Cara Miley

Seria fácil supor que a carta aberta seja um sintoma da era da internet. Não é assim. A carta aberta sempre teve uma estratégia retórica interessante - uma maneira de transmitir uma mensagem contundente a um indivíduo ou grupo específico, atingindo, simultaneamente, um público mais amplo. De Émile Zola a Martin Luther King Jr. e Bill Gates, cartas abertas foram escritas por grandes e pequenos motivos. Hoje, elas são pura fúria - mas algumas carregam gravidade, sabedoria e empatia, por exemplo, a Carta de uma Prisão de Birmingham, de Martin Luther King.

ROXANE GAY / SALON, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2013 | 02h14

A maioria das cartas abertas provém de um bom lugar, nascidas de genuína indignação. Há ainda nessas cartas uma presunção, um senso de que nós, seus autores, sabemos mais do que aqueles a quem são endereçadas. Comunicaremos nossas opiniões a vocês, com ou sem seu consentimento.

Também é interessante quanto nos sentimos compelidos a dissecar as vidas de mulheres jovens, especialmente as que se comportam de maneira sexualmente provocativa. Às vezes, uma mulher é sexualmente provocativa porque ela é assim. Descaramento dela! O que essas jovens estão fazendo? Que estão vestindo? Com quem estão saindo? Por que não têm respeito próprio? O que seus pais acham? Gostamos de pensar que somos progressistas e evoluídos, mas ainda julgamos o comportamento das jovens com padrões muito rígidos.

Quando Sinead O'Connor, acostumada à bisbilhotice do público, escreveu uma carta aberta a Miley Cyrus, sua missiva se tornou instantaneamente viral. Ali estava uma mulher dizendo a outra para se cuidar. O'Connor escreveu a carta porque, na Rolling Stone, Cyrus indicou que Nothing Compares 2U foi uma inspiração para seu novo clipe Wrecking Ball. Nunca se sabe como o público vai se inspirar. Há coisas que um artista simplesmente não pode controlar.

O'Connor dá a Cyrus um conselho razoável, maternal. Mas é chocante que esteja prevenindo Miley contra a participação em sua própria objetivação sexual em vez de, por exemplo, recriminá-la pelo que muitos (eu entre eles) reconhecem como o real problema da nova imagem da cantora: a exploração de certos aspectos da cultura negra visando a atenção, lucro e ganhos pessoais. É estranho também que alguns achem a nova imagem de Cyrus tão problemática enquanto pouco foi dito sobre sua personagem Hannah Montana, tão deliberada e cuidadosamente criada pela máquina de celebridades da Disney.

O'Connor escreve: "A verdadeira potencialização de você mesma como mulher seria no futuro recusar a exploração de seu corpo ou de sua sexualidade para homens ganharem dinheiro com você". Sempre me acautelo com declarações sobre verdadeiro feminismo e verdadeira potencialização, como se houvesse uma definição verdadeira. Abstenho-me de usar expressões como prostituindo-se e os muitos julgamentos aí implícitos, para não mencionar a desnecessária difamação de trabalhadores sexuais.

Houve outras cartas de O'Connor, bem menos maternais, malhando Cyrus por sua resposta presunçosa e imatura pelo Twitter. Em carta resposta à de O'Connor, Amanda Palmer mencionou a necessidade de as jovens terem a liberdade de explorar o próprio talento artístico. Já houve incontáveis outras respostas online e haverá muitas mais; e aí outra celebridade fará alguma coisa "chocante", outra carta aberta será escrita, o ciclo recomeçará e nos esqueceremos até de como a conversa começou.

Isto não é uma defesa de Miley Cyrus. Considero sua persona atual frustrante e sua música intragável. Quando vi o vídeo Wrecking Ball, a felação do malho me confundiu. Fiquei preocupada quanto às partículas da bola de demolição entrarem em suas fendas nuas - seria terrível alguém contrair tétano nas partes tenras. O que Cyrus chama de rebolar não é realmente rebolar. Ela tem uma fixação excessiva em mostrar a língua. Está se fazendo de fã do hip hop porque pode, e quando se cansar do papel, tentará outra coisa; e ainda não têm uma genuína compreensão da cultura. Mas não é diferente da maioria das jovens. Antes dela, estivemos dissecando Britney, Amanda, Selena, Christina, Demi, Rihanna. Jovens famosas ficam desproporcionalmente sujeitas a nossas opiniões porque testemunhamos sua chegada à maturidade. Para cada geração há uma mulher jovem famosa a ser julgada, como se o destino de toda a feminilidade estivesse em suas mãos.

Se isto é a defesa de alguma coisa, é defesa das escolhas que fazemos na faixa dos 20 anos, algumas delas desesperadamente desavisadas, mas que fazemos mesmo assim. Rejeito a ideia de que quando mulheres jovens fazem escolhas das quais discordamos elas estejam agindo sem autonomia. Embora discorde de suas escolhas, suspeito que Miley Cyrus (ainda que ela também esteja sendo explorada) sabe com toda a clareza o que está fazendo e por quê. Por que a absolveríamos de responsabilidade por suas escolhas?

E talvez isto seja também uma defesa de mulheres mais velhas que olham para algumas escolhas que mulheres fazem durante seus 20 e poucos anos, e porque já estivemos lá não podemos nos furtar de querer protegê-las do inevitável. Em sua Carta da Prisão de Birmingham, Martin Luther King escreveu: "O que afeta um diretamente, afeta todos indiretamente". / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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