a transição corresse bem. Já presidente, em 2009, ele lembra que a madrasta do pai, Mama Sarah, veio do noroeste do Quênia especialmente para a posse – “aquela mulher sem nenhuma instrução formal, que morava numa casa de telhado de zinco, sem água corrente nem saneamento básico, sendo servida no jantar na Blair House”. A parte mais importante desse capítulo diz respeito às primeiras leis e decisões do presidente para superar a grande depressão econômica provocada pela crise de 2008. É possível notar que Obama se via como um novo Roosevelt a promover uma reedição do New Deal, mas havia ainda a guerra no Iraque no caminho e o Afeganistão para atrapalhar, antes de sancionar a Lei da Recuperação. Boa parte desse capítulo é dedicada ao terrorismo e aos custos acumulados nessa guerra (US$ 1 trilhão, mais de 3 mil soldados americanos mortos e 30 mil feridos).

No quarto capítulo, sugestivamente batizado de O Bom Combate, Obama fala da relação dos EUA com seus parceiros europeus, focando nos perfis de Merkel e Sarkozy – a primeira descrita como filha de pastor luterano de “sensibilidade pragmática e analítica” e Sarkozy caracterizado como um baixinho saído de algum quadro de Toulouse-Lautrec que era “puro arroubo emocional e grandiloquência retórica”. Obama gostou mesmo de conhecer o dramaturgo e presidente checo Václav Havel, que deu peso moral aos movimentos democráticos que colocaram um ponto final na era soviética. No capítulo, Obama comenta as diferenças entre culturas de formação islâmica (Arábia Saudita e Indonésia, onde viveu na infância), elogia intelectuais judeus como Eli Wiesel e revela o conteúdo da carta de Ted Kennedy, entregue a ele após sua morte, em que agradecia por Obama ter assumido a causa da reforma da saúde nos EUA.

Obama contra os generais

No quinto capítulo, O Mundo Como Ele é, Obama narra seu acirrado conflito com os generais do Pentágono, conta como recebeu a notícia do prêmio Nobel da Paz (em 9 de outubro de 2009) – uma telefonista da Casa Branca o tirou da cama para dar a notícia que, transmitida à mulher Michelle, foi recebida sem muita convicção: “Que maravilha, amor”, ela disse, rolando para o lado e voltando a dormir. Obama confessa que não se sentiu bem com o prêmio. Havia uma guerra no Iraque, quase todas as semanas visitava soldados mutilados e, acima de tudo, ele havia prometido aos americanos uma política externa diferente. Obama fala da batalha travada com os republicanos contra seu governo (que o acusaram de adular um regime assassino como o iraniano) e das conversas tensas que teve com Putin sobre o programa nuclear do Irã (Obama sugeriu que a Rússia cancelasse uma venda iminente do poderoso sistema de defesa antiaéreo). Ele se identificou mesmo com outro russo e ex-presidente agraciado igualmente com o Nobel da Paz, Gorbachev.

No sexto capítulo, A Toda Prova, que começa no segundo ano do mandato presidencial, quando seus índices de aprovação começaram a cair, Obama relata as dificuldades que teve para sancionar, em 2010, a lei de Reforma de Wall Street e Proteção ao Consumidor, que não lhe traria muitos ganhos políticos. Além disso, o dano ambiental provocado pelo derramamento da plataforma Deepwater no golfo do México – o poço de Macondo liberaria, segundo as projeções da época, mais de 4 milhões de barris de petróleo em mar aberto – ajudaram na queda da popularidade de um presidente comprometido com o meio ambiente. Para finalizar, o compromisso de fechar o centro de detenção de Guantánamo começou a fazer água. Como alternativa, Obama apostou em dois projetos de lei polêmicos (o que garantiria direitos à comunidade gay e o que tentou regularizar a situação de 11 milhões de imigrantes que moravam nos EUA). A incapacidade de aprovar a lei Dream (dos imigrantes), diz Obama, foi “uma pílula amarga e difícil de engolir”.

