C'est la vie, Domi

Para biógrafo, ele é infiel, não criminoso. Mas, mesmo se livrando da justiça, DSK segue mulherengo

JULIANA SAYURI, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2012 | 03h09

Dominique Strauss-Kahn perdeu muitos amigos nos últimos tempos. Perdeu o poder no Partido Socialista francês, o prestígio nas universidades europeias e até o respeito mundo afora. Viu naufragar a possibilidade de ocupar o palácio presidencial no oitavo arrondissement de Paris. Foi escrachado por feministas furiosas nos portões de casa. Tudo isso por sua perdição favorita: as mulheres, uma mania que o político de 63 anos não pretende perder jamais. "Sim, eu amo as mulheres. E daí?", disse certa vez ao Libération, ao comentar os principais obstáculos para atingir suas aspirações políticas.

Antes poderoso chefão do Fundo Monetário Internacional (FMI) e um dos favoritos para disputar a presidência francesa em 2012, Dominique Strauss-Kahn - DSK para o mundo, Domi para os íntimos - teve a vida revirada em 2011, quando acusações de estupro passaram a preencher sua ficha corrida. Antes do furacão, o político ainda posava para fotos com um sorrisinho quase cínico nos lábios, como quem se orgulha das não tão secretas aventuras amorosas. Outro motivo para sorrir aconteceu nesta terça-feira, quando a Justiça francesa arquivou mais um inquérito por estupro. Até agora, DSK se safou de todos os processos criminais - e não foram poucos.

Na noite de 14 de maio de 2011, DSK foi preso no aeroporto John F. Kennedy, em Nova York. O Air France estava quase decolando quando policiais o algemaram e lhe deram voz de prisão pelo estupro da camareira Nafissatou Diallo na suíte 2.806 do Sofitel na Times Square, em Manhattan. Foi um escândalo: tabloides deliraram, inimigos políticos deitaram e rolaram, amigos sumiram. "O sr. Strauss-Kahn é louco, incapaz de controlar seus impulsos. Ele está fora do jogo", disse à época o ex-premiê socialista Michel Rocard.

"O que aconteceu não foi apenas um encontro inapropriado. Foi um erro, uma falha moral", DSK declarou à francesa TF1, admitindo o approach à camareira, mas não o estupro. Em agosto, o affair Diallo foi arquivado, pois a promotoria americana encontrou controvérsias e inconsistências na versão narrada pela imigrante guineense de 32 anos. No entanto, para uns teóricos da conspiração cá e lá, a história foi um complô político, armado pelo serviço secreto francês. "Queriam arruinar Strauss-Kahn pois ele representava um 'perigo' para a campanha presidencial de Nicolas Sarkozy. Fizeram uma armação. Sabia que Sarkozy era amigo de René-George Querry, do Sofitel?", conta ao Aliás o americano Edward Jay Epstein, autor de Three Days in May: Sex, Surveillance & DSK (Editora Melville House).

"Ele é inocente. Infiel, sim. Criminoso, não. Aliás, muitos políticos são mulherengos", defende o francês Michel Taubmann, autor da biografia Le Roman Vrai de Dominique Strauss-Kahn (Éditions du Moment).

Antes Diallo fosse o único enrosco desse mulherengo assumido. Famoso por não aceitar "não" das mademoiselles, DSK tem a trajetória marcada por affaires tumultuados. Tido como um aventureiro romântico e sedutor, de ascendência tunisiana e infância marroquina, o intelectual francês é um homem rico e sofisticado, sempre trajando ternos elegantes e camisas engomadas. Seria daqueles homens a quem a mistura entre sexo, mentiras e poder parece um coquetel tão afrodisíaco quanto um vodca martíni para James Bond. Calhorda para uns, bon vivant para outros, nem todas suas conquistas, porém, se deram só graças à lábia de galanteador: DSK foi acusado de tentativa de estupro outras vezes.

Primeiro, a bela escritora francesa Tristane Banon, que se refere ao político como um "chimpanzé no cio". Depois de agarrá-la em uma tarde de 2003, DSK também teria se engraçado com a mãe da jovem Tristane, Anne Mansouret. (O affair Banon foi arquivado pois o crime prescrevera.) E o histórico do don juan francês não para aí: foram 11 orgias estreladas pelo chefão, segundo a prostituta francesa Florence; diversas festinhas particulares com a belga Jade e outras meretrizes do cafetão Dominique Alderweireld no hotel Carlton de Lille, alardeadas pelos tabloides europeus; além de lendárias farras em cidades como Bruxelas, Paris e Washington que fariam corar um tal Berlusconi e seu harém de strippers em festas, digamos, liberais.

"Além dos escândalos, há muitas mulheres fortes e importantes na vida de DSK", lembra Epstein. Na década de 1960, um jovem Dominique trocou alianças com a primeira namoradinha, Hélène Dumas, com quem teve as filhas Vanessa, Marine e Laurin. Depois, nos anos 1980, pediu o anel de volta e se casou com a economista Brigitte Guillemette, com quem teve a caçula, Camille. Em 1991, divorciado mais uma vez, casou-se com a milionária Anne Sinclair, herdeira do marchand Paul Rosenberg. "Seduzir é importante no mundo da política", dissera Anne em 2001, questionada sobre a fama do marido malandro. Em junho passado, ela cansou e mandou DSK embora. Em setembro, ele foi flagrado com nova namorada, a jornalista Myriam Aouffir, 20 anos mais jovem.

Agora no limbo entre as graves acusações e os processos arquivados, sem culpa nem inocência confirmadas, DSK não parece disposto a se aposentar de seus flertes e romances. À diferença de tempos outros, porém, os paparazzi (e a polícia) estarão mais atentos aos passos do amante incorrigível. C'est la vie, Domi.

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