Instituto Hercule Florence
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'Carecemos de histórias contadas pelos indígenas', diz historiadora

Maria Luiza Tucci Carneiro organiza livro com ensaios sobre a questão indígena

Edison Veiga*, Especial para o Estado

11 de maio de 2019 | 16h00

Maria Luiza Tucci Carneiro é uma vasculhadora de histórias perdidas, quase esquecidas. Uma obcecada pelo resgate de versões, memórias, vidas que, na decantação da História, acabaram oprimidas. É um trabalho diuturno, realizado com sua pequena equipe no Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (Leer), que ela coordena no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. 

Na virada do século 21, a historiadora vasculhou os acervos do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo, o Deops. Por meio dos prontuários armazenados pelo Arquivo do Estado, conseguiu reconstituir histórias dos fichados por regimes autoritários do passado, seja a Era Vargas, seja a ditadura militar que durou de 1964 a 1985. Mais recentemente, o Leer tem se dedicado a gravar memórias de sobreviventes do Holocausto que encontraram acolhida no Brasil, bem como, por meio de documentos do Itamaraty e outros órgãos governamentais, lançar uma nova luz sobre a relação do País com a política nazista de Adolf Hitler. 

No início do mês de abril, foi lançado o livro Índios do Brasil – Vida, Cultura e Morte (Intermeios). Carneiro é uma das organizadoras, ao lado da pesquisadora Miriam Rossi. A publicação, uma coletânea de 15 artigos inéditos sobre os povos indígenas brasileiros, é consequência de mais uma preocupação do Leer: os cercas de 900 mil índios que resistem no Brasil contemporâneo. “Carecemos de histórias contadas pelos próprios indígenas”, afirma a historiadora. Não à toa, a USP criou recentemente uma cátedra indígena. 

Como funciona e quais os objetivos da cátedra indígena da USP? 

A cátedra indígena foi criada em 2015, como espaço informal, logo após a realização do seminário Índios no Brasil – agora editado no formato do livro. Trata-se de um espaço para nossas rodas de conversas, cursos e palestras. A ideia surgiu com objetivo de oferecer espaços junto a Universidade de São Paulo para os povos indígenas compartilharem seus saberes. Tal proposta identifica-se com o perfil do Leer, que tem como linha-mestra a defesa das minorias que, em alguns momentos da história, foram ou ainda são, tratados como párias ou cidadãos de segunda-classe. A parceria com os representantes das comunidades indígenas, além de produzir e divulgar conhecimentos de forma multidisciplinar, procura incentivar ações positivas que, por meio da educação, da ciência e da cultura política, ajudem a combater atos de intolerância, de injustiça social e de desrespeito aos direitos humanos. Como funciona? As proposta de eventos e rodas de conversas são agendadas com a ajuda de alunos indígenas inscritos nos cursos de graduação e pós-graduação da USP e outras universidades brasileiras. Ou ainda via representantes das comunidades indígenas que procuram o LEER.

Pelo menos para quem vê de fora, parece que a academia brasileira estuda ou estudou pouco os povos indígenas. Aparecem muito mais pesquisas sobre outros povos, principalmente os chamados imigrantes, do que voltados aos que já existiam aqui antes da chegada do europeu. Em sua opinião, a que isso se deve?

Creio que, desde as duas últimas décadas do século 20, tivemos importantes avanços nos estudos sobre os povos indígenas que ganharam novos títulos junto à historiografia brasileira e latino-americana. Ressalto aqui, dentre outros estudos pioneiros, os de Darcy Ribeiro, sobre as culturas e línguas indígenas. Lembro também a importante produção acadêmica da Maria Manuela Carneiro da Cunha e as fotografias de Alice Brill e Claudia Andujar, com registros e testemunhos dos povos indígenas marcados pela discriminação e epidemias. Os estudos estão sendo realizados, mas carecemos de políticas públicas que divulguem esses resultado, incluindo-os nos nossos livros didáticos. Não podemos ser coniventes com a “ideologia do esquecimento”. 

‘Índios do Brasil – Vida, Cultura e Morte’ mostra que, atualmente, são 300 povos indígenas em 5 mil tribos no Brasil, com 200 idiomas falados por eles... De que maneira essas culturas deveriam ser melhor protegidas?

