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Casal 20 dos anos 80

Como Alcebíades seguindo Sócrates, Reagan acompanhou com fidelidade canina o reformismo radical de Thatcher, mas a união só vingou porque ele tinha mais medo dela do que ela dele

SÉRGIO AUGUSTO, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2013 | 02h09

No livro de condolências do funeral de Ronald Reagan, morto em 2004, aos 93 anos, a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher citou um versículo de São Mateus: "Bom trabalho, servo bom e fiel". Embora já sentindo os primeiros sintomas do mesmo mal (alzheimer) que devastara o ilustre defunto, Thatcher, beirando os 80, ainda se lembrava bem de sua relação com o ex-presidente americano. Servo não era uma hipérbole. Ela não apenas chegou primeiro ao topo como provou ser mais instruída, audaciosa e determinada que seu fiel parceiro transatlântico, para quem só perdia em charme, carisma e poder.

Thatcher já ocupava o nº 10 da Downing Street quando, num discurso no Senado americano, em 1979, revelou a estratégia econômica de seu governo (redução de gastos públicos, incentivo à iniciativa privada e ao empreendedorismo), que Reagan, ex-governador da Califórnia concorrendo à sucessão de Jimmy Carter, recebeu com o mesmo êxtase sentido por Moisés no Monte Sinai. De uma frase de efeito da primeira-ministra ("Quem cria riquezas não é o governo, é o povo"), extraiu um corolário ("O governo não é a solução, o governo é o problema") cuja fama acabaria suplantando a da original.

Thatcher cumpriu seu decálogo reformista. Reduziu impostos e gastos sociais, desmantelou o setor público, quebrou os sindicatos, fechou fábricas, fez cortes na saúde, educação e transporte, deu todo poder ao mercado e aos bancos e financistas da City, incentivou a ambição pessoal, estimulou a classe média e o sonho da casa própria, mas gentrificou Londres. Nos 11 anos de seu reinado, uma economia de produção cedeu lugar a uma economia rentista, sem nenhuma regulação, mais flexível, sem dúvida, mas também mais perversa, sobretudo com o andar de baixo da sociedade. Quando ela assumiu o poder, uma em cada sete crianças britânicas vivia na pobreza. Ao final de suas reformas, a pobreza atingia uma em cada três.

A política de austeridade recém-implantada na Europa é fruto das diretrizes econômicas inicialmente impostas na Grã-Bretanha, onde também foi montado o primeiro laboratório do grande desastre econômico-financeiro de 2008.

Como Alcebíades seguindo Sócrates, Reagan acompanhou Thatcher e seu reformismo radical com fidelidade canina. Juntos formaram o casal político mais poderoso do século ou, pelo menos, o mais influente dos anos 1980. Uma união que, segundo Thatcher, só deu certo porque ele tinha mais medo dela do que ela dele. Inventou-se um casamento perfeito para manter as aparências e alimentar um mito destinado a assombrar o comunismo e combater sem tréguas o liberalismo. "Se eu lhe contasse o que a sra. Thatcher realmente achava do presidente Reagan, prejudicaria as relações anglo-americanas", revelou em seus diários o embaixador da Dama de Ferro em Washington, sir Nicholas Henderson.

Henderson é um dos coadjuvantes mais presentes em Reagan e Thatcher - Uma Relação Difícil, do historiador Richard Aldous, que a Record lança neste fim de semana (336 págs., R$49,90). A partir de documentos inéditos, Aldous reconstitui com novos detalhes o relacionamento dos dois, ideologicamente harmonioso, mas, volta e meia, sujeito a chuvas e trovoadas. De passagem desfaz algumas lendas realimentadas pelo azeitado marketing dos dois pilares do conservadorismo. Thatcher, por exemplo, não foi o primeiro chefe de Estado a passar pelas portas da Casa Branca depois da posse de Reagan, em 1981. O primeiro-ministro Seaga, da Jamaica, e o presidente Chun, da Coreia do Sul, fizeram visitas oficiais antes dela.

Conheceram-se em abril de 1975. Reagan, pré-candidato à presidência, fazia um tour europeu para reforçar suas credenciais em política externa. O primeiro-ministro trabalhista Harold Wilson e seu encarregado de negócios exteriores (e, logo em seguida, primeiro-ministro), James Callaghan, inventaram desculpas para não se encontrar com o ex-governador da Califórnia, mas Thatcher, a nova líder dos tóris (conservadores), não só recebeu Reagan como dele se tornou amiga e aliada política.

A primeira rusga do casal se deu quando da crise das Malvinas/Falklands, em abril de 1982. A guerra ajudou Thatcher a ganhar um segundo mandato, mas pôs em perigo sua lua de mel com Washington. Jeane Kirkpatrick, embaixadora dos Estados Unidos na ONU, defendia com ardor a ditadura argentina e estabelecera amizade com o general Leopoldo Galtieri, o fanfarrão mandachuva da época. O general Vernon Walters, um dos artífices do golpe militar no Brasil em 1964 e que já servira de guia a Galtieri em dois passeios pela Disneylândia em 1981, tranquilizou os gorilas argentinos quanto à possibilidade de uma retaliação britânica a uma possível invasão das ilhas. "Vão esbravejar e rugir, mas não mandarão tropas", palpitou Walters.

Não bastasse o sinal verde dado pela Casa Branca, Kirkpatrick jantava na embaixada argentina em Washington justo na noite da invasão. Thatcher esbravejou, rugiu, enviou tropas e ficou amuada com o presidente americano; Reagan tentou segurar as pontas, com a ajuda do secretário de Estado Alexander Haig; até que, cansado de pegar Galtieri de porre ao telefone, deixou-o entregue à própria falta de sorte.

Meses depois foi a vez de os Estados Unidos invadirem uma ilha, Granada, no Caribe, pertencente à Comunidade Britânica. Sem avisar a primeira-ministra. Reagan justificou o abuso com os argumentos mais corriqueiros da Guerra Fria. Granada estaria prestes a virar uma nova Cuba. Thatcher, que lidava de outra forma com a ameaça comunista, preferiu, pragmaticamente, pôr a viola no saco e guardar energias para outra discórdia com seu maior aliado: a questão do desarmamento.

Reagan defendia um acordo radical para eliminar todas as armas nucleares. Thatcher era pela manutenção da deterrência, por acreditar que só ameaçada pela existência de um arsenal nuclear no Ocidente a União Soviética jamais invadiria a Europa. Ironicamente, foi ela quem aproximou Mikhail Gorbachev de Reagan, dando o primeiro passo para a derrocada do comunismo soviético. Esse, sim, foi um bom trabalho.

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