Stan Honda/AFP
Stan Honda/AFP

Casas de ópera encontram novas formas de chegar aos espectadores

Transmissões ao vivo e sob demanda em cinemas, TVs e plataformas de streaming ampliam o acesso a óperas

Rebecca Schmid, The New York Times

04 de maio de 2019 | 16h00

BERLIM - Desde que o Metropolitan começou a transmitir ao vivo para cinemas, em 2006, companhias, da Bolshoi à Komische Oper Berlin viram a distribuição digital como crucial para se posicionarem internacionalmente. Apenas uns poucos participantes têm reputação e recursos para criar para o cinema, e muitas organizações na Europa recorrem à transmissão gratuita pela Web, mas nunca as casas de ópera tiveram tanta a liberdade de produzir seu próprio conteúdo.

O Met transmite para cinemas em 70 países. A Royal Opera House, de Londres, para cinemas em 51 países, enquanto a Ópera de Paris está presente em salas de 18 países. A Staatsoper Unter den Linden (Ópera Estatal de Berlim) transmitiu recentemente uma produção de Macbeth de Verdi para cinemas franceses e planeja uma transmissão ao vivo de uma produção na próxima temporada (em 2018, a casa também começou o streaming em sua própria plataforma e em colaboração com parceiros de transmissão).

Instituições, do Festival de Glyndebourne ao Festival de Salzburgo têm parcerias com a plataforma online medici.tv, que em 2018 celebrou seu 10º aniversário e conta com cerca de 280 mil usuários registrados. O Stingray Classica começa oficialmente na rede do Amazon Prime Video em junho, apresentando organizações como o Teatro Real de Madri e a Royal Opera House, enquanto o Opera Vision oferece transmissões gratuitas de mais de 20 casas pela Europa.

A enxurrada de ofertas é resultado de uma cobertura reduzida na televisão pública, uma indústria de gravação instável e o baixo custo de produção para a web. Enquanto uma transmissão de cinema envolve métodos de vídeo até mais sofisticados que os da televisão, uma distribuição típica pode ser executada por cerca de um terço dos custos de produção.

"O streaming é realmente o que há quanto a acesso e visibilidade”, disse Peter Maniura, diretor do projeto, arquivo clássico e estratégia digital das orquestras, na BBC Music. “A grande maioria das organizações” não tentou lucrar sobre seus produtos, ele disse, “pela simples razão de que há muito poucos com escala e impacto suficientes para realmente serem capazes de ganhar dinheiro”.

Ele faz a distinção entre uma “tradição que o Met começou para uma experiência de cinema de alta qualidade” e o “espaço de serviço público” - que era tradicionalmente na televisão e agora em parte migrou para a internet - onde os espectadores esperam ter conteúdo livre. “Os mais importantes participantes estão a postos há vários anos”, disse Maniura, citando como exemplos o Met, a Royal Opera ou o La Scala, de Milão. "É difícil para uma casa de nível médio equiparar-se a isso.”

O La Scala produziu em outubro La Finta Giardiniera (A falsa jardineira) de Mozart em 8K (a mais alta ultra alta resolução) junto da emissora japonesa NHK. A parceria de longa data da casa com a rádio e televisão RAI da Itália se dividiu em três produções anuais para cinema e streaming por tempo limitado.

Com a série “Live in HD” do Met, o gerente geral Peter Gelb desenvolveu para o público transmissões de rádio em matinês no sábado que começaram na década de 1930 e continuam a atrair seguidores internacionais. Uma transmissão de cinema atrai uma audiência total média de 240 mil a 250 mil pessoas, enquanto a média de vendas de ingressos chega a 2,5 milhões por ano, disse Gelb.

“Esta é a parte comercialmente bem-sucedida da nossa operação global”, disse Gelb. A série traz uma receita líquida de US$ 17 milhões a US$ 18 milhões, que, segundo ele, "não é uma cura para todos os males, mas ajuda além da receita de bilheterias e captação de fundos".

Todas as 10 produções por temporada também são transmitidas nacionalmente na PBS, mas o formato ao vivo é reservado para o cinema. O serviço on-line Met Opera on Demand, que tem mais de 15 mil assinantes, disponibiliza conteúdo depois de três a seis meses e inclui transmissões de rádio.

Quando a frequência interna começou a declinar em 2013, surgiram preocupações de que o baixo custo e o conforto de assistir a novas produções em um cinema local estivessem afetando a venda de ingressos. Mas Gelb disse que uma pesquisa realizada há três anos explorando a correlação entre a frequência ao cinema e a frequência interna descobriu que “as transmissões em HD não tiveram efeito negativo na frequência às bilheterias”.

“No mínimo”, disse ele, "as transmissões ajudam a ganhar alguma adesão à ópera."

Ele admitiu, no entanto, que os ingressos a preços acessíveis e os programas de ingressos estudantis foram a força motriz mais bem-sucedida para a conquista de novos membros da audiência. Ele também enfatizou o uso de conteúdo eletrônico para fins educacionais: mais de 140 universidades dos Estados Unidos e instituições internacionais, incluindo a Sorbonne em Paris, assinam o serviço Met Opera on Demand: Acesso para Estudantes, enquanto um programa para crianças em mais de 30 escolas distritais americanas combina educação em sala de aula com visitas a transmissões em HD.

O diretor geral da Ópera Estatal de Berlim, Matthias Schulz, também considera a distribuição de conteúdo digital crucial para garantir a relevância da ópera na sociedade em geral e reconhece o papel pioneiro de Gelb. Mas ele não vai transmitir ao vivo para cinemas na área de Berlim, para que os moradores locais possam ir pessoalmente. “É preciso ter certeza de que a ópera se tornará verdadeiramente difundida”, disse ele, acrescentando que é “totalmente errado” esperar que se ganhe muito dinheiro com as transmissões nos próximos anos.

A casa registrou 25 mil visualizações para a série de Hippolyte et Aricie de Rameau, que ficou disponível por 30 dias no Arte Concert, uma plataforma da rede de televisão francesa Arte (um documentário de televisão no mês que vem apresentará entrevistas com o maestro Simon Rattle, cenógrafos e outros). A Ópera Estatal da Baviera, agora em sua sétima temporada de transmissão gratuita em seu próprio site, citou como audiência recorde 170 mil pessoas de 50 países para Parsifal de Wagner em transmissão ao vivo e vídeo sob demanda por 24 horas em 2018.

Maniura enfatizou a importância de ir além das retransmissões para construir “um cenário mais rico de conexão com o público”. Em 2017, a BBC Arts Digital uniu forças com a BBC Radio 3, nove casas britânicas de ópera e outras organizações para o #OperaPassionDay, que incluiu transmissão ao vivo e ainda um desempenho pop-up, exibição em museu e campanha de mídia social.

"Há um enorme mundo de contextualização", disse ele. “Este é o lugar onde a tecnologia digital pode mudar o grau de envolvimento”.

O conteúdo gerado a partir de transmissões de cinema só facilita a presença de uma empresa nas redes sociais e outras plataformas online. Mas Gelb é cauteloso ao diluir a marca do Met unindo-se a sites de streaming agregados.

Ele defende o cinema como um terreno fértil para fornecer ao público novas perspectivas sobre a forma de arte, seja por meio de entrevistas, vislumbres da loja de fantasias ou trechos de documentários.

“Nós, os produtores, estamos no controle total”, disse ele. / Tradução de Claudia Bozzo

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