Chega ao Brasil uma nova edição dos poemas de Herberto Helder

Chega ao Brasil uma nova edição dos poemas de Herberto Helder

Poeta português nascido na Ilha da Madeira tem versos publicados pela Tinta da China

Wilson Alves-Bezerra*, Especial para o Estado

09 Junho 2018 | 16h00

O que Zenão, Ha Yun, Kierkegaard, Browning, Lord Dunsany e León Bloy têm em comum? – pergunta-se o argentino Jorge Luis Borges, num artigo chamado Kafka e Seus Precursores (1951). Embora todos eles sejam tão distantes no tempo e nas temáticas, trazem em comum, diz Borges, o fato de serem kafkianos: seja nalguma forma, argumento, pensamento ou tom. A ideia perturbadora do texto borgiano é que sem Kafka eles não seriam aproximáveis. Diz Borges: “Cada escritor cria seus precursores. Seu trabalho modifica nossa concepção do passado, como há de modificar do futuro.”

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Entre nós, brasileiros, Haroldo de Campos, numa saborosa polêmica com Antonio Candido – O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira (1989) – defendeu a noção de tradição constelar da literatura, que fugisse aos determinismos histórico-sociológico, de uma história evolutivo-linear-integrativa. Tal argumento, no livro, recaía sobre a ausência de Gregório de Matos na reflexão de Candido mas, na obra poética de Campos, servia para explicar a introdução no Brasil e em sua obra de poetas diversos como Mallarmé, James Joyce, E.E. Cummings e Ezra Pound – pilares de seu projeto concretista.

O que está em jogo no que se diz acima é o modo como cada poeta lida com a tradição e com as leituras que o tornam o poeta que é. Pois é a importância dos precursores o que vem nos mostrar a celebrável edição brasileira que a Tinta da China acaba de publicar de O Bebedor Nocturno (1968), do poeta da Ilha da Madeira, Herberto Helder (1930-2015). Nela, o leitor vai descobrir o quanto podem soar a Herberto Helder antigos poemas egípcios, salmos bíblicos, o Cântico dos Cânticos, poemas astecas, japoneses e um longo etcétera. Para que tal processo de identificação ocorra, estão as afinidades do próprio Helder – aqueles poemas nos quais ele descobriu sua própria voz mas, ao mesmo tempo, também um poderoso exercício de estilo, que é sua prática tradutória de fazê-los soar tal como desejaria, como se fossem seus. Um corpo a corpo entre o que é próprio e o que se herda da tradição. 

Herberto Helder, ao traduzir, aproxima os originais a seu universo poético. Assim, o Salmo 42, que na tradução brasileira de Ivo Storniolo, na Bíblia de Jerusalém era “Minha alma tem sede de Deus / do deus vivo // (...) Grita um abismo a outro abismo / com o fragor das tuas cascatas” torna-se pela pluma de Helder: “Quando verei aquele de quem tenho tanta sede? // O abismo tem sede de abismo: tuas chuvas turbilhonantes / caem sempre sobre mim, no fragor das cascatas”. Na versão de Helder, Deus não é nomeado, e instaura-se a sede, em meio ao imenso universo líquido e abissal. Do salmo bíblico fez-se uma imagem poética tipicamente helderiana por obra e graça de sua tradução interessada.

Noutros casos, como no poema A Lua, do árabe Ben Burd El Nieto, parecemos estar diante de um poema a quem o madeirense parece indicar como parte de seu cânone, como o erotismo noturno e lunar que aqui lemos: “A lua é um espelho empanado pelo hálito das raparigas // E a noite veste-se com o seu brilho como a negra tinta com o papel branco”. Outra vez se nota como a exuberância da imagem do poema aproxima-se ao universo lírico do poeta-tradutor.

Maria Lúcia Dal Farra, pesquisadora de Helder, já observou em seu A Alquimia da Linguagem (1986), como a construção da proposta do Bebedor Nocturno estava já encenada, de outra forma, no conto Poeta Obscuro, de um livro anterior: Os Passos em Volta (1963). No conto, o protagonista, diante da frase “Meu Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro”, passa a perguntar-se se foi ele mesmo ou outro quem cunhou a sentença. Sem poder decidir-se, escreve-a na parede do quarto. Numa noite de desvario, imagina também o início de um poema asteca – “Ó bebedor nocturno, porque não envergas as vestes cerimoniais?” e observa a gravura de um peixe japonês. Do frenesi das imagens, o poeta obscuro põe-se a pensar em seu orgulho, em sua inocência de seguir sendo obscuro. Aquela cena no quarto como que encena o modo de estar do poeta ante a tradição.

Assim é que, forçando os limites da poesia alheia e aproximando-a dos próprios anseios líricos, o jovem poeta que então é Helder vai também forjando os materiais para sua escrita futura. Não cabem, é certo, discussões em torno à fidelidade, pois inclusive aqui não há originais em jogo: Helder não conhecia as línguas de que traduzia – árabe, náuatle, japonês, grego. Tal como o poeta que seu personagem queria ser, eram-lhe também essas línguas obscuras. Sem cerimônia ou reverência, apropriou-se delas a partir já de traduções.

O resultado é paradoxal: a poesia de tradições ancestrais, com temas atávicos – a natureza, o amor, a morte, o sexo – com a dicção do poeta madeirense que se queria obscuro. Entre a noturna embriaguez da poesia autoral de Helder e a suposta clareza da poesia ancestral, fica o leitor atônito, a meio caminho, gozosamente deslumbrado.

*Wilson Alves-Bezerra é professor de pós-graduação em estudos de literatura da UFSC 

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