A vitória contra Bin Laden

No sétimo e último capítulo do primeiro volume de suas memórias, Na Corda Bamba, Obama tenta compensar esse fiasco falando da vitória contra o terrorista Osama Bin Laden, o homem por trás dos atentados do 11 de Setembro. Passa pelo inevitável conflito entre Israel e palestinos, a morte de Gaddafi, sua visita ao Brasil, seu encontro com a ex-presidente Dilma Roussef, suas impressões sobre a pobreza e o racismo “profundamente enraizado” em nosso país e, finalmente, seu entusiasmo pela operação da Marinha americana contra o esconderijo de Bin Laden. Foi a primeira vez que, como presidente, assistiu a uma operação militar em tempo real. Agora, é aguardar o segundo volume de suas memórias para saber mais sobre as contradições de um Nobel da Paz que viveu o tempo todo entre guerras como presidente.

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As memórias de Barack Obama reveladas em 'Uma Terra Prometida'

Chega às livrarias, nesta terça, 17, o primeiro volume das memórias do ex-presidente norte-americano, ‘Uma Terra Prometida’, do qual o ‘Aliás’ reproduz trecho sobre os ataques que ele sofreu como político

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

Aguardado com ansiedade num momento em que republicanos declaram guerra aos democratas nos Estados Unidos, não reconhecendo a vitória de Joe Biden, o primeiro volume das memórias do ex-presidente norte-americano Barack Obama, Uma Terra Prometida, chega às livrarias brasileiras nesta terça-feira, 17, pela editora Companhia das Letras. O lançamento é simultâneo ao da edição americana (Random House), que sai com mais de 3 milhões de cópias nos EUA. É um ‘tour de force’ sincero. Nele, Obama expõe detalhes de sua campanha presidencial, os ataques violentos que recebeu da mídia conservadora, a campanha de difamação da qual foi vítima nas redes sociais - em que foi acusado desde tráfico de drogas à prostituição quando jovem - e as manifestações de racismo contra ele e sua mulher Michelle, que chegou a cogitar não aparecer ao lado do marido na campanha presidencial de 2008 para não prejudicar a imagem de Obama. Tudo isso o ex-presidente, que teve como vice o agora vitorioso Joe Biden, conta aqui, em trecho cedido com exclusividade pela editora ao Aliás.

 

 

O livro chega num momento difícil para a nação americana, dividida pela raivosa recusa de Trump em aceitar a vitória do oponente Biden. Obama sugere no livro estratégias que podem aproximar democratas e republicanos. Seus livros autobiográficos anteriormente lançados insistiam na necessidade de conciliação entre os partidos. Ambos foram estrondosos sucessos. O primeiro livro, A Origem dos Meus Sonhos (1995) vendeu 3,3 milhões de cópias. O segundo, A Audácia da Esperança (2006), mais de 4 milhões. Ambos serão republicados em janeiro pela Companhia das Letras.

O primeiro (agora com o título Sonhos do Meu Pai) é um acerto de contas com o pai ausente e uma tentativa de entender sua infância marcada pelo multiculturalismo. Obama, um homem culto, conheceu dois mundos totalmente diversos e parecia destinado a não se integrar a nenhum deles - nem ao do pai, morto num acidente de carro no Quênia, em 1982, nem ao que escolheu para viver, os EUA, vindo de Honolulu, onde nasceu, em 1961. O livro foi elogiado por nomes como Toni Morrison e Philip Roth.

O segundo livro, A Audácia da Esperança, escrito quando Obama ainda era senador, traduz seu credo político, espiritual e pessoal, o de que todos os americanos são unidos por duas crenças, a liberdade e a comunidade. Nele, Obama critica o sistema eleitoral americano, dizendo que os políticos acabam mimetizando seus patrocinadores, deixando-se influenciar por forças sociais poderosas e ficando vulneráveis à força do dinheiro dos ricos. Para o ex-presidente, o que conta hoje são as batalhas de ideias, não de armas, citando o belicismo e a irracionalidade americana que explodiram após os atos terroristas do 11 de setembro de 2001.

