Caprichando na lasanha

Aqui, acaba em pizza. Na Itália, na massa recheada com promessas que redundam em retrocessos

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2008 | 22h11

Se no Brasil tudo acaba em pizza, na Itália tudo vira lasanha. Uma camada de fascismo aggiornato, outra de democristianismo mofado, outra de socialismo meia-bomba, outra de comunismo rosado, outra de trotskismo fané, recheadas com o mais suculento ragu que a esperteza e o oportunismo podem dar. Há uma assando no forno. Sairá cozida amanhã. Indigestão na certa. Pobre Itália. O mais belo país do planeta não merecia os políticos que há quase um século se alternam no poder, valendo-se de um sistema eleitoral confuso e absolutamente incompreensível para quem o observa de longe. Alternando-se no Parlamento e no Palazzo Chigi (sede do governo desde 1961), as mesmas caras de sempre, com promessas de reformas que redundam, invariavelmente, em paralisia e retrocesso. Mudanças, só nas siglas partidárias e nos índices de escândalos por corrupção, em perpétua elevação. E, no entanto, é preciso mudar. Com urgência. "Estamos diante de um prazo dramático", alertou recentemente Umberto Eco. "Desde 2001, a Itália decaiu em todos os sentidos: no respeito pelas leis e a Constituição, na situação econômica, no prestígio internacional." Até parece que ele estava falando dos EUA da era Bush. Mas era, mesmo, sobre a sua Itália, em crise permanente, inclusive de identidade. "Se tivermos de passar mais cinco anos governados pela coalizão de direita encabeçada por Silvio Berlusconi, o declínio de nosso país será inexorável e, possivelmente, definitivo", conclui o escritor. Tomara que Eco tenha exagerado, pois a volta de Berlusconi ao cargo de primeiro-ministro, pela terceira vez em 14 anos, parece inevitável. Soa no mínimo absurdo que um demagogo, notoriamente corrupto, não só continue em liberdade e manipulando a opinião pública com seu império midiático, mas também disputando, sobranceiro, o mais importante cargo político do país. Jurando salvar a falida Alitália e construir 700 mil casas populares, a serem vendidas ou alugadas a preço de banana, o canastrão número 1 da Itália tem sua vitória como favas contadas. Minhas excusas caso tenha confundido a plataforma do líder do PDL (Povo das Liberdades) com a de seu principal concorrente ao Palazzo Chigi, Walter Veltroni, o esquerdista pluma do PD (Partido Democrata), que há pouco deixou a prefeitura de Roma. "Sono tutti uguali", diria Totò. "Tutti buona gente", ironizaria De Sica. Tão iguais que já se fala numa coalizão emergencial, num "governo Velustroni", de cunho salvacionista, como se estivesse à altura desse conluio salvar a economia do país (em pandarecos), tirar o ensino público do buraco e Nápoles do lixo, e reverter os efeitos negativos da submissão da Itália ao militarismo americano e das recentes mudanças na legislação trabalhista, no sistema previdenciário e nas normas de segurança."Basta!", protestou o comediante Beppe Grillo, cujo blog transformou-se na mais visitada vitrine de políticos corruptos da Itália. Grillo, como Eco e milhões de outros italianos, tomou fastio da politicalha, dos arreglos espúrios, da roubalheira endêmica, das maquiavélicas renúncias ministeriais-da mesmice, enfim. Só faltou pedir outro prato ("Chega de lasanha!") e manter atualizadas as suas gozações na obsessão de Berlusconi por parecer mais alto (ou menos baixo) do que é. Dia desses, num encontro em Savona, Berlusconi vangloriou-se de ser mais alto do que Vladimir Putin e Nicolas Sarkozy. O italiano mede 1,70m de altura e o francês, 5 cm menos. Mas a piemontesa Carla Bruni é do francês, e não do italiano. Italianos e oriundi enviando seus votos do estrangeiro? Isso lá é novidade de fundamental importância para reerguer o país? A candidatura da atriz pornô Milly D?Abbrachio só pode surpreender quem já se esqueceu de Cicciolina. Milly não disputa o mesmo cargo ambicionado por Berlusconi, Veltroni, Fausto Bertinotti (comunista), Pier Ferdinando Casini (centro) e outros menos votados. Apoiada pelos socialistas, quer ser vereadora em Roma. Para tanto, espalhou pela cidade vários cartazes em que exibe seu generoso traseiro, aposto ao slogan "Chega dessas caras de bunda na política". Cicciolina era mais séria. Até no submundo pornô a política italiana perdeu qualidade.Correndo por fora - mas bem longe da ponta -, a figura mais singular da corrida eleitoral é um romano de 56 anos chamado Giuliano Ferrara. Operístico (e não apenas por lembrar, fisicamente, Pavarotti), talvez seja o maior astro da tragicomédia política italiana da atualidade. Provocador, estridente, um Zé Celson Martinez Corrêa "di destra", Ferrara nasceu comunista. De classe média alta. Filho de um correspondente do jornal L?Unità em Moscou, foi na capital da ex-União Soviética que passou a infância. Já era adolescente quando foi para a Itália, onde, bem jovem ainda, entrou para o PCI de Turim. Abandonou o partido em 1982, desiludido com sua linha dura, aderindo ao neoconservadorismo, depois de ler toda a obra do filósofo político alemão Leo Strauss, guru póstumo dos neoconservadores americanos. Defensor das políticas externas dos EUA e de Israel, da guerra no Iraque, das missões militares da Itália no Líbano e Afeganistão, da ampliação da base americana em Vicenza, de todas as decisões tomadas pelo Vaticano, Ferrara é um calzone ideológico: ateu (mas fã do papa Bento XVI), libertário (mas contra o aborto) e vagamente anarquista (o que não o impediu de ser conselheiro do líder socialista Bettino Craxi e porta-voz e ministro do primeiro governo Berlusconi). Ganhou fama nacional conduzindo um talk-show noturno chamado 8 ½, não por ser uma homenagem a Fellini, mas por causa da hora em que ia ao ar. Por causa da campanha eleitoral, ausentou-se da televisão, sem, contudo, abandonar a redação de Il Foglio, jornal nanico que lançou em 1996, com ajuda financeira de Berlusconi. Muitos o consideram um "bufão", um vira-casacas nada confiável. Levou uma saraivada de tomates em Bolonha, na semana retrasada. No domingo seguinte, o New York Times brindou-o com um perfil no caderno Week in Review. Nem em quinto lugar deverá chegar nas eleições de hoje, mas isso não lhe tira o sono. "Não busco votos, mas espaço para agitar idéias", diz sempre. Tantas agitou que acabou virando uma espécie de leproso político. Nem Berlusconi, que aceita tudo para alcançar e manter-se no poder, o quer em sua coligação de centro-direita. TERÇA, 8 DE ABRILMais à esquerda O ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi afirma que, se voltar ao cargo, quer evitar a venda da Alitalia para um grupo estrangeiro. E anuncia o nome do futuro ministro da Economia. É Giulio Tremonti, que se insurge, em seu livro mais recente, contra o "mercadismo".

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