April Gornik
April Gornik

Ciência pesquisa o que nos faz gostar de algumas obras de arte

Estudiosos de diversas universidades e áreas se dedicam a entender a recepção da arte

Tom Mashberg, The New York Times

14 Julho 2018 | 16h00

Se você um dia se perguntou se o título de uma obra de arte abstrata – por exemplo, Blue n.º 2 – influencia sua maneira de sentir, ficará fascinado com um novo estudo da Universidade de Pittsburgh. Pesquisadores da universidade concluíram que as pessoas preferem obras com títulos diretos como Linhas Curvas ou Pontos de Cor àqueles figurativos como Dançando no Gelo ou Sabotagem.

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Outro estudo divulgado no mês passado por psicólogos do Boston College conclui que uma forte razão pela qual as pessoas preferem o trabalho de um artista em vez de uma cópia idêntica é sua crença de que algo da essência do artista permanece na obra original. “Os filósofos têm se debatido com questões envolvendo as artes há séculos, e pessoas leigas também refletem a respeito”, disse Ellen Winner, professora do Boston College que conduziu o estudo. “Agora os psicólogos começam a explorar as mesmas questões e têm feito descobertas fascinantes.”

Os mistérios da resposta estética e o impulso criativo se tornaram uma área florescente de investigação por parte de pesquisadores. Eles esperam que dados mensuráveis e análise estatística ajudem a explicar tópicos que alguns consideram inefáveis – como por que pintamos ou cantamos ou naturalmente preferimos os girassóis de Van Gogh aos quadros de paisagens que encontramos nos quartos de hotéis baratos. Vários laboratórios de pesquisa vêm estudando estética – examinando não apenas as artes visuais, mas outras áreas como música, literatura e teatro – e produzindo documentos científicos em disciplinas que incluem antropologia, neurociência e biologia. Mas, em sua essência, grande parte da pesquisa no campo da “estética experimental” se resume a esforços para resolver dois antigos enigmas: o que é arte e porque gostamos daquilo que gostamos.

“É uma área empolgante porque começamos a entender como usar os melhores instrumentos de ciência para medir coisas que não pensávamos que fossem passíveis de medição”, diz Thalia Goldstein, editora da revista trimestral Psychology of Aesthetics, Creativity and the Arts, da Associação Americana de Psicologia. Há anos a revista tem publicado artigos com títulos esotéricos como Um Estudo Empírico Sobre a Natureza Curadora das Mandalas, ou Os Efeitos da Carga Cognitiva Sobre Julgamentos de Arte Visual com Título.

Em junho, pesquisadores da Universidade de Londres trataram do enigma da arte feita por máquinas em um estudo chamado Colocando a Arte no Artificial: Respostas Estéticas à Arte Gerada por Computador. Eles concluíram que, embora as pessoas tenham por hábito desprezar pinturas que sabem terem sido produzidas artificialmente, elas têm um ponto franco por obras quando trabalhadas por um robô com um braço. Os pesquisadores concluíram que incluindo um robô parecido com um humano no processo de produção de arte, “isto pode de fato se tornar a última fronteira para a aceitação de obras criadas pela inteligência artificial”. Embora alguns estudos tenham nascido da curiosidade acadêmica, outros têm por fim descobrir aplicações educacionais e médicas baseadas em como a arte afeta o corpo e o cérebro.

O National Endowment for the Arts (NEA) está ajudando a financiar pesquisas sobre os potenciais benefícios terapêuticos da arte “no tratamento de doenças ou distúrbios, ou para melhora de sintomas de uma doença, distúrbio ou problemas de saúde crônicos”. O NEA também está trabalhando com o Departamento da Defesa num estudo para determinar se o fato de uso pelos membros do departamento de máscaras de gesso branco ajudaria no diagnóstico e tratamento do estresse pós-traumático. Conclusões preliminares sugerem que as máscaras oferecem pistas para o estado psicológico dos membros ou veteranos do serviço relutantes em informar sintomas por causa de um estigma social.

Outro estudo feito pela Drexel University na Filadélfia dá esperanças de que a arteterapia pode ter benefícios fisiológicos. Pesquisadores determinaram que 45 minutos gastos em projetos de arte “resultaram numa redução importante dos níveis de cortisol”, conhecido como hormônio do estresse, medido em amostras de saliva antes e depois da experiência pelos participantes.

A organização cujos membros deram início a este pesquisa, a Society for Psychology of Aesthetics, Creativity and the Arts, é uma unidade da Associação Americana de Psicologia criada em 1945, com um número de membros que tem aumentando no decorrer dos anos e hoje é de cerca de 500.

Uma segunda organização que promove pesquisa similar, a International Association of Empirical Aesthetics, inclui não só psicólogos, mas filósofos, sociólogos e neurocientistas. Cada grupo publica uma revista de pesquisa e ambos realizarão convenções em agosto.

A equipe de Ellie Winner no Boston College publicou estudo denominado Crenças Essencialistas nos Julgamentos Estéticos de Obras de Arte Duplicadas na revista da sociedade em junho. A pesquisa teve por fim explorar porque as pessoas desvalorizam obras que foram antes reverenciadas ao descobrirem que, na verdade, não foram criadas pelo artista. O estudo, conduzido por Winner e dois colegas, se centralizou num experimento que mostrava imagens idênticas da mesma obra de arte, apresentadas lado a lado. Os participantes foram informados de que as obras tinham o mesmo valor de mercado para eliminar preocupações de que a questão do dinheiro afetasse os julgamentos estéticos. Foram informados também que as duas imagens tinham sido aprovadas pelo artista. Em seguida foi lhes dito que a imagem da esquerda tinha sido produzida pelo artista e a da direita por um assistente dele.

Eles preferiram a imagem produzida pelo artista, apesar de as duas serem idênticas em todos os aspectos. Conclusão: “embora possamos não gostar de falsificações devido à sua imoralidade e por não ter valor de mercado, também preferimos os originais por outra razão: gostamos de olhar trabalhos que sabemos que foram feitos pelo artista porque sentimos que estamos comungando com a mente, a alma, o coração e a essência do artista.”

Naturalmente esta ideia de colocar a arte num tubo de ensaio depara com pessoas céticas. Num artigo de 2017 no Journal of Consciousness Studies, Alexis D.J. Makin, psicólogo da universidade de Liverpool, Inglaterra, colocou dúvidas quanto à eficácia desses experimentos.

“É virtualmente impossível evocar emoções intensas como o arrebatamento estético num laboratório em experimentos repetidos com estímulos bem controlados porque a emoção estética é demasiadamente fugaz e idiossincrática”. Winner, cujo livro How Art Works: a Psychological Exploration será publicado ainda este ano, disse que já ouviu essa crítica antes. “Se a psicologia é o estudo do comportamento humano, como podemos deixar de fora algo tão fundamentalmente humano como as artes?”, perguntou ela. / Tradução de Terezinha Martino 

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