Respeitando as garantias da legislação internacional e da Constituição Federal de 1988. Tais direitos fundamentais sobre as diversidades dos modos de existência não surgiram por acaso: decorrem de lutas sociais, como reparações a terríveis violências impostas às populações vulnerabilizadas em certos momentos da história – e para que tais violências nunca mais venham a ocorrer. Mas parece que se tenta apagar o passado para não se enxergar o presente. É preciso olhar com cuidado para que esse passado não se repita nas frágeis estruturas democráticas atuais, pois vivemos uma democracia de “baixísima intensidade”, como comentou o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. Precisamos abrir canais para que os povos indígenas possam ser ouvidos ou consultados por projetos de Estado que afetem e garantam sua existência.

Apesar de serem povos diferentes entre si, o tratamento dado aos índios (nas escolas ou nas políticas públicas) geralmente os coloca no mesmo balaio. Isso é correto? Não seria necessário compreender suas especificidades?

Não apenas conhecer as suas especificidades, mas também suas trajetórias e culturas. Necessitamos ampliar os espaços de debate e as rodas de conversas com os povos indígenas, oportunidades únicas para as trocas de experiências. Carecemos de livros didáticos, carecemos de eventos culturais, carecemos de histórias contadas pelos próprios indígenas.

Ao longo da nossa história, como foram as mudanças de paradigma com relação ao índio? Digo: no início, era aquele ingênuo da carta de Pero Vaz, pronto para ser catequizado pelos jesuítas; depois se tornou mão de obra, caçado por bandeirantes; etc.; até chegar ao índio contemporâneo, incorporado ao dia a dia das cidades ou ainda marginalizado em suas aldeias.

Veja bem: dos aproximadamente 5 milhões de indígenas que viviam no Brasil desde o período colonial até o republicano, milhares e milhares de indígenas foram caçados, escravizados, explorados, catequizados e exterminados em diferentes momentos da história do Brasil. Restam apenas cerca de 300 povos indígenas, 900 mil indivíduos, segundo censo do IBGE, vivendo em condições precárias, e principalmente ameaçados por forças anti-indígenas. As violações culturais, espirituais e físicas persistem como um baixo continuum, silenciosa, mas sempre presentes. Cito aqui um trecho da carta aberta divulgada no ato de encerramento do seminário Índios no Brasil em 2015: “Durante a ditadura militar, a violação e a omissão culminaram com a aniquilacão desses povos pela ‘assimilação’ e pelo desprezo aos seus saberes. Muitos destes crimes antecederam a ditadura, desde a decadência do Serviço de Proteção ao Índio e o avanço das frentes de colonização e de expansão do capitalismo que agiam com o apoio do Estado; mas não da forma planejada que aconteceu a partir da Operacão Amazônia (1966), da criação da Funai (1967) e das estratégias geopolíticas de controle do território e das populações. No entanto, os anos de chumbo foram brutais e seus efeitos seguiram violentos durante a ‘transição intransitiva’, cujos conflitos se agravaram pela omissão e não reparação das violências e dos esbulhos. (...) A publicação do relatório da Comissão Nacional da Verdade ao final de 2014 serviu para, ao menos oficialmente, apresentar uma nova dinâmica da violência do Estado durante a ditadura, de forma alguma branda; seja na revisão dos mortos (muito superior ao que se considerava), assim como a especificidade de alguns casos de genocídios.” 

Como a senhora vê o tratamento dispensado aos povos indígenas pelas atuais políticas públicas governamentais? Há um temor que o novo governo esvazie ainda mais órgãos como a Funai? 

Creio que este temor é fato e deve ser considerado. Necessitamos de amplos debates na sociedade, constituição de grupos de estudos e pesquisas, assim como de livros didáticos. Povos indígenas precisam de reparação das violações e respeito à sua cultura. Necessitamos de justiça social.

O Leer realiza um trabalho importantíssimo de coleta e arquivamento de depoimentos de sobreviventes do Holocausto. No caso dos povos indígenas, há planos de realizar algo semelhante? Gravações de depoimentos, registros orais de suas tradições e idiomas? 

Sim, estamos prevendo o registro de testemunhos como parte do projeto Índios no Brasil que continua em andamento junto ao Leer, envolvendo diretamente alunos de pós-graduacão e graduacão da USP. Para saber mais sobre as nossas iniciativas e base de dados, convido-os a visitar os sites www.usp.br/leer e www.arqshoah.com. 

*EDISON VEIGA É JORNALISTA E ESCRITOR 

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