Pyramide Films
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Cineasta ucraniano Sergei Loznitsa combate propaganda russa em seus filmes

Diretor lança 'Donbass', em que mostra como a Rússia fabricou mentiras contra a Ucrânia

Redação, The Economist

03 de agosto de 2019 | 16h00

Na cena inicial do mais recente filme de Sergei Loznitsa, Donbass, um grupo de figurantes está reunido em um trailer de maquiagem. A câmera os acompanha quando são escoltados para o local onde será filmado um ataque de morteiros em um território controlado pela Rússia. Ali, beneficiando a equipe de jornalistas separatistas, eles se queixam das depredações por parte do Exército ucraniano, No filme, a explosão é uma representação, mas o dano é autêntico – muito semelhante ao conflito na vida real.

Com sua espiral vertiginosa de simulações, a cena inventada, mas plausível, capta a essência do massacre da Rússia contra a Ucrânia. Depois da revolução de 2013-2014, as emissoras de TV controladas pelo Kremlin despejaram mentiras venenosas contra Donbass, região ucraniana falante de russo; em seguida, militantes e unidades do Exército chegaram para “defender” a região contra os fascistas ucranianos. Como um espelho, o filme de Loznitsa reflete e inverte esse processo, usando a ficção para expor as feridas infligidas pela aniquilação da verdade. Donbass foi proibido na Rússia, o que não causa surpresa.

A fronteira entre realidade e mentira, ficção e história, é uma das mais disputadas do mundo. Ela atravessa as terras áridas e deformadas pela propaganda do leste ucraniano e a poderosa obra de Loznitsa. E seu objetivo é o oposto daquele dos propagandistas: apresentar a verdade essencial do que ocorreu e – uma tarefa ainda mais difícil – diligentemente deixar claro o que não sucedeu, também.

Com frequência seus filmes carecem de narrativas lineares. E até de protagonistas. Ele não está interessado em heróis, mas no público; na praça, não nos políticos no palanque. Em seus documentários, sua câmera impessoal não averigua vidas interiores, mas simplesmente registra: o espaço, os movimentos, os diversos sons (trechos de músicas pop e folclóricas, hinos, sinos tocando), o fluxo do tempo e da história. Não há narração ou catarse. Em vez disto, ele deixa que o absurdo e a tragédia da vida falem por si mesmos. “Ele não é um caçador”, diz Mikhail Iampolski, crítico e historiador de cultura russa na Universidade de Nova York. “Ele é uma armadilha, esperando pacientemente por qualquer coisa que consiga capturar”.

Para Loznitsa a câmera é mais do que uma peça do equipamento – é uma maneira de enxergar. “Quando olhamos à nossa frente, existem coisas que não vemos”, mas que se tornam visíveis depois, diz ele. O resultado pode ser “alguma coisa que eu jamais teria imaginado, muito menos inventado”. Ele cita um aforismo de Alfred Hitchcock: “Em um longa-metragem o diretor é Deus. Em documentários, Deus é o diretor”. 

Hoje com 52 anos, Loznitsa nasceu na Bielorússia soviética e cresceu na Ucrânia. Aprendeu sua profissão na Rússia e agora vive na Alemanha. Como muitos outros, sua vida foi moldada pelo colapso da União Soviética, e o império russo antes dela; sua obra relata a desintegração moral e política que acompanhou esse colapso, incluindo o golpe fracassado de 1991 que precedeu o a queda do regime soviético (O Evento, de 2015) e a revolução da Ucrânia (Maidan, 2014). O mundo hoje, diz ele, “não oferece nenhuma terra firme sob seus pés”. Do mesmo modo que fato e ficção sangram juntos, parece que “não existe nada bom ou mau”.

Este dilema moral é captado em uma cena em Donbass em que facínoras amarram um soldado ucraniano num poste telegráfico e incitam a multidão a linchá-lo. “Desejei mostrar o mecanismo para levar as pessoas a um estado de êxtase”, diz ele. A cena reconstrói um vídeo real postado no YouTube e é mais eficaz para a ausência de voz narrando o fato. Ele nunca filma um evento diretamente, afirma Loznitsa; isto não só o tornaria “um cúmplice”, mas a presença de uma câmera “atrai o público e o leva a participar”.

Com frequência ele transmite a sensação de que está contando uma história entre muitas. Em um trecho do filme, por exemplo, um empresário que a milícia está extorquindo é transferido para uma sala de detenção onde ele encontra uma legião de outros detidos pedindo ajuda usando seus telefones. A sequência, como em muitos filmes de Loznitsa, é ao mesmo tempo realista e mítica.

A relação entre público e espetáculo e o uso de cenas de noticiários para validar as mentiras estão no centro de The Trial (O Julgamento, em tradução livre, que ele produziu depois de Donbass. Um é um filme de longa metragem o outro é construído inteiramente com base em material de arquivo, mas os dois filmes são gêmeos em termos das preocupações que suscitam. The Trial reconstrói um julgamento realizado em Moscou em 1930.

Um grupo de engenheiros e economistas soviéticos é acusado de formar o Partido Industrial, que em conluio com a França supostamente teria armado um complô contra o governo bolchevique.

Na realidade, como os fascistas ucranianos, o Partido Industrial nunca existiu; o caso inteiro foi fabricado. O julgamento foi realizado não em um tribunal, mas na House of Unions, o grande salão usado para cerimônias estatais, iluminado para as câmeras e com um público de mil pessoas. The Trial alterna passagens do filme de propaganda resultante com cenas de multidões pedindo a morte dos culpados. Neste caso, “Stalin era o verdadeiro diretor do show; eu apenas ajudei a transformá-lo em um filme”, diz Loznitsa.

Surpreendentemente, nenhum dos acusados – os principais atores no drama – protestou ou tentou limpar seu nome; pelo contrário, eles amavelmente declararam estar implicados em crimes fantásticos. Alguns foram recompensados por seu desempenho convincente. Leonid Ramzin, professor de engenharia, foi apresentado como líder da conspiração imaginária, mas sua sentença de morte foi convertida em dez anos de prisão. Ele foi anistiado em 1936 e depois contemplado com muitos prêmios. Por outro lado, o promotor Nikolai Krylenko foi preso em 2017 durante o período do Grande Terror. Ele confessou falsamente, também, e foi executado logo depois. E então a era de coproduções com prisioneiros de Stalin acabou.

A Rússia e a Ucrânia separatista não são a União Soviética, mas a justiça ainda é um teatro e os fatos são corrompidos pelos interesses. Iampolski afirma que neste clima niilista o ato de usar a escrita ou a tela para dizer coisas se tornou a principal forma de legitimidade. Neste aspecto a propaganda, incluindo a demonização da Ucrânia pela Rússia, faz com que o falso se torne verdadeiro. Mas mesmo (e especialmente) hoje, cineastas escrupulosos expõem as mentiras em vez de difundi-las.

No final de Donbass, os figurantes se preparam para nova cena. Um soldado entra no trailer e friamente mata todos eles a tiros. Uma equipe de TV chega para reportar essa atrocidade construída, mas real. A câmera de Loznitsa, sem emoção, vigia a cena do alto. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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