Museu Hermitage
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Cézanne resiste como gênio idiossincrático em livro sobre seus anos finais

Historiador de arte Michael Doran reúne documentos, relatos e testemunhos sobre o pintor de 1894 a 1906

Caio Sarack*, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2021 | 15h00

Ao estarmos diante de uma peça artística chocante podemos perceber, esta é a tese deste texto, duas vibrações: a primeira se dá pela experiência direta com as cores que impactam nossa sensibilidade ou mesmo os sons e silêncios que compõem uma melodia que nos move, porém, adiciona-se a isso o fascínio que temos em pensar que alguém que comunga conosco em muitas características foi o responsável por tal obra.

Temos estruturas ósseas similares, sistemas endócrinos e nervosos quase idênticos, uma proximidade tão gritante não consegue nos fazer entender a distância total que existe entre nós e os artistas. Seguindo a leitura poética do francês Paul Valéry, aquele que nos apresenta a experiência artística é responsável por transformar o arbitrário de suas escolhas e estilo em necessidade, numa espécie de revelação do que é a bela (é preciso ler com ênfase) obra de arte que, depois de apresentada, não pode mais ser esquecida. O livro recém lançado pela Editora 34 do historiador de arte Michael Doran, Conversas com Cézanne, dá à leitora e ao leitor a chance de se aproximar de uma dessas vibrações sobre as quais tratamos: o cotidiano do gênio e seus caminhos em direção à bela obra. Essa abordagem, no entanto, conta com duas coordenadas que fazem a leitura assumir um modo sistemático que vale a pena comentar.

Primeira coordenada é a intenção, digamos, historiografizante dessas conversas, porque se trata dos últimos 12 anos de vida do pintor, de 1894 a 1906, nas cartas, comentários e, sobretudo, nas interpretações dos seus interlocutores também versam sobre discussões e exposições das teorias estéticas de Cézanne. O historiador preenche e transborda o livro com notas de rodapé, faz remissões a fontes presentes e não na edição da Editora 34, entre momentos de juventude e velhice do pintor e até controvérsias sobre “opiniões” estéticas dele e sobre sua maneira de produzir. 

Historiografizante porque coloca uma profusão de referências que nos faz experienciar o modo sistemático dos historiadores arquivistas: numa espécie de economia bibliófila, o organizador Michael Doran nos mostra como a abordagem interfere em nossa paixão diante do gênio. É como se o heroísmo que supomos nos artistas pudesse ser depurado e se tornasse, depois disso, um cotidiano com suas repetições desgastantes, com suas frustrações recorrentes e, claro, seus picos de ânimo chorosos e confusos. O susto da leitora e do leitor está em perceber, uma vez mais, que a proximidade (antes biológica, orgânica) passa a ser ainda maior: comezinha, com dilemas psíquicos e existenciais que nos solicitam a todos frequentemente, a rotina do gênio começa a nos fazer vibrar de modo distinto daquela primeira experiência quando estávamos diante da bela obra.

Há um exemplo dessa leitura que pode ilustrar a sensação a quem lê este texto. Em certa crônica sobre um dos encontros que teve com Cézanne, o poeta Léo Larguier escreve o seguinte sobre uma edição de Flores do Mal, o livro de Charles Baudelaire, emulando aquela vibração com que abrimos este texto: “A capa está respingada de tinta, com algumas manchas vermelhas acastanhadas, talvez até a impressão de um dedo que foi apoiado contra a paleta”. Se lemos tal como encontramos o trecho, somos convidados a pensar as marcas do gênio no objeto trivial; esses sinais de uso trazem algo extraordinário, por assim dizer, sagrado como uma pedra em que algum santo homem ou santa mulher tocou. 

É deste lugar que nos puxa a nota de rodapé 7 que nos remete a outra nota anterior. Mostraria ao poeta Larguier o que nos conta com o frescor de uma fofoca: “Talvez não no que respeitava a seus objetos pessoais [Cézanne não era um colecionador de bibelôs]; mas ele era certamente apegado às lembranças de seu pai e de sua mãe. (...) Denis [pintor, escritor e colega de Cézanne] nos conta como Cézanne, “tendo perdido sua mãe que ele amava muito conserva bibelôs que a evocam. Sua mulher, com ciúmes, um belo dia, destruiu essas lembranças: Cézanne, habituado às ações estúpidas de sua mulher, voltou para casa e, não encontrando mais nada, fugiu e passou vários dias no campo”.

A segunda coordenada está na leitura filosófica das rotinas de pensamento e técnicas com as quais lidamos. Em meio a tantas justaposições de trechos, de frases e nuances entre versões sobre eventos e encontros, Cézanne resiste como um gênio da pintura, atualíssimo em suas preocupações estéticas, ainda que ultrapassado em suas manias e idiossincrasias. 

Esse gênio de naturezas-mortas, paisagens do interior francês ou retratos hesitantes e inconclusos mostram o caráter de uma modernidade que iria se reformular no século 20. Cézanne aparece neste livro como a promessa que hoje podemos, polemicamente, dar como liquidada e liquefeita. 

Liquidada, porque as vanguardas que forram a História da Arte da primeira metade do século 20 apresentam seus resultados ao ter enfrentado diretamente suas preocupações sobre a matéria da figura – do óptico ao reflexionado da representação pictórica, no jargão de Cézanne: para o pintor francês, o que está em jogo na pintura são os contrastes de tons, cores e distâncias que preenchem a figura para que ela possa sensibilizar quem a observa, qualquer um que a observe; nós, que nos chocamos com seus quadros, mesmo os inacabados, ou mesmo o pintor quando pode se ver satisfeito com seu trabalho.

Liquefeita, porque Cézanne pode ser encontrado a um clique e competirá com todas as versões aproximadas, pixeladas de suas figuras. Não se quer com isso manifestar purismos formais e ritualísticos de que para se viver uma obra autenticamente é preciso vê-la a poucos palmos de distância. Mas ainda assim, essa nova distância (da tela, da reprodução em chaveiros ou cadernetas) transforma a atmosfera que Cézanne tentava captar em seus quadros. Não é a atmosfera artística, aristocrática ou a famosa “vibe cult”, mas a atmosfera que não hesita em se interpor dentro de nós quando observamos a representação, a distância que existe muito sensível entre nós e a realidade. 

O artista precisa simular de tal forma essa atmosfera real no quadro para que a própria figuração nos dê – ela mesma – um novo ar para respirar.

Como o pintor é citado por um de seus interlocutores: “Ver na natureza é libertar o caráter de seu modelo. Pintar não é copiar servilmente o objetivo: é capturar uma harmonia entre inúmeras relações, é transpô-las em uma gama própria, desenvolvendo-as segundo uma lógica nova e original”. 

Mas o homem Cézanne percebe o gesto divino que precisa fazer para isso: “Como ir sem rodeios à natureza? Veja, daquela árvore até nós há um espaço, uma atmosfera, reconheço; mas em seguida vem o tronco, palpável, resistente, esse corpo… Ver como quem acaba de nascer”.

A beleza, assim é a esperança deste que lhe escreve, talvez se encontre nessa harmonia que ainda se faz presente, mesmo que aproximada pelas cores digitais, pelas impressões em mercadorias ou entrincheirada numa sala de museu com ingresso caro: ainda assim “uma lógica nova e original” – e acrescentaria “necessária” como sugeria Valéry.

É MESTRE EM FILOSOFIA PELA USP E PROFESSOR DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DO MORUMBI

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