Lume Filmes
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Carta de Aldous Huxley a George Orwell reacende comparação entre obras

'Admirável Mundo Novo' ou '1984': qual distopia permaneceu mais atual no século 21?

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

17 Novembro 2018 | 16h00

Quando foi que nossos jornais pararam de explicar aos leitores o que é distopia? Disso não deve haver registro, mas exagero pouco se afirmar que já faz um bom tempo que a palavra, de tão ouvida, lida e aplicada com frequência crescente ao Brasil, tornou-se quase tão corriqueira quanto seu antônimo utopia

Sua etimologia é grega: “lugar nenhum” (utopia) e “lugar ruim” (distopia), mas quem deu corpo, uso e difusão aos dois vocábulos falava e escrevia em inglês. Thomas Morus cunhou “utopia” (no sentido de uma sociedade ideal, perfeita, logo inexistente) no começo do século 16, e J. Stuart Mill estreou seu antônimo num discurso ao Parlamento britânico, em 1868. A utopia de Morus já veio plasmada em ficção, a distopia de Mill tardou 23 anos para inspirar um romance, a sátira futurista do também inglês Jerome K. Jerome, A Nova Utopia.

Nove anos mais tarde, com O Tacão de Ferro, o americano Jack London iniciou uma fecunda linhagem de fantasias distópicas fieis ao étimo: sérias, tenebrosas. E os ingleses, como se além da paternidade das duas palavras ambicionassem dominá-las literariamente, não perderam tempo. Em O Dorminhoco, H. G. Wells imaginou um sucedâneo do Rip Van Winkle de Washington Irving, que dormia 203 anos e acordava numa Londres irreconhecível, para o bem e para o mal. 

Mas o domínio britânico só se estabeleceu mesmo depois que Aldous Huxley lançou Admirável Mundo Novo (1931) e George Orwell publicou A Revolução dos Bichos (1945) e 1984 (1949). São as pedras angulares dessa vertente literária, que me perdoem os autores de ficção científica.

Ok, o russo Yevgeny Zamyatin antecipou-se a Huxley e Orwell com o horripilante Nós, irônica visão da sociedade industrial moderna e seu entusiasmo pelo taylorismo como solução científica para tudo, inclusive coibir o livre arbítrio. Stalin ainda não assumira o Kremlin, mas a censura bolchevique já reprimia quem pudesse incomodar a União Soviética, motivo pelo qual Nós saiu primeiro em inglês (em Nova York), e só em 1988 na União Soviética. 

Orwell o leu na tradução francesa. Impressionado, manifestou o desejo de escrever algo na mesma linha, o que só no fim da vida concretizou. Numa das duas ou três vezes em que se referiu, na imprensa, a Admirável Mundo Novo, Orwell apontou o romance de Zamyatin como uma de suas fontes de inspiração—não tão visível quanto O Dorminhoco, de que era uma espécie de paródia—, mas reconhecendo a superioridade literária de Huxley. 

Como visão política, Nós levava nítida vantagem, na avaliação de Orwell.  A “brilhante caricatura da utopia hedonística” urdida por Huxley só lhe parecia possível, e até iminente, antes do surgimento de Hitler, mas, da perspectiva do pós-guerra, sem futuro promissor. Uma sociedade como a de Admirável Mundo Novo, submetida a uma “droga da felicidade” e a “um interminável bufê de sexo casual”, não poderia durar mais do que algumas gerações, estimou Orwell, pois uma classe dirigente que privilegiasse tanto a boa vida e a promiscuidade sexual logo perderia sua vitalidade—e soçobraria. 

Há dias exumaram e publicaram uma carta que em 1949 Huxley escreveu a Orwell, a propósito de 1984, que ele acabara de ler. Huxley fora professor de francês de Eric Arthur Blair (o verdadeiro nome de Orwell) em Eton, 30 anos antes. O mestre gostou do romance; considerou-o “profundamente importante”, mas lhe fez algumas restrições, com especial ênfase ao seu sadismo. 

Huxley recusava-se a antever o futuro como “uma bota pisoteando um rosto para sempre”. Também acreditava que a oligarquia dirigente haveria de encontrar meios menos dispendiosos e desgastantes de satisfazer sua sede de poder do que a parafernália eletrônica montada em Oceânia, para que o Grande Irmão pudesse vigiar todos os seus habitantes, e dava como exemplo de maior eficácia autoritária o emprego de fármacos estupefacientes e recursos hipnóticos, como os empregados em seu abominável mundo novo.

Não gosto de me meter, mas já me meti, na contenda em que volta e meia enfiam os dois romances, com a intenção de avaliar qual deles permanece mais atual, como se isso fosse importante e mensurável. Às vezes, acho que Orwell futurou com mais rentura, outras, que Huxley antecipou o que já veio ou está por vir de forma mais complexa, mais sofisticada. 

Se, por um lado, a televisão não é um veículo tirânico, mas que apenas imbeciliza e mata de prazer, uma droga da felicidade comparável ao soma de Brave New World, por outro, a onipresente figura de Big Brother pode e costuma ser vista como uma espécie de patriarca da espionagem massificada pela internet, em escala mundial. 

Sempre também me pareceu difícil, se não impossível, dizer qual das duas distopias é a mais terrível, se a opressão vigiada de Orwell ou o bem-estar artificial de Huxley. Não há, no Estado Mundial, o “mundo novo” de Huxley, um Grande Irmão permanentemente à espreita nem repressão com o mesmo grau de violência física como em Oceânia, mas uma sociedade cuja felicidade depende de um psicotrópico poderoso como o soma (o “Cristianismo sem lágrimas”, na definição de uma autoridade local) talvez possa prescindir de qualquer outra forma de brutalidade. 

Huxley inventou a escravidão satisfeita, o totalitarismo indolor, e isso talvez faça dele o mais temível profeta do nosso tempo. 

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