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Carpe ludos

Somos o país do futebol, o esporte mais popular do planeta. Certo, a conta virá depois, mas, aqui e agora, o mais sábio a fazer é relaxar e aproveitar

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

21 de junho de 2014 | 16h00

Dos slogans e expressões motivados pela Copa do Mundo, dois foram impiedosamente desmoralizados pelos fatos: “Não vai ter Copa” e “Imagine na Copa”. 

Copa houve - ou melhor, está havendo -, e nada deverá impedi-la de seguir seu curso até o fim. Seria mais sensato acreditar em duendes do que na hipótese de um levante nacional contra a realização da maior festa do futebol e em seu cancelamento pelo governo, com base na convicção de que a dinheirama gasta com ela deveria ter sido investida em saúde, educação, transporte e outras centenárias carências nacionais. Deveria, sem dúvida, e só não acrescento “como teria acontecido na Escandinávia” porque todos os países nórdicos, além de previdentes e transparentes, há muito resolveram seus problemas de infraestrutura sanitária e educacional; e tampouco têm suas economias dilapidadas pela corrupção.

Já era tarde demais quando as manifestações contra o Mundial tiveram início, mas duvido que surtissem o efeito pretendido ainda que organizadas antes do acordo festivamente acertado com a Fifa sete anos atrás, com apoio de oposição e governo e a vaidosa aclamação dos demais brasileiros. Porque, afinal, somos “o país do futebol” e a Copa do Mundo é a celebração máxima desse esporte, para nosso orgulho, o mais popular do planeta. Certo, a conta virá depois, algumas ou várias suspeitas se confirmarão (para que tantos estádios, por exemplo?), mas, aqui e agora, o mais sábio a fazer é relaxar e aproveitar.

Há dias, em seu blog, Orlando Senna analisou com lucidez a questão dos conflitos de rua e a Copa, sem perder de vista que o futebol “é um alimento tão importante para a alma brasileira como as manifestações políticas”, e que nem o hexacampeonato nem sua perda desestimularão o brasileiro de continuar lutando por seus direitos e de cobrar, acrescento eu, o cumprimento de pelo menos uma promessa do governo atrelada às despesas com o torneio: melhorar a mobilidade urbana.

“Imagine na Copa” virou um bordão multiuso e onipresente, sem dúvida procedente, mas não confirmado in vitro nas duas primeiras semanas do torneio. O caos previsto nos aeroportos não se intensificou (o fluxo aéreo até melhorou), a segurança fraquejou aqui e ali, mas sem graves consequências, houve falhas no abastecimento de alimentos nos bares dos estádios, facilmente sanáveis, nem a locomoção nas cidades sede da Copa foi a hecatombe anunciada. Apesar dos hooligans nativos e andinos, das enchentes em Natal e da “terraplenagem cultural” (apud Francisco Bosco) promovida pelo padrão Fifa, desde que a bola começou a rolar no Itaquerão o Brasil parece ter ficado mais leve, mais alegre, mais exemplarmente hospitaleiro, mais fiel, portanto, à imagem que de nós o resto do mundo cultiva. Não sentíamos sensação igual desde a Jornada Mundial da Juventude.

Atualize o bordão: “Imagine depois da Copa”. E aguarde os acontecimentos. Enquanto isso, carpe ludos, curtam os jogos.

Diariamente esbarro, na internet, com uma manifestação de entusiasmo pela nossa Copa, desinteressada porque adventícia - e especialmente significativa quando assinada por jornalistas atuantes na imprensa norte-americana, nunca antes tão ligada no campeonato mundial de futebol como neste ano. Esta será a Copa mais vista de todos os tempos. Não tem Olimpíada, não tem show de rock, não tem entrega do Oscar: a World Cup 2014 será o evento de maior audiência da história. Porque o futebol tornou-se a língua franca da globalização e o maior catalisador de emoções que o mundo já conheceu.

“Que torneio!”, exclamou Elaine Teng, no site da revista The New Republic. “Do ponto de vista estatístico, uma Copa histórica”, salientou outro gringo, extasiado com a prevalência do futebol ofensivo neste Mundial (média de gols superior à das últimas dez Copas), com as viradas de jogo (houve apenas quatro em 2010), e, acima de tudo, com a qualidade superior dos times (até os socceroos da Austrália deram seu showzinho de bola), com as inovações tecnológicas enfim aprovadas pelas múmias do International Board para aliviar a barra da arbitragem. Não exagerou quem proclamou esta “uma Copa inesquecível”. Até (ou sobretudo) para os espanhóis e os costa-riquenhos ela foi.

Quem mais deve se preocupar com o que acontecerá depois da Copa é a Fifa. É uma máquina de fazer dinheiro e, desde o reinado de João Havelange, um balcão de maracutaias. Embora deva amortizar US$ 4 bilhões com o Mundial deste ano e tenha conseguido manter seu capo Sepp Blatter por mais um mandato (o quarto!), não lhe será fácil sobreviver às pressões dos grandes clubes europeus e às suspeitas de corrupção endêmica na entidade e no futebol em geral.

Os cinco clubes mais ricos da Europa detestam emprestar seus craques às seleções nacionais e odeiam Blatter e Michel Platini, mandachuva da Uefa, que manobrou nos bastidores para aumentar de 16 para 24 o número de países nas finais do campeonato europeu de 2016. O resto do mundo exige dela mais transparência e explicações sobre quanto levou para desviar a próxima Copa de Londres para Moscou e vender (sim, vender) a de 2022 para o Qatar, sem nenhuma tradição futebolística.

O ex-atacante Karl-Heinz Rummenigge, hoje cartola do Bayern de Munique, já ameaçou liderar “uma revolução” contra a Fifa, depois deste Mundial. Poderosos aliados não lhe faltam, inclusive entre os patrocinadores, liderados pela Sony.

 

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