Divulação
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Cinema ficou fora da Semana de Arte Moderna de 1922

Apenas a revista Klaxon, referência da época, trouxe o tema

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

08 de janeiro de 2022 | 16h00

Dos centenários graúdos que este ano batem à nossa porta, o primeiro, cronologicamente falando, foi um terremoto de 5.1 na escala Richter, que em 27 de janeiro de 1922 atingiu a cidade de Mogi-Guaçu, no estado de São Paulo. O segundo, 15 dias depois, foi a Semana de Arte Moderna, na capital paulista, cuja repercussão até hoje reaviva polêmicas paroquiais e enfadonhas, em que não me arriscarei, até por falta de espaço. 

Um aspecto dela, contudo, continua a me interessar: a ausência do cinema em suas manifestações. Embora seus participantes de proa cultuassem o que qualificavam de “arte do século” e lhe fizessem referência já no primeiro número de Klaxon, a revista oficial do movimento, a Semana teve como palco um teatro, o Municipal da Pauliceia, e não incluiu um filme em sua programação. Basicamente por falta de ofertas nacionais. 

O poeta Menotti Del Picchia, prócer da Semana, só quatro anos depois escreveria seu primeiro roteiro cinematográfico, e nenhum dos que vingaram na tela era modernista, nem sequer moderno. Os primeiros filmes brasileiros sintonizados com algum tipo de vanguarda—São Paulo, A Sinfonia da Metrópole, de Adalberto Kemeny e Rodolfo Lustig, e Limite, de Mário Peixoto—seriam rodados em 1929 e 1930, respectivamente. Suspeita-se que o primeiro filme modernista rodado no Brasil teria sido 100% Brasileiro, que o poeta francês Blaise Cendrars, apadrinhado por Paulo Prado, tentou em vão fazer em 1924. 

A falta de intimidade de nossos cinéfilos com o melhor da teoria cinematográfica da época (Ricciotto Canudo, Louis Delluc, Leon Moussinac) limitou bastante entre nós as discussões sobre a estética do filme. O Chaplin Club, nosso primeiro cineclube, ponto de encontro dos mais antenados intelectuais cariocas, surgiria apenas no final da década. 

Ademais, o filme brasileiro de maior repercussão na temporada, Do Rio a São Paulo Para Casar, de José Medina, era uma comédia sem maiores ambições artísticas, de resto, comentada superficialmente por Mário de Andrade, oculto por pseudônimo, no segundo número de Klaxon, que em apenas uma de suas nove edições deixou de falar de cinema. 

Chaplin era o deus da confraria. O Garoto mereceu mais de um elogio na revista. Oswald de Andrade, fã de Eisenstein e dos seriados de Pearl White, chegou a gabar-se de ter-se apropriado de técnicas narrativas cinematográficas antes de Aldous Huxley, no romance Os Condenados. Ainda mais influenciados pelo cinema resultaram Memórias Sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande. E, certamente, mais ainda, Os Caminhos de Hollywood, quarto volume do cíclico Marco Zero, que não chegou a escrever

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