 

 

UMA TERRA PROMETIDA

Autor: Barack Obama

Tradução: Berilo Vargas, Cássio de Arantes Leite, Denise Bottmann e Jorio Dauster

Editora: Cia. das Letras (764 págs., R$ 79,90)

 

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Imagem. Barack Obamaem 2009, na Casa Branca, ao assumir a presidência dos EUA. Pete Souza|The White House

Exclusivo: 'Terror contra um negro na Casa Branca'

Em trecho do livro ‘Uma Terra Prometida’, Obama conta como foi alvo de um plano hediondo para desistir da presidência

Barack Obama , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Imagem. Barack Obamaem 2009, na Casa Branca, ao assumir a presidência dos EUA. Pete Souza|The White House

O que também me impressionou foi o crescente papel que a tecnologia desempenhara em nossas vitórias. A extraordinária juventude de minha equipe nos permitiu adotar e refinar as redes digitais que a campanha de Howard Dean pusera em movimento quatro anos antes. Nossa posição de novatos nos forçava a confiar mais e mais na energia e criatividade de nossos voluntários craques em internet. Milhões de pequenos doadores estavam ajudando a impulsionar nossa operação, encaminhando links que contribuíam para espalhar nossas mensagens de campanha de maneiras que a grande mídia não era capaz, e novas comunidades se formavam entre pessoas antes isoladas umas das outras. Ao sair da Super Terça, eu estava inspirado, imaginando vislumbrar no futuro um ressurgimento da participação de baixo para cima que podia fazer nossa democracia funcionar de novo. Eu ainda não tinha entendido a extraordinária flexibilidade dessa nova tecnologia, a rapidez com que seria absorvida por grupos comerciais e utilizada pelos poderes estabelecidos, a prontidão com que seria usada não para unir as pessoas, mas para confundi-las e dividi-las - nem que um dia muitas das mesmas ferramentas que me levaram à Casa Branca seriam empregadas no sentido oposto de tudo que eu representava.

Essas revelações viriam mais tarde. Depois da Super Terça, seguimos em frente num absoluto frenesi de atividades, vencendo 11 primárias e caucuses em sequência, por uma margem média de 36%. Foi um período inebriante, quase surreal, apesar dos nossos esforços, meus e da minha equipe, para controlar nosso entusiasmo - “Lembrem-se de New Hampshire!” era um brado muito repetido -, sabendo que a batalha prosseguiria, cientes de que ainda havia muita gente torcendo por nosso fracasso.

 

 

*

 

Em The Souls of Black Folk, o sociólogo W. E. B. Du Bois descreve a “dupla consciência” dos negros americanos no alvorecer do século 20. Apesar de nascidos e criados em solo americano, moldados pelas instituições do país e imbuídos de seu credo, apesar de suas mãos laboriosas e seus corações pulsantes terem contribuído tanto para a economia e para a cultura do país - apesar disso tudo, escreve Du Bois, os negros americanos continuam sendo perpetuamente o “Outro”, sempre do lado de fora a olhar para dentro, sempre sentindo que sua “duplicidade” é definida não pelo que são, mas pelo que jamais podem ser.

Quando jovem, aprendi muito com os escritos de Du Bois. Mas, fosse pela origem e identidade dos meus pais e pela criação que recebi, fosse pela época em que me tornei adulto, nunca tive tal sentimento de “dupla consciência”. Já havia me confrontado com as implicações de minha condição multirracial e com a existência da discriminação racial. Em nenhum momento, porém, cheguei a questionar - ou de alguma maneira pus em dúvida - minha “americanidade”.

Claro, eu nunca tinha concorrido à presidência.

Mesmo antes de meu anúncio formal, Gibbs e nossa equipe de comunicações já se ocupavam de rebater os rumores que pipocavam em programas de rádio conservadores com participação de ouvintes ou em sites irresponsáveis, antes de migrarem para o Drudge Report e para a Fox News. Relatos diziam que eu tinha estudado numa madraça indonésia, e eles ganharam tanta força que um correspondente da CNN se deu ao trabalho de viajar até a escola onde cursei o ensino fundamental em Jacarta e encontrou um bando de meninos uniformizados à moda ocidental escutando New Kids on the Block em iPods. Havia alegações de que eu não era cidadão americano (ilustradas por uma fotografia na qual apareço trajando roupas africanas no casamento de meu meio-irmão queniano). À medida que a campanha avançava, mais mentiras sinistras começavam a circular. Esses novos boatos não tinham a ver com minha nacionalidade, e sim com uma “estrangeiridade” de uma espécie mais familiar, mais doméstica, de matizes mais sombrios: diziam que eu vendera drogas, que trabalhara como michê, que tinha ligações marxistas e era pai de muitos filhos ilegítimos.

