Carne de pescoço

Os últimos tempos parecem ser de inferno astral para a bicharada dos zoológicos. Na segunda-feira, um urso polar morreu no zoo de Stuttgart depois de comer um blusão jogado por um visitante. Pouco antes, em zoos da Polônia e da Grécia, um leão-marinho expirara ao engolir um Mickey de pelúcia e um hipopótamo não resistira a uma bola de tênis. Mas o mais chocante foi em Copenhague, onde os próprios responsáveis pelo zoológico fatiaram uma girafa de dois anos e serviram seus pedaços aos leões perante dezenas de crianças embasbacadas.

PAULO NOGUEIRA , O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2014 | 02h09

Nascido no próprio zoo, Marius era um macho, vendia saúde e tinha três metros de altura. A decisão de sacrificá-lo foi justificada pelo fato de os genes dele já estarem representados nas outras sete girafas do zoológico e ser necessário impedir cruzamentos consanguíneos.

Marius foi abatido com uma espingarda (e não com injeção, para evitar a contaminação da carne). Depois, esfolado, dissecado e esquartejado publicamente - alto-falantes convidaram os curiosos a assistir. Por fim, nacos ensanguentados da girafa foram servidos aos leões, banquete também acompanhado pelo público - algumas crianças fizeram beicinho de choro, outras preferiram tirar fotos e filmar o regabofe leonino.

Previsivelmente, o episódio causou indignação entre os defensores dos direitos dos animais. Ainda antes de Marius ir para o beleléu, o zoológico recebeu 30 mil assinaturas online em protesto. Também chegaram ameaças de morte aos responsáveis pelo zoo. Um cidadão privado ofereceu 500 mil (R$ 1,5 milhão) pela girafinha, para lhe salvar a vida. Um zoo inglês e outro canadense se prontificaram a acolher Marius. A associação Animal Rights Sweden propôs um boicote imediato a todos os zoológicos do mundo, alegando que "o martírio de Marius expõe um fato rotineiro: quando há problemas de espaço, ou os genes dos animais não são considerados interessantes, eles simplesmente são assassinados pelos zoológicos".

O zoo de Copenhague tentou jogar água na fervura, mas acabou regando com nitroglicerina. O diretor científico, Bengt Holst, disse que "as pessoas enlouqueceram. Estamos sendo ameaçados de morte. Ora, uma girafa não é um bichinho de estimação, como um cão ou um gato, que fazem parte da família. É um animal selvagem. Precisa procriar para que a espécie seja renovada. Claro que a girafa é fofinha. Duvido que alguém desse bola se abatêssemos um porco".

O sushi do pobre Marius foi aprovado pela European Association of Zoos and Aquaria (Eaza), que congrega os 347 maiores zoos da Europa. Por um porta-voz, a entidade também aplaudiu a dissecação pública e o festim dos leões: "Foi uma oportunidade educacional única. Quanto aos leões, bem, era apenas carne".

Elisa Allen, do grupo People for the Ethical Treatment of Animals, opinou que o episódio é "um alerta para quem ainda acha que os zoológicos tenham outro objetivo que não seja o encarceramento de animais visando ao lucro. Girafas raramente morrem em cativeiro de morte natural. Se Marius não houvesse morrido hoje, teria vivido uma curta vida como objeto em exposição, num clima frio, a milhares de quilômetros de seu hábitat".

Como demonstrou o caso dos beagles no Brasil, os direitos dos animais viraram um vespeiro ético, apaixonando até colunáveis da filosofia. O australiano Peter Singer formulou no livro Libertação Animal a noção de "especismo", algo como um racismo humano contra outras espécies. Para ele, quer seres humanos quer bichos são munidos de "senciência" - suscetíveis de dor e prazer. Portanto, evitar o sofrimento físico é um imperativo válido para homens e animais. Já o filósofo inglês Roger Scruton pondera que os animais estão privados de requisitos morais inerentes aos seres humanos, pois só nós julgamos, refletimos, imaginamos, rimos e nos indignamos, e só os homens têm consciência de seus direitos e deveres.

Nem todos os militantes pelos direitos dos animais são sensíveis a filigranas conceituais, preferindo por vezes resolver a coisa na marra e no muque. Na Europa e nos EUA, vários cientistas que lidam com cobaias em experiências médicas levaram cuspidas na rua, foram agredidos e ameaçados de morte e tiveram as sepulturas de seus familiares profanadas.

A função dos zoos continua controversa. Como os outros, o zoológico de Copenhague se proclama uma "arca de Noé", preservando espécies cujos hábitats foram destruídos ou inviabilizados por caçadores. Quando tais obstáculos forem removidos, a espécie ameaçada poderá ser reintroduzida em seu ambiente natural.

Os ativistas discordam, assinalando que nos zoos os animais perdem a liberdade de movimento e comprometem instintos naturais, tornando-se entediados ou neuróticos. Várias espécies apresentam extrema dificuldade de procriação em cativeiro, como os pandas, alojados há décadas em zoos do mundo inteiro, com resultados pífios. Por fim, reinserções em hábitats naturais seriam problemáticas, pela necessidade de reensinar tais animais a voar, caçar, construir abrigos e criar seus filhotes em situações aleatórias.

A última mancada do diretor do zoo de Copenhague foi um baita tiro no pé. Holst revelou que, nos parques naturais especializados em veados, também são imolados os animais idosos demais para reprodução e de genes insatisfatórios. Imaginem o que os ativistas sentiram ao saber que fazem essa malvadeza com o Bambi. O bicho vai pegar.  ESCRITOR, JORNALISTA. É AUTOR DE O AMOR É UM LUGAR COMUM , (INTERMEIOS)

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