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Carência existencial

Muitos protestos ocorridos nos últimos tempos não são de vítimas de carecimentos materiais

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo

04 Outubro 2014 | 16h00

 

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O desenvolvimento moderno enriqueceu países que há um século alocavam a prosperidade a um número restrito de pessoas, mas não enriqueceu sociedades. Uma sociedade se enriquece quando emancipa seus membros de suas carências. Não só a falta de comida na mesa ou de casa para morar. Carência não ocorre apenas no âmbito do ter. Sociologicamente, carência é a falta do essencial para ser. É, portanto, muito mais do que o necessário para o hoje e o atual.

No entanto, entre nós, mesmo as religiões tornaram-se materialistas. O discurso sobre a indevidamente chamada exclusão social, que é predominantemente um discurso pseudorreligioso para disfarçar o discurso partidário do púlpito, limita-se às carências do ter. É evidente que na atualidade a justa indignação contra a pobreza ainda se nutra da perspectiva moral das crenças, numa espécie de concepção pré-política dos problemas sociais. Mas também elas sucumbiram à ideologia da precedência dos fatores econômicos como causa dos problemas sociais e da economia como seu remédio. É claro que problemas e soluções passam também por aí. Mas não só, nem mesmo principalmente.

Não se pode deixar de notar que um número significativo de protestos ocorridos na sociedade brasileira nos últimos tempos não o é de grupos humanos que possam ser definidos como de vítimas de carecimentos materiais. O teor difuso dos discursos - em faixas, cartazes, pichações, refrões, gestos e atos - não sugere que nas ruas estejam os pobres das concepções teológicas nem os pobres das concepções partidárias. São outras as carências que alimentam o grito das ruas, das greves universitárias, da violência cotidiana. A principal das quais é a carência de clareza nas demandas e de certeza nas exigências. Protestar é hoje praticamente um rito, mesmo que o conteúdo e a função social não estejam claros para os próprios manifestantes. Os pobres também estão lá, mas como coadjuvantes secundários, como número e não como pessoas. Suas demandas tornaram-se adjetivas em relação a urgências que são, na verdade, as da classe média.

A enorme carência oculta nessas manifestações de tendência autodestrutiva é a carência de esperança, a esperança que quem é condenado a uma vida de pessoa supérflua não pode ter. Quem não tem lugar na sociedade de hoje e não tem certeza de tê-lo na de amanhã não pode ter esperança e, ao não tê-la, não pode se sentir membro da sociedade que hostiliza.

A geração dos pais e avós também foi lesada pelas necessidades não resolvidas, pelas adversidades de um desenvolvimento social que tem estado, historicamente, muito aquém do desenvolvimento econômico. Diferentemente do que aconteceu nos países metropolitanos, pioneiros do desenvolvimento moderno, como a Inglaterra, a Alemanha, os Estados Unidos, a França, aqui as inovações econômicas, com extensas repercussões sociais, foram importadas prontas, causando em meses o impacto que tardou dezenas de anos nos países de origem. Vimos isso acontecer em nossa agricultura nos anos 1950 e 1960, com a precarização do trabalho e o desemprego sazonal, as migrações, a formação das periferias, o desemprego e a subocupação urbana. A sociedade paga hoje o preço do salto tecnológico ocorrido há meio século. Não pode haver amanhã num hoje que já está sobrando e no horizonte de quem é dele sobrante.

De certo modo, a alternativa econômica do salto tecnológico importado produz o descarte mais ou menos rápido de numerosos grupos humanos, tornando obsoletos conhecimentos e pessoas, o chamado capital social e cultural. Tem sido assim em outros países latino-americanos, na Ásia e na África. Aqui no Brasil, nos anos 1950, era raro que um trabalhador ficasse desempregado mais do que uma semana. Hoje é raro que o desemprego de alguém não se estenda por longos meses, com especial impacto nos jovens de diferentes classes sociais, no campo e na cidade. O salto tecnológico do crescimento econômico não foi compensado pelo salto social do desenvolvimento econômico, novas indústrias, novos empregos. A família se reorganizou para enfrentar esse quadro adverso, reinstituindo a economia familiar para socializar os prejuízos do desemprego. Isso atenua e compromete a autonomia de que os jovens carecem para firmar a própria identidade e atualizar seus horizontes. Retarda o ingresso na idade adulta, o que resultou numa geração de numerosos jovens com corpo de adulto e mentalidade de adolescente.

Se antes havia adversários bem definidos do bem comum, equivocadamente ou não, hoje a revolta se dirige contra os mais próximos. É o que explica que em boa parte a conflitividade social dos dias de hoje tenha a forte marca de um conflito de gerações. Ela está tanto nas greves selvagens das universidades como nos linchamentos. Nesses, a incidência de violência fatal é maior contra jovens e até crianças, que a geração adulta vê como uma geração de ociosos e desfrutadores. Não tem em conta as mudanças que levaram a juventude a se sentir supérflua e descartável.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE EXCLUSÃO SOCIAL E A NOVA DESIGUALDADE (PAULUS)

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