 

 

Era difícil levar essas coisas a sério, e pelo menos de início não houve muita gente que levasse - em 2008, a internet ainda era muito lenta, disseminada de forma muito irregular, e muito distante do noticiário dos meios de comunicação tradicional para penetrar diretamente na cabeça dos eleitores. Mas havia maneiras indiretas, mais sutis, de questionar minhas afinidades.

Depois dos ataques terroristas de 11 de Setembro, por exemplo, eu tinha passado a usar alfinete de lapela com a bandeira dos Estados Unidos, o que era considerado uma forma de expressar solidariedade nacional diante daquela enorme tragédia. Então, ao longo do debate sobre a guerra de Bush contra o terrorismo e a invasão do Iraque - vendo a campanha de ataques pessoais contra John Kerry e ouvindo o patriotismo dos que se opunham à Guerra do Iraque ser posto em dúvida por gente como Karl Rove, vendo meus colegas no Senado, todos ostentando alfinetes de lapela com bandeira, votarem de bom grado por cortes orçamentários no financiamento de programas para veteranos -, discretamente abandonei esse hábito. Não foi um ato de protesto, e sim uma maneira de lembrar a mim mesmo que o conteúdo do patriotismo é muito mais importante do que a simbologia. Ninguém pareceu notar, especialmente porque a maioria dos senadores - incluindo o ex-prisioneiro de guerra John McCain, da Marinha - aparecia o tempo todo sem bandeirinhas na lapela.

 

 

Assim sendo, em outubro, quando um repórter em Iowa me perguntou por que eu não usava uma, respondi com toda a sinceridade que não me parecia que a presença ou ausência de um símbolo à venda em qualquer esquina pudesse servir como medida do amor de alguém pelo país. Não demorou para que os analistas conservadores batessem na tecla do suposto significado da minha lapela vazia. Obama odeia a bandeira, Obama desrespeita nossos soldados. Meses depois, ainda insistiam nisso, o que começou a me irritar. Minha vontade era perguntar por que só os meus alfinetes de lapela, e não os de nenhum candidato a presidente antes de mim, de repente atraíam tanta atenção. Como era de esperar, Gibbs me dissuadiu de fazer esse tipo de desabafo público.

“Por que dar a eles essa satisfação?”, aconselhou. “Você está ganhando.”

Ele estava certo. Mas não me deixei convencer com tanta facilidade quando vi o mesmo tipo de insinuação dirigido à minha mulher. 

Depois de Iowa, Michelle continuou a brilhar na campanha eleitoral. Com as meninas na escola, limitamos sua aparição a disputas acirradas e suas viagens basicamente aos fins de semana, mas, aonde quer que fosse, ela era engraçada e cativante, perspicaz e direta. Falava sobre criação de filhos e o esforço para equilibrar as demandas do trabalho e da família. Descrevia os valores que lhe ensinaram - o pai que jamais faltou um dia de trabalho apesar da esclerose múltipla, a grande atenção que a mãe dava à sua educação, a família na qual o dinheiro faltava e o amor sobrava. Algo saído do universo de Norman Rockwell ou do seriado Leave It to Beaver. Meus sogros eram a personificação perfeita dos gostos e das aspirações que costumamos considerar exclusivamente americanos, e não conheço ninguém mais convencional do que Michelle, cujo prato preferido é hambúrguer com batata frita, que gostava de ver reprises de The Andy Griffith Show e que por nada no mundo perderia a oportunidade de passar um sábado à tarde fazendo compras no shopping.

 

 

E ainda assim, pelo menos segundo alguns comentaristas, Michelle era… diferente, imprópria para ser primeira-dama. Parecia uma pessoa “raivosa”, segundo diziam. Um segmento da Fox News a descreveu meramente como “a mãe das filhas de Obama”. E não era só a imprensa conservadora. A colunista do New York Times Maureen Dowd escreveu que, quando Michelle me descrevia em seus discursos, em tom de brincadeira, como um pai sofrível que deixava o pão embolorar na cozinha e a roupa suja espalhada pela casa (arrancando sempre uma risada solidária do público), não estava me humanizando, e sim me “emasculando”, e com isso diminuindo minhas chances de ser eleito.

