Cenas de uma cordialidade esquecida, entre velhos rivais

O relacionamento entre jogadores brasileiros e argentinos já foi amigável, dentro e fora do campo

Newton César de Oliveira Santos*,

05 de setembro de 2009 | 14h16

Seleção brasileira durante treino no estádio Gigante de Arroyito, na Cidade de Rosário, na Argentina. Foto: Wilton Junior/AE

 

SÃO PAULO - Sempre polêmico e acostumado a ser protagonista nas situações em que se envolve, Diego Maradona estabeleceu o tom dos debates na semana da partida entre Argentina e Brasil, válida pelas eliminatórias da Copa de 2010. O técnico argentino, que fez de tudo para transferir o jogo para um campo menor e em um estádio acanhado, na cidade de Rosário, prevendo a forte pressão por parte dos torcedores, disse que a partida seria certamente muito dura e os brasileiros ficariam "temerosos". Mal desembarcaram em Buenos Aires, vindos da Europa, dois dos principais atacantes argentinos seguiram na mesma toada: "Temos que ganhar de qualquer jeito", disse Sergio Agüero. "Vamos querer comê-los em campo", declarou Carlos Tevez.

 

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À menção de um jogo entre Brasil e Argentina, o que invariavelmente vem à mente é a palavra rivalidade - cristalizada no futebol, mas que com o passar dos anos se disseminou para outros segmentos esportivos, e mesmo políticos, culturais e econômicos. Não por acaso. Essa rivalidade nos gramados ganhou contornos definidos nas diversas ocasiões em que jogadores de ambos os selecionados se envolveram em brigas. A primeira delas aconteceu em fevereiro de 1937, na partida que definiu o 14º Campeonato Sul-Americano, realizado em Buenos Aires (o jogo chegou a ser interrompido durante 42 minutos) - a Argentina venceu por 2 a 0 e ficou com o título. O mais grave entre os conflitos envolvendo argentinos e brasileiros aconteceu também em Buenos Aires, na partida que concluiu o Campeonato Sul-Americano Extraordinário realizado em 1946. O estopim foi uma jogada envolvendo o atacante brasileiro Jair Rosa Pinto e o zagueiro e capitão argentino José Salomón, em que este último fraturou a perna direita. A confusão foi generalizada, com direito a invasão do gramado por parte de torcedores e a participação de policiais, alguns a cavalo, no esforço para agredir os atletas brasileiros. Amainados os ânimos, os jogadores visitantes se recolheram aos vestiários e decidiram não mais retornar. Mas acabaram sendo convencidos do contrário pelo chefe do policiamento local. "Se os senhores não voltarem ao campo, eu retiro meus homens. O povo está como louco aí fora para invadir o vestiário." A partida foi reiniciada 1 hora e 12 minutos depois, em clima de hostilidade, e terminou sem consequências mais graves, com vitória da Argentina por 2 a 0.

 

Para quem acompanha os embates futebolísticos entre brasileiros e argentinos há algum tempo, conflitos no gramado não causam espécie. O que chamou a atenção foi o tom belicoso adotado pelo treinador e alguns jogadores argentinos antes da partida de Rosario, situação que há tempos não se via. Muito pelo contrário. Em 2005, às vésperas do encontro marcado para Buenos Aires pelas eliminatórias para a Copa do Mundo do ano seguinte, o então atacante do selecionado argentino Hernán Crespo qualificou o Brasil de "dream team". Maradona, na época recuperando-se de uma cirurgia para redução de estômago, visitou o hotel em que a seleção brasileira estava hospedada, tirou fotos com atletas brasileiros e declarou: "Torço para a Argentina, mas no mundo o Brasil está um nível acima dos demais". O tom amistoso chamou a atenção de todos.

 

Perderam-se no tempo os momentos em que o relacionamento entre brasileiros e argentinos, nos gramados e fora dele, era extremamente cordial. Poucos se recordam que o início dos confrontos entre os dois selecionados foi marcado pela atitude generosa do ex-presidente da República Argentina Julio Roca (1880 a 1886 e 1898 a 1904). Foi ele quem instituiu a Copa Roca, um troféu a ser disputado pelas seleções de Argentina e Brasil com o objetivo de ressaltar e fortalecer a entente cordiale esportiva entre as duas nações.

 

A primeira partida válida pelo referido troféu ocorreu em setembro de 1914, em Buenos Aires, e foi vencida pelo Brasil por 1 a 0. Mas pouco foi divulgado acerca do tratamento recebido pela delegação brasileira em solo argentino. Durante a semana em que permaneceram na cidade portenha os brasileiros tiveram a constante companhia de dirigentes argentinos, que prepararam uma agenda rica em atividades de lazer e cultura. Juntos, eles visitaram o metrô de Buenos Aires, inaugurado no ano anterior; estiveram nas redações dos diários La Prensa e La Nación; passearam pelo zoológico e pelo Jockey Club da cidade; e assistiram a espetáculos nos Teatros Colón e Victoria. Depois do jogo, à noite, os dirigentes locais foram ao hotel onde a delegação brasileira estava hospedada e ofereceram um banquete aos visitantes.

 

Cinco anos depois, durante o Campeonato Sul-Americano realizado no Rio de Janeiro, o espírito fraternal voltou à tona. Diante de uma tragédia (a morte do goleiro uruguaio Roberto Chery, vitimado por complicações após uma cirurgia), argentinos e brasileiros se uniram em um ato de solidariedade: decidiram realizar uma partida beneficente, com renda revertida para a família do ex-atleta. Curiosidade: nesse jogo, os argentinos foram a campo com as camisas da seleção uruguaia, ao passo que os brasileiros vestiram o uniforme do Peñarol, clube de Chery.

 

Outro exemplo: em 1939, uma nova edição da Copa Roca aconteceu no Rio de Janeiro. O treinador da seleção argentina, Fernández Roca, confessou que seus compatriotas torceram pelo triunfo do Brasil na Copa do Mundo de 1938, realizada na França (da qual a Argentina não participou). Na partida realizada em São Januário os argentinos entraram no campo levando uma bandeira brasileira; os atletas locais fizeram o mesmo e, além disso, entregaram ao capitão argentino uma escultura de bronze, de parte do presidente da República, Getúlio Vargas.

 

Naqueles anos era comum os capitães das equipes trocarem ramos de flores antes do início dos jogos. O tratamento ao adversário pela imprensa, antes e depois das partidas, era respeitoso. E em várias ocasiões as delegações visitantes foram homenageadas com banquetes e placas comemorativas. Cenas difíceis de se imaginar nos dias de hoje.

 

 

*Autor de Brasil x Argentina - Histórias do Maior Clássico do Futebol Mundial (1908-2008) (Scortecci Editora, 2009)

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