Michal Czerwonka/The New York Times
Michal Czerwonka/The New York Times

Caso dos adolescentes negros presos injustamente por estupro no Central Park vira ópera

História ocorrida em 1989 também foi adaptada este ano para uma série, 'Olhos que Condenam'

Zachary Woolfe, Especial para o Estado

22 de junho de 2019 | 16h00

SAN PEDRO, CALIFÓRNIA - A ópera confere estatura aos seus personagens (mesmo quando são vilões). Ela expande seu escopo e os enobrece. O que causa problemas quando essa forma de arte se volta para a história recente e suas figuras polêmicas. Foi a principal objeção ao personagem título da peça Nixon in China, de John Adams e aos terroristas palestinos retratados em The Death of Kinghoffer. A imortalidade que a ópera garante é ampliada para aqueles que não a merecem.

Bem, ninguém pode dizer que não há mérito no quinteto de protagonistas de The Central Park Five, nova ópera com conotação jazzística de Anthony Davis e Richard Wesley, que estreou no sábado, 15, no Warner Grand Theater e encenada pelo Long Beach Opera. São garotos – e depois homens – que conquistaram sua grandeza e seu lugar no cenário da ópera.

A dolorosa história, que já soma 30 anos, é muito conhecida. Mas ela chega este mês a um novo e grande público com a minissérie de Ava DuVernay, da Netflix, chamada Olhos que Condenam, um tratamento dolorosamente intenso do drama.

Quando, em 1989, uma mulher branca foi estuprada e brutalmente espancada no Central Park, cinco adolescentes negros foram acusados e condenados pelo crime, com base em confissões que mais tarde se descobriu que foram obtidas mediante coação. Quando um homem confessou o crime e provas de DNA confirmaram sua participação, o julgamento dos cinco adolescentes foi anulado. Em 2014, a cidade de Nova York pagou US$ 41 milhões para fechar um acordo e encerrar a ação judicial movida por eles.

É uma história que infelizmente nunca envelhece e repercute novamente na era do movimento Black Lives Matter, despertando nova atenção para problemas envolvendo transgressões da polícia, condenação equivocadas e detenções em massa. Além disto, um dos seus personagens voltou novamente ao noticiário, para dizer o mínimo: Donald Trump, que empreendeu uma cruzada contra o Central Park Five, insistindo que os jovens eram culpados, como fez na sua campanha presidencial de 2016.

Portanto não é coincidência o fato de a história ser narrada pelos artistas hoje. A coincidência é que a ópera The Central Park Five, com uma partitura assinada por Anthony Davis e o libreto de Richard Wesley, é lançada no mesmo mês da minissérie Olhos que Condenam.

Não é a primeira vez que uma ópera assinada por Anthony Davis, conhecido compositor e intérprete de jazz, está na vanguarda da cultura popular. A sua obra intitulada X: A Vida e os Tempos de Malcom X antecedeu o filme de sucesso de Spike Lee. Amistad foi lançado dias antes do filme de Steven Spielberg, de 1997, com o mesmo título. Nesses trabalhos, especialmente na sua obra sobre Malcom X, há uma percepção de a ópera sendo usada para dar repercussão – literal e figurativamente – a fatos da vida real.

Embora a ópera não consiga competir com a tela em termos de realismo, ela oferece “a oportunidade de explorar o impacto emocional além dos meros fatos”, como escreveu Andreas Mitisek, diretor geral e artístico da Long Beach Opera em seu comunicado à imprensa sobre The Central Park Five. A ópera pode ser particularmente cativante quando desvenda sutilezas em histórias que conhecemos principalmente como uma reportagem em branco e preto – quando imagina as reflexões privadas de Malcom X ou Richard Nixon e as coloca em música.

Isto é o que Anthony Davis, entre outros, tem mostrado que a ópera consegue fazer. Mas The Central Park Five não faz, ou nem sempre faz.

Direto e veemente, ele deixa clara a devastadora injustiça da situação, mas, além disto, oferece poucas nuanças emocionais.

Parte do problema é o tratamento dado pelo grupo: a ópera tem um coro grego como principal personagem. Cantando amplamente em uníssono ou em contrapontos, os cinco (interpretados por Derrell Acon, Cedric Berry, Orson Van Gay, Nathan Granner e Bernard Holcomb), nunca têm a chance de aparecer como indivíduos, tanto na música como nos versos.

E a evocação da sua vida de amigos no Harlem é muito fraca para fazer com que esqueçamos realmente depois que tudo dá errado. A produção simples e insípida de Mitisek – as estruturas de portas corrediças e as projeções de manchetes de tabloides – não ajudam.

Abrindo o espetáculo com um acorde saturado e penetrante que provoca nervosismo, a partitura, conduzida por Leslie Dunner, é mais interessante nos breves interlúdios musicais, As cenas geralmente têm como música de fundo um jazz de big band urbano e ritmicamente potente, intensificado com cordas, sob a linha vocal. (Ao contrário de algumas óperas contemporâneas, o texto é falado com uma clareza consistente.) Mas nas passagens instrumentais entre as cenas a força musical desvanece para revelar salpicos de instrumentação e uma névoa eletrônica – uma paisagem sonora agitada que rapidamente evoca o caráter abominável da história.

Como as óperas anteriores de Anthony Davis, os solos são os destaques:

A mãe de um dos cinco (a mezzo-soprano Lindsay Patterson) abre o coração numa canção que é um lamento triste em ebulição. Mas mesmo aqui, quando a música é tão fascinante, não existe muito a percepção de personalidade ou do inesperado.

Uma advogada distrital sem nome (a mezzo Jessica Mamely) claramente pretende sugerir que a promotora Linda Fairstein não é aquele monstro que poderia ser (ou como a personagem de Fairstein em Olhos que Condenam). Mas nem o compositor e nem o libretista desenvolvem realmente sua personagem. Um vilão mais padronizado é um personagem chamado Masque (o barítono Zeffin Quinn Hollis) que muda de figura, de repórter preconceituoso se transforma num turista e depois num policial.

E, na voz de um contratenor o estereótipo da arrogância operística, Trump (Thomas Segen), é retratado como um fanfarrão ressentido. Sua parte na história foi expandida além dos antecedentes históricos a ponto de ser visto como uma espécie de Svengali para a polícia e promotores que trabalham no caso. O segundo ato tem início com ele sentado em vaso de banheiro dourado, um momento satírico, mas que se torna exagerado.

Seguramente nunca temos lembranças suficientes da injustiça cometida contra os cinco adolescentes. Mas o trabalho eloquente de Anthony Davis e Richard Wesley reforça o sentimento de que a ópera pode adicionar algo mais ao que já sabemos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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