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Casados com a solteirice

Optar pela vida ‘single’ pode ser - como um matrimônio infeliz - apenas outro tipo de prisão

Lee Siegel, O Estado de S. Paulo

16 Maio 2015 | 16h00

Há momentos na história de uma sociedade em que um sentimento difuso subitamente coalesce e vira uma ideologia. É o que está acontecendo com a queda acentuada das taxas de casamento e de natalidade nos Estados Unidos. A solteirice se tornou uma ideologia. 

Quedas das taxas de matrimônio e natalidade não são novidade em sociedades industriais. Aliás, a maioria dos países está experimentando o mesmo fenômeno. Mas duvido que em outros países a ideia de que pessoas devam viver sozinhas tenha se tornado uma nova maneira de pensar, amparada por artigos, livros e comentários na televisão em defesa desse novo modo de vida. Nos Estados Unidos, a solteirice está se tornando o que o catolicismo foi na Idade Média, e o comunismo no início do século 20.

Dois novos livros surgiram recentemente fazendo uma defesa enfática da vida solitária e da não procriação. Um deles é uma antologia intitulada Selfish, Shallow and Self-Absorbed (Egoísta, superficial e egocêntrico, em tradução livre), em que 16 conhecidos escritores discutem sua decisão de não criar família. O outro, mais comentado, chama-se Spinster: Making a Life of One`s Own (Solteirona: cuidando da própria vida). A autora, uma mulher de 40 e poucos anos chamada Kate Bolick, desenvolveu o livro a partir de um artigo que publicou na revista Atlantic em 2011.

Os argumentos de Bolick e dos 16 escritores são os que se quiser supor que sejam. De um modo geral, a acusação de que as pessoas que não casam nemtêm filhos são narcisistas sem nenhuma profundidade emocional é invertida. Esses escritores sustentam que são os cônjuges e pais, em especial os segundos, é que são os egoístas, superficiais e egocêntricos. Quem já não viu uma mãe tentando manobrar seu carrinho de criança num restaurante lotado e esmagando outros fregueses contra a parede? Quem já não viu um pai enfurecido vociferando contra outros pais numa reunião de escola ou um jogo de futebol? Quanto ao casamento, bem, essa instituição ancestral só precisa de uma palavra para refutá-la: casamento. A morte do romance. A morte do sexo. A extinção gradual da curiosidade e do envolvimento no mundo. Vocês querem fazer terroristas capturados falarem? Esqueçam a tortura. Encorajem-nos a casar e ficar casados com a mesma pessoa por 10 anos. Depois ofereçam-lhes um divórcio indolor, se eles lhes derem as informações que vocês desejam. Eles lhes contarão tudo.

Eu tenho um casamento feliz com dois filhos maravilhosos, mas não sou nenhum fanático no que toca ao casamento ou a ser pai. Acredito que, para muitas pessoas, é perfeitamente possível levar uma vida feliz e plena sem se casar e sem ter filhos. Algumas pessoas não são talhadas para o casamento ou a paternidade ou maternidade, e estão sendo admiravelmente fiéis a si mesmas quando escolhem uma vida solitária. Elas são corajosas, também, de não ceder à pressão social para criar uma família. Se tivesse ficado no meu primeiro casamento, eu estaria morto ou num manicômio.

Mas ainda me pergunto se a defesa da solteirice precisa ser feita. A palavra “spinster” (solteirona) parou de ser usada como um termo insultuoso para uma mulher não casada há cerca de 50 anos. Em cidades e subúrbios americanos, onde vive a maioria das pessoas, ninguém precisa ser convencido dos benefícios de ser solteiro(a). A economia toda, aliás, é adequada a pessoas solteiras, que gastam ao invés de poupar e que, diferentemente de pais prudentes, são com frequência consumidores insaciáveis.

E essa, para mim, é a condição oculta que nenhum desses livros e toda a enxurrada de comentários pró-solteirice reconhecem. Longe de estar fora do pensamento social dominante, a ideologia da solteirice é produto, em grande parte, de décadas de consumismo americano. Aos americanos foi ensinado, durante gerações, que a busca do prazer individual é seu dever supremo na vida; incontáveis produtos e serviços lucrativos são proclamados com base nesse princípio. A incrível aceleração da cultura digital, cujo ideal de beleza é o indivíduo solitário e autossuficiente, é o desfecho inevitável do individualismo americano radical que começou com o credo romântico de Emerson, Whitman e Thoreau, e evoluiu - ou regrediu - para o credo comercial de Microsoft, Facebook, Google e Apple, que fazem de quem não estiver casado com sua iEngenhoca um completo estranho. A solteirona de hoje não é a mulher não casada. É o homem ou mulher não casado(a) com o seu smartphone.

E, certamente, a ideologia da solteirice é uma designação imprópria. Se você é “single”, solitário é a última coisa que você é. Para a maioria das pessoas, ser solteiro(a) significa ir de um caso amoroso ao seguinte, de um relacionamento ao seguinte. Significa que, em vez de gastar tempo enfrentando o professor de inglês de seus filhos, você passará horas obcecado com o seu coração partido. Significa que, em vez de assistir à TV de noite com o seu cônjuge sem trocar uma palavra, você assistirá à TV de noite com alguém que ou não ficará calado, ou não compartilhará seus gostos em televisão. A própria Bolick certamente não é “solitária”. Ela se descreve conversando, pelo menos uma vez por dia, com o pai dela por telefone.

Finalmente, há mais uma circunstância que passou despercebida de cada expoente da solteirice que li ou de quem ouvi falar. Eles são todos abastados, são todos brancos e são todos cidadãos americanos que nasceram nos Estados Unidos. É fato sabido que a economia é quase sempre um fator na decisão tanto de se casar como na escolha do cônjuge. Nesse sentido, a solteirice americana é um hobby da classe alta, como jogar polo (e muito improvável em outras sociedades mais sofisticadas nas quais pessoas casadas desenvolveram mutuamente maneiras sutis e discretas de agir sozinhas sem encerrar o casamento).

Quanto aos antecedentes raciais e sociais, Bolick e cada escritor da antologia são brancos. Isso faz sentido já que as mulheres negras têm uma maneira diferente de ver a solteirice. Como muitos homens negros neste país morreram violentamente ou prematuramente ou estão na cadeia, muitas mulheres negras gostariam de encontrar um homem com quem casar e ter filhos. O mesmo vale, por diferentes razões, para imigrantes e seus filhos, para quem criar uma família nos Estados Unidos é um objetivo ansiado.

Pode ser que a nova ideologia americana da solteirice não seja tão rebelde afinal. Ela antes parece uma nova tendência chique e exclusiva de um lado e - como num mau casamento - apenas outro tipo de prisão do outro. 

/ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

LEE SIEGEL, ESCRITOR E CRÍTICO CULTURAL NORTE-AMERICANO, É COLABORADOR DO JORNAL THE NEW YORK TIMES E DE REVISTAS COMO NEW YORKER E THE NATION. É TAMBÉM AUTOR DE VOCÊ ESTÁ FALANDO SÉRIO? (PANDA BOOKS)

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