Casamento perfeito

Hillary pode vir a ser uma das apostas mais acertadas de um líder dos Estados Unidos na era pós-nuclear

Michael Tomasky*, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2008 | 00h37

Suponho que minha opinião não seja das mais firmes. A idéia de Hillary Clinton como secretária de Estado de Barack Obama não vinha me entusiasmando. Mas ver os dois juntos na segunda-feira me fez pensar quase o contrário. Ali estavam, de longe, as duas pessoas mais importantes da política americana. Não há um republicano que chegue remotamente perto da estatura ou popularidade de ambos, nos Estados Unidos ou no mundo. Ver Obama e Hillary juntos tornou fácil visualizar um momento futuro em 2009 ou 2011 em que ter as duas figuras políticas mais famosas do planeta insistindo no que quer que seja - uma retirada do Iraque, uma seriedade nova sobre a mudança do clima, uma nova fase no processo de paz no Oriente Médio - realmente produziria resultados poderosos para os Estados Unidos e para o mundo.Pude visualizar essa imagem porque, com suas palavras, tanto Obama quanto Hillary conseguiram passar a idéia - ao menos por enquanto - de que quando a secretária Hillary falar, estará falando pelo presidente Obama. Essa é uma questão que eu e muita gente levantamos. Existe uma longa história de secretários de Estado que não gozavam da real confiança de seu presidente - e eram entendidos no restante do mundo como não tendo nenhuma química com a Casa Branca à qual serviam (Colin Powell é o exemplo mais recente). Mas na coletiva à imprensa de segunda-feira, Obama - que já dominou a arte presidencial de parecer que está dizendo alguma coisa importante sem dizer absolutamente nada - comunicou com sucesso a idéia de que ele e Hillary vão trabalhar em estreita colaboração.Chamando a si mesmo de "um forte crente em personalidades fortes e opiniões fortes", Obama chegou até onde precisava ir ao admitir que essa equipe de segurança nacional - que inclui não só sua antiga rival, mas, provavelmente, dois homens que nem sequer votaram nele - poderá ter algumas discordâncias. Mas acrescentou que receberia de bom grado esses desacordos. Ele não queria pessoas que "dessem toda atenção ao pensamento de grupo" e não oferecessem "nenhuma visão divergente" - o tiro mais certeiro na corrente administração que ele dá desde sua eleição. Admitiu, pois, que eles discordarão, mas deixou claro que quem decidirá será ele.Hillary também tocou as notas certas, mas mais importante que suas palavras específicas foi o simples fato de ela ter falado. Na semana retrasada, quando Obama anunciou os quatro membros principais de sua equipe econômica, eles ficaram lá, mudos. Mas desta vez, Obama sabia que teria que deixar Hillary falar, e isso significa deixar todos os demais falarem. Hillary tem a força de 18 milhões de votos.Esses votos merecem atenção por motivos mais substanciais que o fato de lhe terem permitido alguns momentos diante do microfone. Confirmada, Hillary será a primeira secretária de Estado em décadas - certamente a primeira desde que os Estados Unidos se tornaram a maior superpotência do mundo - a chegar ao Departamento de Estado com um eleitorado próprio formidável. Quais são as implicações disso?Vejo três respostas possíveis. A primeira implicação é mínima. A maioria desses 18 milhões terminou votando em Obama - cerca de 85% deles, segundo pesquisas de boca-de-urna -, o que permitiria argumentar que o eleitorado que um dia foi dela agora é dele.A segunda é totalmente positiva. Com certeza, uma parte desses 85% votou em Obama um pouco a contragosto e preferiria ver Hillary como presidente. Agora, esse eleitorado apoiará mais mais convictamente a nova administração.E a terceira... esta é o risco para o presidente eleito. Imaginem que ele e Hillary discordem sobre um assunto importante. Mesmo que a vontade dele seja feita (como se deve supor que será, já que ele é o presidente), o fato de Hillary ter milhões de apoiadores criaria uma oposição natural e interna a ele numa porcentagem considerável de democratas.Preciso mencionar, ainda que sucintamente, os outros membros da equipe. É politicamente ótimo que Obama tenha persuadido Robert Gates a permanecer no Pentágono, e James Jones parece uma escolha excelente para consultor de segurança nacional (estes são os dois que provavelmente não votaram nele). Janet Napolitano, Susan Rice e Eric Holder têm sido servidores públicos extremamente talentosos e eficientes. São a prova viva de que algumas pessoas podem ser as mais qualificadas mesmo se não forem homens brancos de cabelos grisalhos.É uma equipe forte - ideologicamente diversificada, bipartidária, representativa de um amplo leque de interesses políticos e, em sua maior parte, comprometida com os objetivos que o candidato Obama disse aos eleitores americanos que perseguiria.Mas seu sucesso vai claramente depender da aposta que Obama fez em Hillary. Se der certo, ela passará à história como um dos investimentos mais espertos de qualquer presidente da era pós-nuclear. Os dois juntos, com seu carisma e autoridade moral no mundo, podem fazer muito. A palavra-chave nesta frase é "juntos". Eles estavam assim na segunda-feira. Esperemos que continuem. *Michael Tomasky é editor do Guardian AmericaSEGUNDA, 1º DE DEZEMBRODe adversária a parceira O presidente eleito Barack Obama anuncia a indicação de Hillary Clinton como secretária de Estado. A decisão reforça o objetivo do país de voltar ao multilateralismo para recuperar sua imagem no mundo. Obama declarou ter "confiança total" em Hillary.

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