Chá com Otto

Chá com Otto

Velhice tranquila de pequenos carrascos nazistas é sinal evidente do confortável cinismo da sociedade de massa

Marcos Guterman, O Estado de S. Paulo

25 Outubro 2014 | 16h00


Um senhor idoso, com mãos ligeiramente trêmulas e olhar distante, serve-se de chá e observa, pela ampla janela, os campos verdes que cercam sua casa. Deve lembrar-se dos bons e velhos tempos em que participou da grande missão germânica de erradicar da Terra os seres inferiores - judeus, ciganos, homossexuais, comunistas e todos aqueles que contrariassem os desígnios da história tal como concebidos pelo führer Adolf Hitler. O suspiro que o velho carrasco nazista solta é de nostalgia desse passado glorioso, mas ele está satisfeito com seu presente, pois vive a aposentadoria reservada aos vencedores - em completa liberdade e, ademais, financiada com dinheiro dos contribuintes americanos.

Chamemos esse homem de Otto Normalverbraucher, a versão alemã do “fulano de tal”, pois seu nome verdadeiro não é importante. Normalverbraucher é um dos pelo menos 38 criminosos de guerra nazistas que haviam se refugiado nos Estados Unidos depois da 2ª Guerra e, graças a uma brecha legal, continuaram a receber benefícios do Seguro Social a que tinham direito mesmo depois de terem sido convidados a abandonar o país.

O caso foi levantado pela agência de notícias Associated Press e, como os próprios americanos costumam dizer, adiciona insulto à injúria. Sabe-se que, desde o final da guerra, o governo dos Estados Unidos não se esforçou o suficiente para capturar e punir os criminosos de guerra alemães que haviam fugido para o país. Em alguns casos, conforme documentação tornada pública em 2010, recrutou os mais capacitados entre esses ex-nazistas para trabalhar para os serviços de inteligência, para o programa espacial e para o desenvolvimento de mísseis. Os demais, porém, nada significavam para os Estados Unidos senão a constrangedora constatação de que o país que se apresentava como campeão do mundo livre abrigava em suas fronteiras esses inimigos da humanidade.

Otto Normalverbraucher e dezenas de outros ex-integrantes do regime nazista obtiveram cidadania americana e conquistaram o direito de receber pensão por aposentadoria. Eles acabaram sendo encontrados pelo Escritório de Investigações Especiais (OSI, na sigla em inglês), criado pelo Departamento de Justiça em 1979 justamente para capturar e deportar ex-nazistas e seus colaboradores nos Estados Unidos. Segundo a Associated Press, o OSI, então, convenceu-os a abandonar o país de forma voluntária, evitando o desgastante processo de cassação de cidadania e deportação.

Para isso, sempre segundo a versão da agência, o OSI usou como moeda de troca a manutenção da aposentadoria - que rendia US$ 1.500 por mês para Otto Normalverbraucher. O direito a receber o pagamento pôde ser mantido porque os ex-nazistas não deixaram de ser cidadãos americanos e não haviam sido deportados.

Confrontado com a informação, o Departamento de Justiça negou que as aposentadorias tenham servido para que o OSI cumprisse seu objetivo de tirar os ex-nazistas do país, mas não negou a escandalosa manutenção do pagamento a nazistas confessos - que chegou à casa dos milhões de dólares. Um porta-voz da Casa Branca, sem esconder o constrangimento, disse o óbvio: “Nossa opinião é que não acreditamos que esses indivíduos deveriam estar recebendo esses benefícios”.

Não há razão para duvidar da vontade do governo de Barack Obama de corrigir essa inacreditável falha, mas também não há motivo para ingenuidade. Nada disso aconteceu por acaso.

Os americanos, em especial por meio de seu poderoso cinema, se empenharam em disseminar a imagem de que lideraram o mundo ocidental no combate ao nazismo, retratado nas telas como o mais bem-acabado símbolo do Mal, em que todos os envolvidos na cadeia de crimes do Terceiro Reich, mesmo gente desimportante como nosso Otto Normalverbraucher, aparecem como demônios celerados - um exagero, pois a maioria dos alemães que colaboraram com o regime de Hitler era formada por bons pais de família e gente sem nenhuma inclinação criminosa.

No entanto, como se observa neste e em outros casos em que se consumou inaceitável arranjo com os criminosos nazistas que foram viver nos Estados Unidos, a retórica da luta do mundo ocidental contra o totalitarismo mal esconde uma terrível indiferença - que o tempo decorrido desde o final da guerra só tratou de ampliar. Diga-se, desde logo, que não se trata de um problema específico dos americanos. Na maior parte do mundo, a memória dos terríveis atos do nazismo, quando é preservada, escora-se em clichês hollywoodianos, que pouco têm a ver com a realidade, enquanto o pacato Otto Normalverbraucher, que foi guarda da SS ou capataz de campo de concentração, é de carne e osso, toma chá na varanda de sua casa - e até recebe aposentadoria do Estado americano. 

Esse caso levantado pela Associated Press, na mesma medida esdrúxulo e revelador, é indicativo da permanência do colapso moral que tem no nazismo cinematográfico um conveniente diversionismo. Hitler e seus acólitos são sempre lembrados para que os que colaboraram, os que apoiaram, os que assistiram passivamente e os que se omitiram diante das atrocidades sejam esquecidos. A velhice tranquila dos pequenos carrascos da humanidade é o sinal mais evidente, mas infelizmente não o único, do confortável cinismo da sociedade de massa, que aceita sua própria descartabilidade - antecipada pelo nazismo - como um fato da vida. “Sei que casos como o meu, excepcionais e assombrosos agora, serão, muito em breve, triviais”, diz Otto Dietrich zur Linde, o criminoso de guerra nazista que Jorge Luis Borges criou para o conto Deutsches Requiem. E ele completa, premonitório: “Morrerei amanhã, mas sou o símbolo das gerações do futuro”.

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Marcos Guterman é jornalista, editorialista do 'Estado' e doutor em História pela USP

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