Comentários desse tipo eram pouco frequentes, e para alguns de nossos colaboradores faziam parte da baixaria habitual das campanhas políticas. Mas não era assim que Michelle encarava a questão. Ela compreendia que, além da camisa de força na qual se esperava que as mulheres de políticos permanecessem (a companheira amorosa e submissa, graciosa, mas não confiante demais; a mesma camisa de força que Hillary tinha rejeitado, uma escolha pela qual continuava pagando um alto preço), havia um conjunto adicional de estereótipos aplicados a mulheres negras, expressões familiares que elas iam absorvendo pouco a pouco como toxinas a partir do dia em que viam pela primeira vez uma boneca Barbie loura ou despejavam em suas panquecas a calda doce com a figura de Aunt Jemima no rótulo. A ideia de que não correspondiam aos padrões estabelecidos de feminilidade, que suas bundas eram grandes demais, e seus cabelos crespos demais, que eram muito escandalosas, ou exaltadas, ou ofensivas com seus companheiros - que eram não apenas “emasculadoras”, mas masculinas.

Michelle tinha administrado esse fardo emocional a vida inteira, em grande parte sendo extremamente cuidadosa com a aparência, mantendo o controle de si mesma e de seu ambiente e se preparando de forma meticulosa para tudo, mas ao mesmo tempo não se deixando intimidar a ponto de se tornar alguém que não era. O fato de ter preservado sua integridade com tanta graça e dignidade, assim como tantas mulheres conseguem fazer a despeito de tantas mensagens negativas, é extraordinário.

 

 

Mas um ou outro deslize fazem parte da natureza de uma campanha presidencial, claro. No caso de Michelle, aconteceu pouco antes das primárias de Wisconsin, quando, durante um discurso no qual se dizia impressionada com a quantidade de pessoas entusiasmadas com nossa campanha, ela afirmou: “Pela primeira vez em minha vida adulta, eu de verdade sinto orgulho de meu país… porque acho que as pessoas estão ansiosas por mudanças”.

Foi um exemplo clássico de gafe - algumas palavras ditas de improviso que poderiam ser tiradas de contexto e usadas como arma pela imprensa conservadora -, uma versão deturpada do que ela vinha falando tantas vezes em seus discursos a respeito de sentir orgulho da direção que nosso país estava tomando, o aumento promissor da participação do povo na política. A culpa foi em grande parte minha e de minha equipe; pusemos Michelle na estrada sem os discursos escritos, as sessões de preparação e as instruções que eu recebia o tempo todo, uma infraestrutura que me mantinha mobilizado e atento a tudo. Foi como expor um civil ao fogo cruzado sem colete à prova de bala.

Fosse como fosse, os repórteres partiram para o ataque, conjeturando sobre os possíveis danos que os comentários de Michelle causariam à campanha, e indagando até que ponto revelavam os verdadeiros sentimentos do casal Obama. Entendi que aquilo era parte de um plano mais amplo e hediondo, um retrato deliberadamente negativo construído pouco a pouco a partir de estereótipos, estimulado pelo medo, visando a alimentar uma apreensão generalizada em relação à ideia de um negro tomando as decisões mais importantes do país com sua família negra na Casa Branca. Mais do que me preocupar com as consequências para a campanha, porém, eu lamentava ver o quanto aquilo magoava Michelle - o quanto esse tipo de coisa fazia minha mulher, tão forte, inteligente e bela, duvidar de si mesma. Depois desse passo em falso em Wisconsin, ela me lembrou que nunca tinha desejado ser o centro das atenções e disse que, se sua presença na campanha prejudicava mais do que ajudava, ela ficaria em casa. Respondi que a partir de então minha equipe lhe daria mais apoio, e garanti que ela era uma figura muito mais atraente para os eleitores do que eu jamais seria. Mas nada que eu dissesse era capaz de fazê-la se sentir melhor. 

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