ALESSANDRO BIANCHI/REUTERS
ALESSANDRO BIANCHI/REUTERS

Cenas de um casamento

Enlace de George Clooney com Amal Alamuddin atesta que a Hollywood de fábula ficou no séc. 20

Paulo Nogueira, O Estado de S. Paulo

04 Outubro 2014 | 16h00

Como o planeta sabe, George Clooney, 53 anos, casou com Amal Alamuddin, 36. “Maior sex symbol vivo” e “solteiro de ouro de Hollywood”, Clooney já fora casado com a atriz Talia Balsam. Assim, confirmou o epigrama de Bernard Shaw: “O segundo casamento é o triunfo da esperança sobre a experiência.” Mas a boda de Veneza desvendou sobretudo como mudaram os costumes em Hollywood. 

Quem presidiu a cerimônia foi Walter Veltroni, ex-prefeito de Roma e amigo de Clooney desde que este recebeu de Gorbachev o Peace Summit Award, por seu compromisso com Darfur. Em 2012, Clooney chegou a ser preso em um protesto diante da embaixada sudanesa em Washington, ao lado de Martin Luther King III.

Se o pombinho é politicamente correto, a noiva também une o útil ao agradável. Amal estudou em Oxford e na Universidade de Nova York. A partir daí, essa advogada nunca regateou proficiência e brilhantismo. Colaborou com Sonia Sottomayor, a primeira hispânica a chegar à Suprema Corte dos EUA. Assessora de Kofi Annan, Amal trabalhou na promotoria da ONU que analisou as limpezas étnicas na ex-Iugoslávia. Participou dos processos de extradição de Julian Assange (Wikileaks), da prisão da ex-primeira-ministra ucraniana Yulia Tymoshenko e da investigação do assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafic Hariri. Há dois meses, foi nomeada pela ONU para uma comissão de apenas três membros destinada a examinar crimes de guerra em Gaza, no conflito entre israelenses e palestinos.

Se Clooney é um ativista galã, Amal também combina o lado mulher-maravilha com o de princesa da Disney. Bela e de um glamour suntuoso, não é fácil para ela - que já namorou o mandachuva do Google, Eric Schmidt - evitar conotações de mundanismo. Ao comparecer à Conferência Global Contra a Violência Sexual, em Londres, Amal estava tão estonteante num tailleur de Paule Ka que inspirou nos marmanjos impulsos pouco compatíveis com a ocasião. No casamento, usou um vestido Alexander McQueen, a mesma grife que vestiu Kate Middleton em seu casório com o príncipe William. O próprio Julian Assange comentou sugestivamente: “Amal tem o cérebro de um Rolls-Royce”. Já a revista The Business Woman, a Bíblia das executivas globalizadas, titulou o evento com um esnobismo hilário: “Advogada internacionalmente aclamada casa com um ator”.

Clooney não dá ponto sem nó. Nos próximos Globos de Ouro, vai receber o prêmio Cecil B. DeMille, badaladíssimo tributo (o último ganhador foi Woody Allen). Foi convidado e aceitou participar de um episódio de Natal da prestigiosa série Downton Abbey, numa cena presumivelmente antológica com Dame Maggie Smith. 

Para uma estrela dessa grandeza, o céu não é o limite: Clooney pode se candidatar ao governo da Califórnia em 2018. Segundo o Washington Post, “os democratas estão procurando o sucessor de Jerry Brown, e George - que está interessado - tem tudo. É bonito, superstar e usa sua fama para causas humanitárias”. Arnold Schwarzenegger, sem o mesmo pedigree, governou a Califórnia. E outro ator/governador daquele Estado, Ronald Reagan, virou presidente dos EUA. A revista Life & Style já ronronou sobre Amal: “Ela daria uma primeira-dama de sonho”.

Sim, houve uma mudança de paradigma em Hollywood - e tchau, dimensão mitológica do cinema! Provavelmente, tudo começou com o fim do star system, nos anos 1950, quando os estúdios clássicos foram torpedeados por uma lei antimonopólio e pelo advento da TV. Adeus casamentos de contos de fadas - ou de fachada. 

Que volta e meia se confundiam. Como o de Grace Kelly, que virou princesa de verdade em 1956, ao casar com Rainier, o príncipe de Mônaco. Aos 26 anos e de rostinho seráfico, ela já tinha dormido com quase todos os astros, vários casados: Gary Cooper, Clark Gable, William Holden, Bing Crosby, Ray Milland, etc. Perguntando ao seu amigo, o ator David Niven, qual a melhor transa que já tivera, o noivo Rainier ouviu: “Grace, claro”. E uma correção rápida da gafe: “Digo, Grace Fields” (que não existia). O príncipe exigiu um exame de fertilidade. 

Na mesma época, Rock Hudson, um avatar do charme viril nas telas e gay na vida real, foi obrigado a casar com a secretária de seu agente, Phyllis Gates. O casamento durou dois anos. Hudson morreu em 1985, depois de assumir - pioneiramente - que estava com aids. 

Por coincidência, em 2014 completam-se 80 anos do Código Hays, a autocensura que Hollywood se impôs em 1934 e durou até 1968, substituído pela classificação etária. Entre os 16 estigmas, eram proibidas alusões ao amor inter-racial. Nem marido e mulher com bodas de ouro podiam aparecer na mesma cama. Cenas com mulheres grávidas, jamais - o público que se entendesse com a cegonha.

Hoje há em Hollywood desde uniões hétero longevas - a de Meryl Streep e Don Gummer (35 anos), ou de Denzel e Pauletta Washington (30 anos) - a casórios gays assumidíssimos, como o de Ellen DeGeneres e Portia Rossi. Enlaces tão fofinhos quanto os de Brad Pitt e Angelina Jolie implicaram acordos pré-nupciais estratosféricos (em caso de divórcio, além de uma dinheirama Angelina fica com os seis filhos). Entre Clooney e Amal o acordo para proteger a fortuna do ator (R$ 500 milhões) foi frugal: se durar menos de um ano, Amal embolsará US$ 1 milhão “de presente”. E vida que segue. 

O casamento Clooney/Amal comprova que a Hollywood da fábula ficou no século 20. Para o bem ou para mal. Uma vez, Liza Minnelli enviou um telegrama à mãe, Judy Garland, por não poder comparecer a um dos vários casamentos dela: “Desculpe, mamãe, não deu. Irei ao próximo”.

Paulo Nogueira, escritor e jornalista, é autor, entre outros livros, de O Amor é Um Lugar Comum (Intermeios)

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