China, a incógnita a contornar

Pequim vê o Brasil como 'irmão mais novo', mas não como líder natural na América Latina

Ivan Marsiglia, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2009 | 22h35

Ao final da tão aguardada visita de Estado brasileira a Pequim, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o chanceler Celso Amorim não puderam evitar um certo sorriso amarelo. Embora o acordo de venda de 150 mil barris diários de óleo pela Petrobrás e a derrubada de barreiras comerciais ao frango brasileiro, anunciadas anteriormente, tenham se confirmado, nenhum negócio da China foi fechado. Pelo contrário, a comitiva presidencial não conseguiu reverter o cancelamento da compra de 45 aviões da Embraer pelos chineses, nem o veto às carnes bovina e suína. Um desfecho melancólico no tête-à-tête com nosso principal parceiro - desbancando recentemente os Estados Unidos -, com um volume de comércio na ordem de US$ 36,4 bilhões só no ano passado.

Nada de se estranhar, porém, na opinião do professor de história e ciência política da Universidade Harvard, autor do clássico Mao's Last Revolution, o britânico Roderick MacFarquhar. Aos 78 anos, um dos maiores especialistas no mundo que fica debaixo dos nossos pés, afirma que os chineses são mesmos duros na queda e, historicamente, "nunca desejaram interagir com ninguém".

Nos principais pontos da conversa que teve pelo telefone com o Aliás, de seu escritório em Boston, MacFarquhar desfaz o mito da solidez das instituições políticas chinesas, afirma que Pequim aufere vantagens de sua situação ambígua de potência mundial e país emergente e diz que a China enxerga o Brasil como um "irmão mais novo", de recursos impressionantes, "mas nem tanto, comparados aos parâmetros chineses".

PATO EM PEQUIM?

"É preciso levar em conta um dos princípios básicos da diplomacia entre dois países: ainda que cultivem bom relacionamento, no final das contas cada um fará o que for melhor para si próprio. É claro que por trás da decisão chinesa de desistir da compra dos aviões da Embraer podem estar problemas decorrentes da crise financeira global, mas suspeito também que esse seja um mercado em que a China quer entrar. Eles sabem que boa parte dos recursos e bens que compram do Brasil podem ser obtidos em outra parte. Se a Petrobrás não vender petróleo, os chineses podem comprá-lo de outro país. Sinto que a China quer ter o Brasil como nação amiga, por sua posição de destaque na América Latina, mas não o enxerga como líder natural da região. Fazê-lo significaria correr o risco de irritar argentinos, chilenos ou venezuelanos. E, se querem construir uma relação amigável com o País, não serão forçados pelo charme do presidente Lula a fazer nada que não queiram. Eles enxergam o Brasil como uma espécie de irmão mais novo: um grande país em desenvolvimento, com recursos impressionantes, mas nem tanto, comparados aos parâmetros chineses.

POTÊNCIA OU EMERGENTE?

"É uma ambiguidade conveniente para a China. Como um grande player global, o país pode negociar de igual para igual com a Europa, os EUA, a Rússia ou o Japão. Ao mesmo tempo, se quer obter um benefício econômico em um acordo com os americanos, pode se apresentar como país emergente, com o G-20 a seu lado. Tenho certeza de que o presidente Lula, que é um político sagaz, já percebeu isso. Diferentemente dos indianos, os chineses nunca desejaram interagir com ninguém. Historicamente, não têm o hábito de tomar parte em grandes alianças. Eles acreditam que são únicos e devem manter total controle sobre seu destino.

O REAL E O YUAN

"Durante a visita, os presidentes brasileiro e chinês discutiram a ideia de introduzir uma moeda alternativa ao dólar em suas trocas comerciais. Eu não acho que vá funcionar. O real não é uma moeda internacional. Acredito que os chineses possam até fazer uma pequena concessão e negociar, digamos, US$ 50 milhões ao ano em troca direta. Mas não se esqueça: eles têm muito a perder com a desvalorização ou redução do uso do dólar no mundo. A China comprou bilhões em títulos do tesouro americano. E acumulou, com esse dinheiro, um enorme problema: se negociar seus dólares no mercado aberto vai derrubar o preço e o valor final pode acabar sendo nada. A China também necessita do mercado americano, que ainda é o mais aberto a seus produtos. É, realmente, uma relação simbiótica.

IMPÉRIO SINO-AMERICANO

"O primeiro a especular sobre essa ideia foi o escritor de ficção científica britânico Olaf Stapeldon, que publicou em 1930 um livro chamado Last and First Men, prevendo que, em algum momento, haveria uma dominação sino-americana sobre o mundo. Eu não acredito nisso. A ideia subestima o poderio econômico do Primeiro Mundo, das potências europeias, do Japão e até - espero - de economias emergentes como Índia e Brasil. A China gosta de se imaginar como um grande império, mas no fundo prefere um mundo multipolar, onde possa buscar parceiros econômicos. Num contexto de bipolaridade, teria que disputá-los como os EUA. Se é verdade que os chineses não desejam ver Brasil, Índia, Japão e Alemanha como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, porque isso diminuiria seu status na instituição, por outro lado não desejam que o mundo multipolar desapareça, porque isso contrariaria seus interesses. Em minha opinião, os EUA continuarão por muito tempo a ser o poder dominante no mundo.

