Killer Films
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Cartas de Shirley Jackson revelam o ponto de vista de uma mãe trabalhadora ressentida

Livro resume a crônica de uma vida passada na frente da máquina de escrever, criando de livros infantis a algumas das obras mais arrepiantes do século 20

Jennifer Reese*, Especial para The Washington Post

05 de agosto de 2021 | 10h00

Estes têm sido alguns anos gratificantes para os fãs de Shirley Jackson. A biografia definitiva de Ruth Franklin apareceu em 2016, a Netflix lançou série limitada inspirada no romance neo-gótico da autora, A assombração da Casa da Colina, em 2018, e no ano passado Elisabeth Moss estrelou Shirley, um psicodrama sexy livremente baseado na sua vida. No Brasil, o segundo romance da autora, O Homem da Forca, um thriller psicológico com tons macabros, acaba de ser publicado pela editora Alfaguara. E sairá agora  nos Estados Unidos The Letters of Shirley Jackson, uma coletânea de cerca de 300 cartas escritas entre 1938 e sua morte em 1965, aos 48 anos.

Os leitores da ficção crepuscular de Shirley (ela é mais famosa por sua comovente história A Loteria, de 1948) deverão se surpreender pelo fato de as cartas estarem, de maneira geral, alegres, repletas de episódios curiosos sobre os quatro filhos, as aulas de direção, inúmeros gatos, uma despreocupada e exagerada complacência em matéria de coquetéis e intermináveis tentativas de perder peso (“toda a parede da minha cozinha está cheia de listas de calorias”, escreveu para a mãe supercrítica, em 1956.) Mas no meio destas cartas há algumas chocantes pela tristeza que denotam, dando a entender de onde vem a visão sombria da autora. Elas desmentem a pessoa feliz que ela apresentou para a maioria dos das pessoas com quem se correspondeu, e revela o esforço que ela fez para ocultar a própria infelicidade. O fato de muitas outras mulheres americanas da geração de Shirley se sentirem compelidas a fazer o mesmo, empresta a The Letters of Shirley Jackson uma reverberação mais profunda.

O livro - editado por seu filho mais velho, Laurence Jackson Hyman, em consultas com a estudiosa da obra da mãe, Bernice M. Murphy - começa com algumas dezenas de felizes cartas de amor que ela escreveu ao “querido” e “adorado”, ou seja, seu futuro marido, o crítico literário Stanley Hyman: “li a sua carta até o fim para descobrir se você me amava, o que você se recusa a dizer. Que se dane, amo você, seu idiota”. Depois do casamento, em 1940, as cartas de amor dão lugar a relatos divertidos da vida diária endereçados a “mamãe e papai”, tagarelices com Ralph Ellison (“estou ciente - não pense que jamais irei esquecer - que ainda lhe devo uma fornada de brownies”), relatos otimistas sobre os seus problemas de saúde, e uma correspondência de negócios ainda mais complicada com seus agentes literários.

“Ninguém poderá dizer que eu não trabalho para ganhar o pão”, Shirley escreveu ao seu agente em 1952. Não mesmo, Letters é a crônica de uma vida passada na frente da máquina de escrever, criando livros infantis, comédias domésticas à la Erma Bombeck (como o brilhante livro de 1953, Life Among the Savages) e incontáveis artigos de revistas, além de alguns dos livros de ficção mais arrepiantes do século 20. “Estou me divertindo escrevendo um romance com a minha mão esquerda, e uma longa história - com tantos níveis quanto a estação Grand Central - com a mão direita, mexendo no pudim de chocolate com uma colher presa entre os dentes, e sintonizando a televisão com os dois pés”, ela escreveu a Ellison em 1949.

O que ficamos sabendo da gênese da sua obra mais brilhante? Surpreendentemente pouco. Durante os meses  em que está terminando A Assombração da Casa da Colina, Shirley envia aos pais informações atualizadas sobre os seus netos e descreve como está fazendo um bolo de nozes. Enquanto ela dava os toques finais à sua sinistra obra-prima Sempre vivemos no castelo, ouvimos ainda mais detalhes a respeito de como decorar biscoito do Dia dos Namorados e sobre a blusa que sua filha fez na aula de economia doméstica do que sobre a inesquecível narradora demente do romance. (Como ela escreveu em uma carta aos pais quando o livro saiu, “papai: a heroína deste realmente não bate bem da cabeça”).

No fim da vida, Shirley sustentava a família. “Stanley diz que se eu conseguir escrever e vender seis histórias neste verão, ele me dará um conversível com estofamento azul pálido no próximo outono”, escreveu ao seu agente em 1958. Stanley deixaria que ela tivesse um conversível? Hyman tinha ciúme do sucesso da esposa, e às vezes era arrogante e cruel. As alusões aos problemas do casamento eram em geral sutis e irônicas. As charges engraçadas com figuras de palitinhos que ela desenhou em algumas de suas cartas mostram a união imperfeita entre uma esposa sobrecarregada de trabalho e um marido preguiçoso, de óculos, em uma poltrona. Há também um compreensível desdém de Shirley por essas “garotas  estridentes”, como ela chamava as estudantes do Bennington, o colégio feminino em Vermont onde Hyman, eterno mulherengo, lecionava. “Esta é também a época do ano em que certo tipo de estudante me pergunta muito confidencialmente se Stanley e eu somos um casal feliz”, escreveu ao seu agente em 1956. “Em geral, dou uma pancadinha na sua mão ao responder. Gentilmente, é claro”.

Lendo este trecho petulante, poderíamos pensar que o casamento ia muito bem. Não ia. Em uma queixa surpreendente endereçada a Hyman, Shirley escreve: “estou com medo de contar para as pessoas porque eu tenho este medo que me preocupa de ser, na realidade, o que você me disse tantas vezes que eu sou, uma chata cansativa”. A carta termina com as duas frases mais comoventes da coleção: “certa vez você escreveu para “mim” uma carta (sei que você odeia que eu lembre destas coisas) dizendo que eu nunca mais voltaria a ficar só. Acho que foi a primeira, a mais assustadora mentira que você me disse”. Ler estas cartas não foi seguramente uma surpresa para o filho e, no entanto, foi provavelmente difícil ler nas entrelinhas.

Por volta de 1963, Shirley endereçou uma carta a si mesma, a única deste livro, em que tentava compreender a razão desta atitude destrutiva de Hyman, e falava consigo mesma por puro desespero. “por favor, deixem que eu escreva o que quero, sem ser interrompida”, ela diz. “não vou ter medo. nunca mais. não vou ter medo, não vou ter medo. não vou”.

As cartas que ela escreveu a outras pessoas raramente indicam este grau de tumulto e desespero. The Journals of Shirley Jackson teria sido um livro mais doloroso e íntimo, mas talvez menos revelador. A intensidade das Cartas brota da justaposição da alegre persona social de Shirley e dos ocasionais lampejos abrasadores de uma mulher profundamente vulnerável. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*Jennifer Reese é a autora de Make the Bread, Buy the Butter.

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