Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Cartas de Hilda Hilst reunidas em livro demonstram vida cultural dos anos 70 e 80

Correspondência da poeta com Mora Fuentes e seus contos e crônicas são lançados

Wilson Alves-Bezerra*, Especial para o Estado

28 Julho 2018 | 16h00

Quanto do que um escritor escreve pode ser considerado parte de sua literatura? Cartas e crônicas ocupam que lugar em sua produção? Hilda Hilst (1930-2004), que tem agora lançados sua correspondência inédita com o escritor e artista plástico José Luis Mora Fuentes (1951-2009) – Cartas aos Pósteros – e as crônicas publicadas no jornal campineiro Correio Popular (1992-1995) – recolhidas em Cascos & Carícias – nos permite discutir o tema. 

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A publicação massiva de Hilst deve-se aos festejos da Flip, em Paraty, a ela dedicados. A celebração se deve à comprometida curadoria de Josélia Aguiar, que desde o ano passado passou a homenagear escritores que, em vida, ficaram à margem, como Lima Barreto. O festejo póstumo, ainda que traga o retrogosto do silêncio a eles dedicado em vida, é um acerto de contas com a memória literária do país. Os dois livros de Hilst algo trazem de tal situação: escrever crônicas num jornal de interior após ter escrito obras reconhecidas pela crítica ao longo de uma carreira de quatro décadas pode ser um desafio estimulante, mas pode ser também fruto de uma carência material, como se pode ler, pela voz da própria autora em sua correspondência. 

A publicação das cartas entre Hilda Hilst e Mora Fuentes, um de seus amores, é um acontecimento importante não apenas para os leitores de ambos. Trata-se também de um importante documento que reconstrói parte da vida cultural e social das décadas de 1970 e 80, cobertas pelas cartas: são citadas figuras como o editor Massao Ohno, a artista plástica Maninha Cavalcante, o escritor Caio Fernando Abreu, acusado por Fuentes de ler mal a obra de Hilst. Surgem ainda fatos que dizem respeito à subsistência de um escritor: Fuentes divide-se entre a revisão de livros técnicos, a produção de capas, a pintura de quadros, a escrita de contos, o tratamento dos seus rins e o desejo de que a sua situação financeira melhore. 

A correspondência é um emaranhado de afetos, ambos estão ligados ao longo dos anos por fortes laços. Viveram comunitariamente na Casa do Sol, entre o fim dos anos 1960 e o início dos 1970. Inicialmente, Hilda era casada, mas depois Fuentes e ela tiveram um envolvimento amoroso. A correspondência marca o fim da relação, quando ele se muda para São Paulo. A cumplicidade porém se mantém ao longo dos anos, inclusive o desejo de que os parceiros de um e outro não fossem possessivos para não se interpor à relação dos dois. 

Os missivistas apresentam sua face mais doméstica. De Hilda chama a atenção sua linguagem por vezes infantil, mas também sua angústia em relação ao envelhecimento. Numa das passagens mais tocantes do livro, ela descreve de modo cru seu corpo: “agora uma crosta amarela sobre os dentes quando acordo, um pegajoso lúgubre, um verde azinhavre recobrindo o antes marfim alvíssimo do meu dente adolescente, cheiros matinais os mais repelentes, o olho vesgo com grandes crostas duras acinzentadas cascudas, e duras rugas sobre a boca franzida, um estertor, um nojo, os cabelos de palha, espetados, enfim, só os peitos continuam vivos e por um milagre ainda de pé, os biquelhos rosados” (30/7/79).

Para seus leitores, serão gratos os comentários marginais sobre os livros que está escrevendo (sobretudo A Obscena Senhora D e Cartas de um Sedutor). Há dois momentos altos: o primeiro deles é a lida de Hilst com a ditadura militar; no momento de tentar encenar O verdugo em São Paulo, diz: “vamos ter problemas com a censura porque qualquer coisa que fale diretamente ao homem, ao ser humano, texto para a melhor área da consciência é sempre censurado” (6/11/1975). Outra passagem é a gênese de uma etapa importante: a dos textos licenciosos dos anos 90; no fim de 1988, lamenta-se: “ando muito sem graça, achando que tudo terminou e que nada mais há para fazer, escrevi lindamente e agora sou apenas mui conocida en mi casa” (8/12/88), para, na mesma frase, contar sobre uma ideia divertidíssima que teve na madrugada e que lhe resultou num parágrafo incestuoso. Estavam postas as bases de seus livros seguintes, como O caderno rosa de Lori Lamby e Cartas de um Sedutor. A carta é especial, pois a autora estava entre a possibilidade de deixar a escrita e a de começar algo novo. Prevalece o “salvar-se através do texto. Continuar continuar continuar.”

Em tal contexto, o início dos anos 90, em que a escrita de Hilst esboça voltar-se ao grande público, é que se dá sua estreia como cronista. Suas crônicas são publicadas, em sua grande maioria, aos domingos. Nelas, à maneira de imprecações, Hilst comenta a situação do Brasil. Exalta-se, pragueja, para, ato seguido, num contraponto desconcertante, citar as passagens mais líricas de sua literatura. Certamente, um dos momentos em que sua obra mais circulou – pois a tiragem de seus livros raramente ultrapassava os mil exemplares.

Numa crônica particularmente corrosiva, “Nós escritores, brasileiros-zumbis” Hilst comenta o fato de ter sido ignorada pela delegação brasileira no pavilhão da Feira do Livro de Frankfurt de 94; cita então a passagem de Anatol Rosenfeld que diz que ela é das raras autoras com “resultados notáveis” na prosa narrativa, na poesia e no teatro. Em seguida, passa a fazer uma lista de pessoas e objetos que poderiam ter sido enviados à Feira, a qual conclui, amargamente, com “E por que não pelo menos uma fotografia dos únicos escritores do mundo, os brasileiros, que em vida são definitivamente considerados mortos?”. As cartas e crônicas da escritora permitem-nos ver o enquadramento oferecido por Hilst à própria obra. Em certos momentos, esses textos mostram vigor para ser parte de sua literatura. 

*Wilson Alves-Bezerra é professor de pós-graduação em estudos de literatura da Ufscar 

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