Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

Cat Power retoma carreira em novo disco após seis anos de hiato

Cantora americana quase largou tudo após engravidar, mas volta com tudo em 'The Wanderer'

Joe Coscarelli, The New York Times

29 Setembro 2018 | 16h00

MIAMI BEACH - Quando Chan Marshall, cantora e compositora conhecida como Cat Power, engravidou, em 2014, ela pensava em mudar completamente sua vida. Há quase 25 anos, ela estava na estrada, numa batalha interminável para construir uma carreira de artista, expondo suas crises emocionais, noite após noite, para um público solidário, mas exigente.

De repente, Chan teve seu filho e sentiu como se tivesse tirado a sorte na loteria. “Vou para a Austrália começar tudo de novo”, pensou. “Quem não deseja uma vida simples?” E lá, ela chegou até a achar um boteco que a contratou como garçonete.

Essa ideia de isolamento e anonimato era a mesma que ela tinha quando jovem afetada por violentas crises de depressão: mudar para uma cidadezinha deserta, mudar seu nome para Beth, usar vestidos, cabelo curto. Seu sonho era ter oito filhos, quatro biológicos e quatro adotados – além de animais e um jardim. “Era minha fantasia”, disse ela.

Mas não foi assim. Pelo contrário, Marshall, às vésperas de se tornar mãe solteira, voltou a trabalhar. Tirou seu equipamento de música do armário e alugou uma casa em Miami Beach, não distante da que ela tinha ali desde 2002, e começou a fazer o que sempre fez: produzir um novo álbum de estúdio.

Wanderer, seu décimo trabalho, será lançado em cinco de outubro e contêm as frases poéticas e abstratas dos álbuns anteriores. Ela ainda é uma compositora vibrante, com uma voz extraordinária e muito sentimento para parar agora. Um nervo eternamente exposto que se recusa a se apresentar como plenamente curado ou intacto, mesmo numa era que privilegia o cuidado pessoal e do feminismo transformado em commodity. 

Hoje, aos 46 anos, ela realmente tem experiência de vida suficiente para embasar suas músicas, imersas como estão nas tradições do blues e do soul, uma raridade no rock indie. São onze faixas em que ela parece confiante, enfim, da sua identidade de inquiridora desenraizada e contadora de histórias, firme na instabilidade da sua existência atípica.

Seu primeiro disco em mais de seis anos, Wanderer também representa um renascimento da carreira no estilo de Marshall. Depois de algum tumulto, é o primeiro álbum de Cat Power desde o lançamento, em 1996, do grande sucesso que foi What Would the Community Think, que não foi lançado pelo selo independente Matador, e o primeiro com um empresário, Andy Slater, ex-presidente da Capitol Records.

“Ele fez com que eu tivesse muito orgulho do trabalho”, disse ela, observando que no passado ela se sentia agradecida pelo fato de estar trabalhando, mais preocupada em chegar do ponto A ao B do que com seu legado. “Não é ser pretensioso me considerar uma artista, não é “brega” cantar músicas que as pessoas podem achar depressivas. Não é algo constrangedor”.

Não quer dizer que Marshall deixou de ser vulnerável e arrebatada, qualidades que a colocam ao lado de compositores iconoclastas como P.J. Harvey, Tori Amos e Fiona Apple.

Pessoalmente, ela se alterna como uma figura glamourosa, discreta, eloquente, que se odeia, ou agitada, efusiva, impenetrável, curiosa, frustrada e frustrante, um fluxo quase constante de tiques descontraídos conscientes. “Lamento, está com raiva de mim?” – essa mistura de charme sulista e obsessão artística.

Sempre se refere à sua luta com o abuso de substâncias, nervosismo e saúde mental, e também insiste que sua reputação de pessoa atribulada mentalmente é exagerada.

“Nunca fui alcoólatra”, disse ela conversando no bar da Soho Beach House, quando pede a primeira das duas tequilas que bebe na noite. “Quando ficava com muita vontade de beber, achava que era. Mas depois de anos de terapia e compreender melhor sobre mim mesma, eu entendi que estava na verdade sofrendo com uma profunda depressão”.

Marshall disse que o fato de ter um filho, e também sua batalha com uma doença rara que provocava inchaço nas juntas, na garganta e no rosto, colocaram as coisas em perspectiva. “Eu lutei pela minha vida em várias ocasiões”, afirmou, acrescentando que desde então aprendeu a se proteger e a sua família.

