Christie's
Christie's

Casa de leilões Christie's põe à venda primeira obra feita com inteligência artificial

Retrato 'Edmond de Belamy, from La Famille de Belamy' recebeu críticas da comunidade de artistas que usam a tecnologia

Gabe Chon, The New York Times

27 Outubro 2018 | 16h00

Com os olhos treinados voltados para a imagem difusa e manchada de um distinto cavalheiro emoldurada em dourado, um pequeno grupo de potenciais compradores reunidos na noite de sexta-feira num coquetel da Christie’s de Nova York ouviu a apresentação: lerá leiloado o primeiro retrato gerado por um algoritmo. Produzida com inteligência artificial (IA), a obra lembra um retrato do século 17 no qual alguém passou uma esponja. Ela ocupa uma parede em frente a uma gravura de Andy Wahrol. A sua direita, repousa um bronze de Roy Lichtenstein. 

A chegada do que alguns consideram o primeiro estágio do próximo novo grande movimento artístico a uma das principais casas de leilão do mundo foi comportadamente saudada com discretos assentimentos de compreensão, alguns sorrisos, pelo menos um franzir de sobrancelhas e goles de margarita. A Christie’s recebeu uma reação mais forte ao bater o martelo do leiloeiro para Edmond de Belamy, from La Famille de Belamy, testar formalmente o interesse do mercado na arte produzida por IA. A obra – com preço estimado entre US$ 7 mil e US$ 10 mil, mas que foi arrematada por US$ 432 mil – foi um trabalho conjunto dos membros do Obvious – um trio francês composto por um estudante de aprendizado de máquina e dois pós-graduandos em negócios, nenhum ligado à arte. Na execução não entraram tinta ou pincel, apenas um algoritmo que aprende a imitar conjuntos de imagens alimentados por humanos. Nesse caso, foram usados milhares de retratos do século 14 ao 20. 

Mas isso é mesmo arte? Frédérique Baumgartner, historiadora da arte na Universidade Colúmbia, diz que o trabalho levanta questões sobre “intenção e autoria”. Ela comparou os tons contrastantes do retrato, somados à sobriedade dos trajes do retratado, com o estilo do maior nome da Era de Ouro Holandesa, Rembrandt van Rijn – mas acrescentou logo: “Isso se eu olhar com olhos semicerrados.” Essa venda incomum mostra o desafio que casas de leilão tradicionais enfrentam para continuar relevantes em uma cultura que se move a velocidade de WiFi. Em 2017, a Christie’s quebrou todos os recordes da história dos leilões ao vender um quadro de Leonardo da Vinci por US$ 450 milhões. 

O retrato que vai a leilão foi negociado diretamente com o Obvious. Será a única obra feita com IA em um lote de 363 peças. Surpreendentemente, as críticas mais pesadas à nova técnica não vêm do establishment de arte, mas da pequena, porém apaixonada comunidade de artistas que trabalham com IA. Muitos deles afirmaram que isso que a Christie’s e o Obvious apresentam como revolucionário não é assim tão novo. 

Ahmed Elgammal, diretor do Laboratório de Arte e Inteligência Artificial da Universidade Rutgers, disse que a tecnologia usada na obra – Generative Adversarial Networks, ou GAN – é usada por artistas desde 2015. 

Mario Klingemann, artista alemão conhecido por seus trabalhos com GAN, foi mais incisivo. “Quando vi o anúncio do leilão, minha reação foi que ‘não podem estar falando sério’”, disse ele. Klingemann comparou o retrato do Obvious à “brincadeira de desenhar unindo os pontos”. 

Richard Lloyd, especialista do departamento de Prints & Multiples da Christie’s, que trouxe a obra para a casa, admitiu não ter feito uma busca exaustiva no pequeno, mas ativo campo da arte feita com inteligência artificial. “Eu apenas me sensibilizei com ela e achei que valia a pena”, contou.

Lloyd se interessa há alguns anos por arte feita com IA. A ideia de trazer a obra para a Christie’s surgiu após ler uma notícia no início do ano de que Nicolas Laugero Lasserre, um colecionador francês, havia comprado um retrato feito pelo Obvious por € 10 mil, cerca de R$ 42 mil. 

O que mais o impressionou na obra trazida pra a Christie’s, revelou Lloyd, é sua semelhança com pinturas de mestres europeus. “Me pareceu que se tratava de algo para ser vendido por nós”, explicou. “Afinal, somos a casa que vendeu o Da Vinci por US$ 450 milhões.”

Lloyd acha que o trabalho que o Obvious vem fazendo pode levar clientes da Christie’s a se interessarem por obras feitas com IA. “Gosto do fato de que, à primeira vista, essas obras não pareçam diferentes”, disse. 

Artistas e pesquisadores especializados no uso artístico da tecnologia IA, embora satisfeitos com a visibilidade que o leilão vem dando ao campo, dizem que o retrato escolhido pela Christie’s não é algo de primeira mão. Segundo eles, códigos escritos para produzir imagens do tipo que o Obvious tem feito já são compartilhados livremente pelos entusiastas, o que traz à tona a questão da originalidade. 

O Obvious admite que a tecnologia que usa foi buscada em outras fontes. “São recursos abertos”, defendeu Pierre Fautrel, membro do grupo. “Usamos inúmeras informações, criadas por diferentes pessoas.”

A principal diferença entre o retrato do Obvious e obras feitas com IA de seus predecessores é que o trabalho do grupo foi impresso numa tela e “assinado” no canto inferior direito com a função matemática usada para produzi-lo. O retrato também ganhou uma moldura extravagante. “Estamos trazendo a novidade para pessoas que não sabem necessariamente o que é um algoritmo GAN”, explicou Lloyd no discurso de apresentação da obra. / Tradução de Roberto Muniz 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.