Casais querem esquecer embriões

Há quase 13 anos, a psicanalista Debora Seibel faz um trabalho de bastidor: ela acolhe as agruras dos casais que tentam engravidar por meio de métodos artificiais. Parceira de uma clínica de fertilização localizada em São Paulo, Debora já ouviu de tudo um pouco entre preconceitos, dúvidas, lamentações. O que mais a indignou, porém, foi uma paciente dizer que decidiu seguir à risca o precioso conselho de um médico: não pensar na infertilidade. Pensar demais não daria certo. "E como faz para não pensar, se a pessoa está com o problema à flor da pele?" De certa forma, é o que Debora depreende quando o debate sobre células-tronco passa ao largo dos casais que possuem embriões congelados: "Parece que eles não têm o que refletir". Ela propõe uma conversa delicada com esses pacientes no início do tratamento para enfatizar que possivelmente serão donos de embriões congelados após a fertilização. E que, em algum momento, é preciso assumir essa responsabilidade, em vez de passar o telefone adiante. Como os casais reagem diante de seus embriões congelados?Essa deveria ser uma etapa boa da vida dos casais inférteis porque, em primeiro lugar, conseguiram formar embriões. Em segundo lugar, alguns foram congelados. A questão é que, quando o casal engravida dos embriões frescos, os congelados passam a ser um problema.Por quê?Porque o casal não consegue mais pensar neles. Metaforicamente, é uma coisa que também fica congelada na cabeça dos dois. Como não pode haver descarte de embriões, a clínica telefona de tempos em tempos para saber se o casal deseja utilizá-los, mesmo porque paga-se uma mensalidade ou uma anuidade para manter os embriões em nitrogênio. O mais ouvido é: "Depois a gente vê o que faz". Os pais estão meio alheios, meio regredidos, pois o processo para chegar à gravidez por meio da fertilização in vitro é uma experiência muito pesada. O casal ficou focado, às vezes durante anos, no ultra-som, nas injeções, nos remédios. Tudo à volta está opaco. É necessário abrir o zoom porque os congelados estão na cena.Qual seria o momento oportuno de trazer esses embriões à tona?Logo no início do tratamento e de forma delicada. Com a ovodoação é assim. Num primeiro momento, parece uma violência dizer à paciente: "Aceite o óvulo de outra mulher". É importante que o casal converse, tenha significações boas para isso. Acho que aconteceria o mesmo com relação à doação para pesquisa com células-tronco, principalmente porque é opcional, não obrigatória. Em vez de deixar pra lá ou de pensar apenas em si mesmos, os casais poderiam se sensibilizar com os que precisam de alguma coisa que só eles têm: os embriões.Há quem defenda a doação de embriões para outros casais.Quem doa os embriões não sabe para quem doa, entendo como um ato de generosidade, porém é muito pequeno o número de casais que quer receber este embrião. A maioria, depois da frustração de não poder usar seus próprios gametas, aceita o óvulo ou o esperma de outros. Quer óvulos, especialmente, porque as mulheres estão com mais idade e seus óvulos, também. Ainda que formem um embrião, ele pode não ser viável para a reprodução. Ao doar os embriões para pesquisa, os casais acham que estão comprometendo a evolução de uma vida?Depende de como se coloca a questão para eles e o momento em que se faz isso. É capaz de olharem para o filho que conseguiram com o método e pensar nos embriões que ficaram no laboratório. Mas o maior dilema que vejo nos casais, especialmente os católicos, não é a questão de os embriões congelados serem uma vida em jogo. O que percebo é a culpa durante o tratamento. Acham que fizeram alguma coisa de muito errada para estarem passando por essa fase difícil. Alguns, no desespero, temem que seja "perigoso" levar aquilo adiante porque talvez Deus não queira que tenham filhos daquela forma, apenas naturalmente. Ainda há preconceito contra a fertilização in vitro?Muito menos do que já houve. Caiu em desuso. As pessoas assumem o tratamento. Acho até que existe uma distorção em torno disso, que é o culto à gravidez múltipla. Muitas mulheres torcem para ter gêmeos porque aí acaba, resolve, nunca mais vão precisar passar por aquilo, têm uma família inteira de uma vez só. Quando ficam grávidas, sentem os efeitos de dois, três bebês no corpo, a angústia de saber se estão bem, descobrem que muitos gêmeos vão para a UTI neonatal por causa de complicações durante a gestação. A gente sempre torce por um único bebê de cada vez. Os casais procuram saber onde e em que condições os embriões estão congelados?Alguns sim, mas a maioria não. É como eu lhe disse: estão alienados. A luta que travaram contra a infertilidade foi muito marcante para eles. Muitos vendem casa, carro, fazem empréstimo. A mulher de repente está cheia de hormônio, de repente não tem nenhum, como se entrasse numa menopausa. Às vezes o médico indica uma pausa no tratamento, mas elas não agüentam descansar. E isso também é um peso grande para os homens. Quando o casal engravida, não quer mais tocar no assunto. Fez arranjos mentais para enfrentar a exclusão do mundo supervalorizado dos casais férteis. Ao mesmo tempo, não é inteirado de nada, nem mesmo é convidado para participar dessa discussão sobre o uso de células-tronco embrionárias em pesquisas, sendo que os embriões pertencem ao casal. Não sabem que doar para a pesquisa poderia quebrar o arranjo da comodidade. Em vez de cerzir um tecido rasgado, fariam uma roupa nova desde o início.

Mônica Manir, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2008 | 10h49

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