VOLODYMYR SHUVAYEV/AFP
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Carteado ucraniano

Kiev joga com dois valetes na manga: os US$ 17,5 bilhões prometidos pelo FMI. É pouco para enfrentar a trinca de ases de Putin, que nem faz questão de blefar

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

14 Fevereiro 2015 | 16h00

Minsk 1 resultou em fracasso. Minsk 2 só começou a valer a partir da zero hora deste sábado. Os salões do mais suntuoso palácio da capital da Bielo-Rússia, onde na quarta-feira os líderes da Ucrânia, Rússia, Alemanha e França levaram 17 horas discutindo e combinando novo cessar-fogo na Ucrânia, continuarão à disposição dos litigantes, mas o mundo espera que não haja necessidade de um Minsk 3 para sustar um conflito em que todos parecem ter razão e ninguém tem. 

Se o combinado entre Petro Poroshenko, Vladimir Putin, Angela Merkel e François Hollande for desrespeitado pelos ucranianos ou pelos rebeldes separatistas de etnia russa acantonados no sudeste da Ucrânia, volta-se à estaca zero, que nem é mais zero, pois desde que o cessar-fogo anterior foi rompido os separatistas ampliaram sua área de ocupação nos arredores de Donetsk e Luhansk. A situação mudou. Por mais que solte raios e trovões (já ameaçou até impor lei marcial no país), Poroshenko só tem no momento dois valetes na mão; não ameaça Putin nesse pôquer geopolítico. 

A ajuda de US$ 17,5 bilhões prometida pelo FMI ao governo de Kiev no meio da semana deve tirar a Ucrânia do sufoco econômico-financeiro, mas não lhe dará vantagem na recuperação dos territórios conflagrados. Ainda que Poroshenko pudesse investir toda essa dinheirama em armamentos, não aguentaria um confronto direto com a Rússia. 

Com pelo menos dois ases ou uma trinca na mão, Putin nem precisa blefar. Sabe que tem maior poder de fogo, independentemente do arsenal bélico que Estados Unidos e aliados venham a montar na Ucrânia, caso o armistício seja desrespeitado. Assim é que, com a tranquilidade de quem pode arriscar um straight flush e possui um arsenal de armas nucleares, o novo czar russo vive a defender uma solução diplomática para a guerra civil na fronteira de seu império com a Ucrânia. Isso não é blefe, é só esperteza... diplomática. 

Merkel e Hollande embarcaram nessa tese porque a alternativa não interessa à Europa. Sanções ou bloqueios à Rússia tampouco entusiasmam França, Itália, Portugal, Espanha e (a agora rebelde) Grécia, pois lhes afetam a agricultura. Por eles, e Merkel e Hollande deixaram isso claro em Munique, Minsk e Bruxelas, o governo ucraniano entubaria a secessão e uma zona desmilitarizada em Donetsk e Luhansk encerraria essa carnificina gratuita, iniciada por Kiev, que já resultou em 5.500 mortos e mais de 1 milhão de refugiados. 

Tal solução, esboçada no provisório acordo que varou a madrugada de quinta-feira, parece ter sossegado o facho dos americanos, que veem no conflito uma boa oportunidade para conter e encurralar seu maior rival da Guerra Fria. Não é mais uma questão genuinamente ideológica que os divide, mas fundamentalmente geopolítica: a superpotência vitoriosa em 1989 não admite nenhum obstáculo à expansão dos seus globais interesses estratégicos e econômicos.

Senadores republicanos, circunstanciais aliados de Obama nessa discórdia, repetem o mantra de que o conflito na Ucrânia é produto de uma agressão russa e o primeiro passo de Putin para assenhorar-se da Europa. Alguns até debocharam das intenções de Merkel e Hollande de abrir diálogo com o presidente russo e chegaram a comparar a chanceler alemã ao primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, que deu mole para Hitler na Conferência de Munique de 1938. 

O fato é que os dois mais importantes líderes europeus da atualidade levaram Putin e Poroshenko na conversa e lograram um acordo de paz, ainda que frágil e incompleto, cujo êxito dependerá da pressão europeia para que a junta que governa a Ucrânia (no rastro de um golpe de Estado apoiado por Washington) cumpra com suas obrigações e o presidente russo continue a não dar motivos para que os guerreiros frios do Congresso, da Casa Branca, da Otan e da mídia o comparem a Hitler ou Stalin. 

“Como pode haver paz se Washington tem planos para escalar o conflito na Ucrânia e usá-lo como desculpa para um enfrentamento com a Rússia?”, perguntou o economista Paul Craig Roberts, ex-auxiliar graduado do governo Reagan e colunista do Wall Street Journal, hoje um dos críticos mais rigorosos da política externa de seu país. Suas inquietações derivam da insistência com que a elite militar americana e os intervencionistas do Departamento de Defesa e do Congresso pressionam Obama a enviar armas para a Ucrânia, “antes que ela seja invadida e reanexada à Rússia”.

Durante a Guerra Fria, nenhum presidente americano, de Truman a Bush pai, meteu-se na esfera de influência de Moscou no Leste Europeu. Nas crises de Berlim em 1948 e 1961, na invasão da Hungria em 1956 e na de Praga pelas tropas do Pacto de Varsóvia em 1968, as forças de Otan não deixaram seus bivaques. O Rio Elba marcava a fronteira do respeito mútuo. A fronteira mudou de lugar, mas não há húbris que justifique uma ameaça de guerra com a sucessora da União Soviética. 

Que interesses concretos têm os EUA na Crimeia e na região de Donbass? Nenhum. Nem por hipótese os antecessores de Obama na Casa Branca admitiriam um conflito armado com outra potência nuclear por causa de duas províncias no sudeste da Ucrânia sobre as quais a Rússia exerceu plenos poderes desde os tempos de Catarina, a Grande. Se acaso tropas russas invadissem aquelas províncias, os americanos não teriam habilidade militar para intervir e expulsá-las, missão só aparentemente exequível numa guerra de longa duração. Longa e devastadora, acima de tudo para a Ucrânia.

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