AUGUSTO MALTA
AUGUSTO MALTA

Chrysanthème: a autora que questionou a desigualdade de gênero no início do século 20

Pseudônimo de Maria Cecília Bandeira de Melo Vasconcelos, escritora é redescoberta com a reedição de 'Enervadas'

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

18 de maio de 2019 | 16h00

Chrysanthème, nom de plume da carioca Maria Cecília Bandeira de Melo Vasconcelos (1870-1948), volta, depois de anos de ostracismo, às prateleiras das livrarias (cada vez mais virtuais) do Brasil com Enervadas (Carambaia), romance publicado pela primeira vez em 1922 e só agora reeditado. Maria Cecília foi uma escritora prolífica e teve uma vida intelectual ativa. Escreveu romances, narrativas para crianças e textos para jornais e revistas, impulsionada por sua mãe, a também escritora Carmen Dolores, pseudônimo de Emília Moncorvo Bandeira de Melo. 

Beatriz Resende, que assina o posfácio dessa nova edição de Enervadas, lembra que, embora a escritora tenha sido muito lida em seu tempo, foi vítima da censura, de uma forte oposição crítica e do “silêncio” imposto pelo cânone literário. Seu romance O Que os Outros Não Veem (1929) teria recebido, lê-se no posfácio, o seguinte comentário de Humberto de Campos: o livro “foi escrito, evidentemente, mais para efeito moral que literário. Teria conseguido seu objetivo acendendo nas mulheres o ódio ao homem? Eu não creio.” Interessante pensar que Campos, além de desmerecer o livro, responde em nome das mulheres, acreditando que nada tenha mudado para elas após a leitura do ousado texto da escritora. 

A literatura de Chrysanthème era de fato provocativa, e, segundo a pesquisadora Rosa Gens, causava “choque” e “escândalo” ao dar voz às mulheres e combater o discurso patriarcal, como fica evidente nos títulos de alguns de seus livros: Gritos Femininos, Vícios Modernos, O Que os Outros Não Veem, Matar!.

Enervadas engrossaria essa lista de livros que tratam de temas considerados tabus no início do século 20, como o divórcio, a homossexualidade etc. Todos esses temas são tratados, contudo, com muito humor, o que, de certa forma, seria mais uma irreverência da escritora. Segundo Virginia Woolf, o humor foi negado às mulheres, pois talvez seja visto como algo que lance luz sobre o outro, sobre o que ele realmente é, e “lembra-nos sempre que somos apenas humanos, que não há homem que seja um herói completo ou inteiramente um vilão”. No início do século 20, no Brasil, os homens podiam ter um pensamento crítico, mas as mulheres aparentemente não, sobretudo quando se propunham a falar sobre homens.

O humor debochado é a grande arma da escritora, até mesmo ao escolher seu pseudônimo, cuja origem é o título de um livro do escritor francês Pierre Loti (1850-1923), Madame Chrysanthème (1887), no qual “a protagonista chega a tornar-se um mero bibelô, uma imagem como que pintada em porcelana, sob o peso do aparato descritivo”, como destaca Rosa Gens. Chrysanthème, enquanto escritora, é a antítese da personagem de Loti; ademais, com sua pena ferina, desenha mulheres fora dos padrões sociais da época. 

Lê-se em Enervadas: “Eu possuo umas parentas velhas que me julgam uma criatura abandonada por Deus e condenada às fogueiras infernais. Quando me encontram na rua, sobretudo depois do meu divórcio com o Júlio...” Em vez de se entristecer com o desdém das senhoras, a protagonista ri das anciãs que, com seus olhares invejosos, suas pregas de gordura amarelas e visão estreita de virtude, não aproveitam a vida. 

A heroína é cercada de mulheres não menos ousadas do que ela para a época: uma de suas amigas faz uso de drogas, outra seduz garotas e aos poucos ganha um visual masculino, uma terceira, depois do divórcio, vive inúmeras relações amorosas. A exceção é uma amiga cheia de filhos e “bem” casada, mas, de todas, a menos interessante. Essas diferentes personalidades não são destacadas à toa pela escritora, serviriam para enfatizar que não há um padrão de mulher, que elas podem ser muitas e não apenas a que os homens (e as próprias mulheres) esperam delas. 

Diz a heroína de Enervadas: “Eu possuía nessa época duas amigas íntimas e tão diversas de caráter e de físico que não pareciam pertencer ao mesmo sexo”. Em tempos de moças belas, educadas e do lar, o livro de Chrysanthème se mostra mais atual do que nunca. Aliás, quando ainda se indaga às mulheres a razão pela qual não tiveram filhos, fica uma reflexão da protagonista: “Uma dúzia de filhos, que horror! E mirando o meu ventre perfeito, jurei-lhe que ele o seria sempre”. 

A rebeldia da personagem é vista como uma patologia e faz dela portadora de uma doença dos nervos, conforme diagnóstico médico. Assim, ela seria uma “enervada”. Tal diagnóstico parece seguir a cartilha de tratados de medicina publicados na França no século 18, que falavam do sistema moral e físico débil das mulheres, as quais poderiam se abater por pouca coisa e se enervarem. 

A grande característica da protagonista de Enervadas é, contudo, não se importar com os comentários alheios, com coisa alguma, muito menos com o seu diagnóstico. Nessa narrativa bem construída, em algum momento chegamos a pensar que essa personagem finalmente cederá às pressões sociais, mas ela as rebate, para nosso alívio, com um derradeiro: “Je m’en fiche!” [Não me importo!].

É AUTORA, ENTRE OUTROS, DE ‘CENAS DO TEATRO 

MODERNO E CONTEMPORÂNEO’ 

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