No sol da Flórida ela conversou sobre seu filho, hoje com três anos e retratado na capa do seu novo álbum, e sobre os termos horríveis da sua separação do selo Matador, que ela chamou de “minha ex-gravadora”. Mas quando indagada sobre o novo álbum, que ela produziu quase sem nenhuma instrumentação além da guitarra, do piano e a sua voz, ela se fechou, temendo não avaliá-lo corretamente.

“Achei que as músicas seriam mais potentes se fossem as mais simples possíveis – na minha opinião, disse ela. “Bem, potente não é a palavra certa. Direta, talvez. Lamento, acho que respondi o melhor que consegui".

Rob Schnapf, produtor de Elliott Smith que fez a mixagem de Wanderer e foi o engenheiro de som em algumas sessões de gravação, disse que Cat Power sabia “que não queria fazer uma grande gravação”. Ele lembrou os momentos de inspiração no estúdio quando um espírito tomava conta dela: “Seus olhos reviravam e ela seguia em frente. Você não tem como fazer isso acontecer. Ou o artista tem o gênio dentro da garrafa ou tem mesmo a garrafa.

Mas o selo Matador rejeitou o álbum.

“Eles disseram para fazer tudo de novo”, explicou Marshall (Slater confirmou que eles lhe disseram que Wanderer não era bom o bastante, nem forte o suficiente para ser registrado. Ele será lançado pela Domino).

Chan disse ter recebido a mesma atribuição da Matador quando gravou seu álbum Sun, de 2012. “Precisamos de sucessos”, eles disseram. E eu consegui. O álbum ficou entre os dez mais vendidos. Fiz o melhor possível e dei a eles os sucessos, usando sintetizadores e sons mais modernos. (Foram vendidos 114 mil álbuns até agora, segundo a Nielsen).

Mas para Marshall a gravadora sempre representou liberdade artística. “Sei que estavam me usando”, reconhece a cantora, lembrando de um executivo da gravadora tocando para ela um álbum de Adele e lhe dizendo que era daquela maneira que um álbum deveria ser. “Compreendi que eu era um produto, e sempre achei que eu era uma pessoa”, disse ela.

Em comunicado, a gravadora Matador declarou que “Chan Marshall é sem dúvida uma das mais talentosas e brilhantes artistas que tivemos a felicidade de conhecer. Nosso relacionamento profissional teve momentos difíceis. Tivemos desacordos sobre questões artísticas e comerciais, mas nada disso muda nosso respeito por ela, como pessoa e como artista.”

Marshall disse que não mudou as músicas depois de passar para outra gravadora, mas adicionou uma faixa, Woman, em parceria com Lana Del Rey, que sob muitos aspectos se tornou a peça central, desafiadora e otimista de um álbum sutil, que começa com um lamento pungente e “folky”: 

“Se eu ganhasse um centavo / Cada vez que você diz que não sou o que necessita / Se juntasse 25 centavos / Eu levaria ao banco e depois partiria”. Indagada sobre a música, que teve mais de um milhão de visualizações no YouTube em um mês, se era uma resposta para sua ex-gravadora, ela disse que não iria comentar.

Chan soube que eu havia perguntado ao seu empresário sobre essa sua maneira de se desculpar e seu hábito de perguntar “está com raiva de mim?”, e afirmou que tentou abandonar essa mania, mas se sentiu melhor quando viu que sua meia-irmã fazia mesma coisa. Disse a ela que achava que a sociedade esperava que mesmo indivíduos sensíveis acabassem endurecendo com o tempo, deixando de ser uma pessoa compassiva, ferida, mas que provavelmente para a sua música foi melhor que ela tenha se recusado ou mesmo sido incapaz disso.

“Não acho que conseguiria ser dura com o mundo”, disse a cantora, e eu me lembrei de uma história que ela me contou sobre um cover em Wanderer de uma balada de Rihana e Mikky Ekko, Stay. Cat Power há muito tempo faz dos covers uma parte importante do seu repertório, tendo lançado dois álbuns com eles, embora seja apegada aos clássicos, como Billie Holiday, Janis Joplin e Bob Dylan.

Mas Stay a agradou desde que a ouviu pela primeira vez no carro de alguém. “Era um antigo namorado, ele foi me buscar de carro e, quando abriu a porta, a música estava tocando. Ele me disse, ‘esta é a minha garota’ e achei que estava se referindo a mim. Quando a música chegou ao fim ele desligou o rádio e percebi que estava falando de Rihanna.”

Alguns anos mais tarde, pouco depois do nascimento do seu filho, ela ouviu de novo a música num táxi. Naquela noite encontrou-se com um amigo em um bar de karaokê e decidiu que aquela seria a única música que cantaria.

E então ela cantou Stay 16 vezes. /Tradução de Terezinha Martino

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