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Cézanne foi um gênio da pintura, mas agora seus desenhos vêm sendo recuperados

A figura paterna da pintura moderna também desenhava, todos os dias. Uma exposição dos ‘contornos trêmulos’ do mestre apresenta como um novo tipo de arte nasceu

Jason Farago, The New York Times

03 de julho de 2021 | 15h19

NOVA YORK - Temos Paul Cézanne, o artista, e temos Paul Cézanne, o padrinho. São quantidades desiguais e impossíveis de somar; e há então o seu legado, ainda mais pesado.

É somente com os olhos que podemos mergulhar em suas naturezas mortas e jogadores de cartas, nos banhistas aglomerados, nos panoramas angulosos do Mont Sainte-Victoire. Basta olhar, e as perspectivas quebradas dele revelam o trabalho meticuloso da sua inteligência. Mas não é tão fácil simplesmente olhar. Não quando o taciturno pintor foi elevado ao posto de mestre e professor, com seus espaços distorcidos transformados no ponto de partida do modernismo.

Durante a maior parte de sua história, o Museum of Modern Art, em particular, tratou Cézanne como um exame de admissão - instalando o seu Banhista (c. 1885) na entrada de suas galerias de coleções, um sentinela despojado vigiando Picasso, Matisse e os demais.

É difícil ater-se a esses dois Cézannes; eu, ao menos, tenho dificuldade. Ele foi o primeiro pintor pelo qual me apaixonei, na adolescência. Mas, hoje, tenho o mau costume de tratar os quadros de Cézannes como problemas de matemática, somando sua pinceladas pesadas como marcos no caminho que leva ao século 20. Assim, em meio às muitas obras surpreendentes de Cézanne Drawing [Desenhos de Cézanne], a vasta e importantíssima exposição do MoMA em cartaz nesta temporada de verão, um deles se sobressai: ele me devolveu Cézanne, em uma escala humana, livre de tudo que viria a seguir.

Este progenitor da pintura moderna - “o pai de todos nós", como teriam dito Picasso e Matisse - também desenhava. Praticamente todos os dias, durante 50 anos. As densas massas de frutas que pensamos conhecer aparecem aqui somente como sombras. As sólidas dobras dos corpos dos banhistas se resolvem em contornos trêmulos. Nos desenhos menos exaltados (bem como em suas pinturas no papel), traços mais grosseiros e regiões inacabadas se tornam testemunhas de como um novo tipo de arte precisa ser forjado dia após dia.

Ao se concentrar nos desenhos - são cerca de 280 em exposição, meticulosamente classificados por tema pelas curadoras Jodi Hauptman e Samantha Friedman - o panorama da obra de Cézanne é reaberto a quem ficou tanto tempo cego para ela (eu e o MoMA, talvez). Diante das percepções em camadas das pinturas, Cézanne Drawing traz de volta momentos singelos de contemplação. Em relação ao que viria a seguir, os desenhos retomam uma inspiração clássica. Às cores é devolvido o contorno. Tudo isso estava ali, dentro e ao redor de Cézanne-o-padrinho-da-modernidade, mas foi necessária essa exposição para nos recordar deste fato. Em todos esses desenhos a lápis, os raros toques de aquarela que encontramos não são exatamente um Cézanne desconhecido, e sim um Cézanne que esquecemos como ver.

Por onde começar? Por si mesmo. Mais ou menos em 1880, quando tinha pouco mais de 40 anos, Cézanne se viu no espelho e fez um rascunho do seu perfil três quartos: as sobrancelhas arqueadas, os lábios cerrados, a barba emoldurando a coroa calva em sua cabeça. Na mesma folha, usando aproximadamente a mesma escala, ele fez outro desenho. É uma maçã irregular, um pouco sombreada na parte inferior, onde poderia estar uma mesa. A pessoa e o objeto, o observador e o observado, parecem explicitamente equiparados.

Como uma folha mostrando um tema tão corriqueiro pode transmitir tamanha autoridade? É apenas uma maçã!

Bem, é e não é uma maçã. O que Cézanne está nos mostrando com esse desenho, e o que vemos nesta exposição, é que a própria maçã, ou mesmo o rosto do próprio artista, não têm importância em si. O importante é a sua percepção da maçã (e do rosto), e o estilo com o qual ele retrata essas percepções. Durante séculos antes de Cézanne, o melhor da arte europeia era aquela arte que representava o mundo de maneira mais precisa, com nitidez, ilusionismo, elegância, sprezzatura. Cézanne deixou tudo isso de lado. Em vez disso, usou a arte para dar forma ao processo de ver este mundo, individualmente, usando o olhar e o cérebro.

É uma exposição que mostra um processo e uma prática, e talvez você goste menos de Cézanne Drawing do que eu gostei se o que procura é refinamento. Comparado até mesmo com seus colegas pós-impressionistas - van Gogh, por exemplo, ou particularmente Seurat - Cézanne não era notavelmente talentoso no desenho e nem melhorou muito seus talentos com o passar das décadas. Um desenho de Hércules e outro de um camponês pastor são mais difíceis de distinguir. O desenho de um banhista em escala natural não apresenta refinamento muito maior do que o desenho de um banhista feito em papel de impressora. Seu amigo e colega Émile Bernard chamou os desenhos de Cézanne de “documentos desprovidos de artifício", como se nem fossem considerados arte.

Mas é essa falta de artifício - a sensação de testemunharmos Cézanne trabalhando ao desenhar - que torna essas folhas tão modernas. Passe algum tempo examinando Mercúrio depois de Pigalle (c. 1890), um dentre os incontáveis desenhos que o artista fez inspirado na escultura neoclássica. As linhas oscilantes se misturam, e os contornos são trêmulos e estranhos. Nenhuma marca de borracha, pouca intenção no acabamento. Nada do heroísmo do nu clássico. Mas, nessas linhas, testemunhamos a materialização de toda uma consciência artística - e, com ela, um novo tipo de arte que gira em torno da consciência.

Há mais elegância nas aquarelas, que parecem mais familiares do que os desenhos a lápis (embora eu diria que também se trata de “desenhos”; linhas às vezes se sobrepõem à aquarela nessas folhas, em um trabalho conjunto de lápis e pincelada). Naturezas mortas com maçãs, pêras e semelhantes estão entre as composições mais trabalhadas dessa exposição, mas vazios em branco dão à sua massa uma tensão extra. Há ainda mais brancos nas folhas de Sainte-Victoire, o monte Provençal que Cézanne destilou em blocos sobrepostos de cor e linhas quebradas e angulosas.

As folhas às quais dediquei mais tempo são as aquarelas plein-air de Cézanne mostrando superfícies de rocha no sul da França, lavadas e abertas, quase irreconhecíveis enquanto formações geológicas. Esta exposição mostra 10 delas em uma só parede, e os contornos sussurrados das pedras são o mais próximo da abstração que este perceptualista se permitiria.

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'Cézanne Drawing'

Em cartaz até 25 de setembro no Museum of Modern Art, 11 W. 53rd St., Manhattan. (212) 708-9400, moma.org.

Tradução de Augusto Calil

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