FRAGILIDADE INSTITUCIONAL

"Ao contrário do que se pensa, a China tem hoje um sistema político frágil. Não possui mais a solidez de 60 anos atrás e enfrenta fatores desestabilizadores - econômicos, de nível de renda e ecológicos. Imagine um governo central ter que lidar com problemas de uma população de 1,3 bilhão de pessoas. Está muito além da capacidade de qualquer governo. E a China não possui instituições como as que os EUA construíram. Se na América há mecanismos de correção institucional, de pressão civil sobre os parlamentares e a administração federal, os chineses nem sequer contam com uma opinião pública digna desse nome. Por isso, o país voa às cegas na solução dos vários problemas que afligem seus cidadãos.

O PROCESSO DECISÓRIO

"Se uma ditadura tem a possibilidade de tomar decisões mais rápidas em relação à democracia, elas muitas vezes levam ao desastre. A Revolução Cultural foi um exemplo. O que se deseja no processo decisório não é apenas celeridade, mas que ele dê respostas adequadas às situações que se colocam. Na América, muita gente lamenta o enorme tempo consumido nas tomadas de decisão e nos procedimentos governamentais. Mas, no final das contas, mesmo que os resultados não sejam exatamente os esperados, cada grupo na sociedade pode se sentir ouvido e representado - nem que seja na forma de uma divergência publicada num artigo de jornal. E, na China, quando o governo toma uma decisão errada as pessoas têm que simplesmente se conformar com ela. Não há a quem culpar ou recorrer.

O TRIÂNGULO DE MAO

"As instituições sobre as quais o atual sistema político chinês se fundou foram estabelecidas em 1949, sob a liderança de Mao Tsé-tung, em um formato que eu definiria como triangular. No topo, em uma das pontas desse triângulo estava o Partido Comunista, impondo sua vontade a todos; no outro, a base ideológica do regime, o marxismo que justifica o que é feito e serve de cola para manter a sociedade unida; na outra ponta, a força militar, pronta para agir em caso de emergência. A Revolução Cultural de Mao impôs um racha no Partido Comunista e um trauma à sociedade chinesa. Hoje, o partido tem 74 milhões de membros, mas não mais a credibilidade, a legitimidade e a autoridade que possuía antes.

IDEIAS PELA JANELA

"A ideologia marxista, que encontrou seu ápice durante a Revolução Cultural, quando se acreditava que ela seria capaz de resolver qualquer problema, foi jogada pela janela por Deng Xiaoping. Se uma parte do ideário ficou depois das reformas, ninguém hoje consulta os livros de Marx, Lenin e Mao para solucionar os dilemas da China moderna. Então, a sociedade perdeu também a "cola" que mantinha o sistema unido e dava às pessoas uma direção. Hoje, o Partido Comunista manda porque permitiu o progresso econômico, que não foi construído por ele, mas pelo povo da China que o governo liberou para fazer dinheiro. O sistema é frágil, não tem um líder com a legitimidade dos anteriores, o partido está desacreditado e a ideologia desapareceu. É por isso que em 1989 (durante os protestos estudantis na Praça da Paz Celestial, duramente reprimidos pelos tanques chineses) eles não conseguiram resolver um problema político por meios políticos: fizeram uso da força militar.

LONGE DA DEMOCRACIA

"O crescente envolvimento da China com o resto do mundo não trará consigo as instituições democráticas de que o país precisa. É claro que parte da burocracia chinesa está preocupada em obter o respeito da comunidade internacional para facilitar seus negócios e sua inserção no mundo. Mas o partido não quer abrir mão de poder. E, se você olhar para trás na história recente da China, no século passado as mudanças sempre vieram de eventos traumáticos. Foi assim no colapso do império chinês, em 1911-1912, resultado da derrota na guerra contra o Japão. E na grande mudança na direção de uma economia centralizada, durante a Revolução Cultural do período maoísta. Acho que uma eventual passagem da China para a democracia não se dará sem um acontecimento desse tipo. O que será muito triste, pois o povo chinês já viveu eventos traumáticos demais em sua história recente.

O ENIGMA DA SUCESSÃO

"Hu Jintao e seus aliados ficam no poder até 2012. E embora a China já tenha escolhido seu potencial sucessor, Xi Jinping, ele não é, ao que parece, o favorito de Hu. Um dos problemas político-institucionais da China hoje é o fato de o país não possuir um procedimento sucessório claro. Ele é feito a partir de um sistema de consultas a portas fechadas, semelhante ao que foi abandonado pelo Partido Conservador da Inglaterra há mais de 50 anos. É bastante primitivo. Por outro lado, acho que os líderes chineses estão atentos ao risco por causa do péssimo exemplo que tiveram no colapso da ex-União Soviética. Se os atuais líderes cometem erros - e eles são muitos - não se pode negar que tenham bons conhecimentos de economia e tecnologia.

OLHOS BEM ABERTOS

"Não sei quantos especialistas em China existem hoje no Brasil. Quando visitei o país, em 1975, não parecia haver muitos. É preciso que os brasileiros passem a estudar mais a política chinesa e formar quadros diplomáticos especializados na região. Só assim será possível entender o comportamento da China nas mesas de negociação. André Malraux (escritor, pensador e ativista francês), em um encontro com o presidente Nixon pouco antes de sua visita à China, disse: ?Lembre-se de que para a China existe apenas a China?. Os chineses estão no meio de um grande processo de desenvolvimento e emergindo de uma enorme crise interna que foi a Revolução Cultural. Querem atingir um status internacional em que todos os respeitem. Para isso, irão exercer o que chamamos de soft power. Mas serão inflexíveis na defesa de seus reais interesses. Isso não é propriamente incomum - mas a China sabe fazer esse tipo de política como ninguém."

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