Hélvio Romero
Hélvio Romero

Céu por acaso

Na cidade onde as estações se misturam no mesmo dia, o fotógrafo olhou pela janela para encontrar uma prova do outono paulistano

André de Oliveira, O Estado de S. Paulo

21 Março 2015 | 16h00

Não é todo dia que um fotojornalista tem uma posse presidencial ou uma final de Copa do Mundo para trabalhar. Quase 70% do tempo é usado fazendo “bonecos” - como os fotógrafos chamam os retratos simples, fechados, das reportagens cotidianas. “Por isso a gente acaba ficando preso a fórmulas. E tudo precisa ser resolvido rapidamente”, conta Hélvio Romero, 57 anos, repórter fotográfico do Estado. Daí que ele inventou um modo de escapar das fórmulas. Entre um e outro “boneco”, entre uma e outra correria, coloca o fone de ouvido, sintoniza em alguma rádio de jazz ou chorinho e olha pela janela do carro. Olha, observa e clica.

Foi assim que, meio ao acaso, um dia, repassando seu material, percebeu que tinha uma coleção de fotos de céu com um azul muito especial. Quando foi olhar a data em que as imagens foram feitas notou uma constante: a maior parte era do outono. Aí se deu conta de que o acaso não era mera coincidência. Nessa estação, a luz do Sol atinge a Terra obliquamente, proporcionando uma luminosidade lenta e suave. Também venta mais, há menos poeira e umidade na atmosfera. Eis a receita para um céu azul mais azul, denso e profundo. Se é difícil captar as nuances das estações em uma cidade em que elas quatro podem se apresentar no mesmo dia, Romero encontrou no céu a maior testemunha do outono em São Paulo.

Formado em cinema pela Faap, ele diz que caiu na fotografia do mesmo jeito que descobriu esse ensaio de outono: por acaso. Mas o fato de ter estudado cinema e, por um breve período, ter feito investidas musicais com um clarinete o desmentem. Ele acaba por concordar: “A arte sempre esteve presente, ainda bem que eu encontrei a fotografia para me expressar”. Só que esse encontro demorou. Aos 36 anos entrou no Diário Popular, depois passou pelo Jornal do Brasil e nesta segunda-feira completa 15 anos de Estadão. 

“No ano em que me formei, o cinema tinha acabado no Brasil. Em 1986 foram feitas apenas duas ou três produções nacionais. Isso me empurrou para todo tipo de trabalho, até que eu encontrasse a fotografia”, diz. Foi vendedor, bancário. Um dia começou a fazer fotografias para eventos no Anhembi e cá está. “Gosto de ter chegado à fotografia com essas experiências anteriores. Talvez elas tenham forjado a minha curiosidade, o simples ato de olhar pela janela, me interessar.” 

E, assim, observando a cidade, Romero vai construindo sua interpretação dela. Fascinado por construções, compõe suas fotos de outono com elementos urbanos que também têm a presença das tonalidades azuladas do céu. São homens trabalhando, prédios, viadutos e obras que dão ideia da sutil transição entre verão e inverno em São Paulo. O ensaio, que tem suas fotos mais antigas datadas de 2004, está em aberto, não para de crescer. O outono começa agora e, para senti-lo, Romero dá a dica: basta olhar para o céu.

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