Jaap Buitendijk/20th Century Fox
Jaap Buitendijk/20th Century Fox

Cinema retoma Guerra Fria, mas os vilões russos foram abolidos

Séries e filmes recentes exploram o período com mais nuances morais do que na época

The Economist

07 Julho 2018 | 16h00

A Guerra Fria foi travada tanto na imaginação como no campo de batalha. Cada lado procurava projetar imagens de superioridade cultural e social; histórias de pessoas corrompidas pelo Ocidente decadente ou perseguidas pela KGB eram usadas como armas. Essa disputa foi amplamente travada nas telas, em séries e filmes que, em graus variados, tinham envolvimento do governo. Quando o Muro de Berlim caiu, e em seguida a União Soviética entrou em colapso, escritores e diretores baixaram as armas. Poucos filmes sobre o período foram realizados nos anos que se seguiram.

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Quase três décadas depois e o cinema americano retoma a época como uma vingança. Foram produzidos filmes sobre a Guerra Fria ocasionais no início do século 21, como Jogos do Poder, lançado em 2007, mas o ressurgimento teve início com The Americans, série de TV que desde 2013 acompanhou agentes secretos da KGB em Washington. Seu capítulo final foi ao ar no mês passado. A Ponte dos Espiões, de 2015, filme dirigido por Steven Spielberg, narrava a história de um advogado convocado para defender um espião soviético. O desejo de conquistar o domínio científico constitui o pano de fundo de Stranger Things, série da Netflix, e de A Forma da Água, vencedor do Oscar de melhor filme este ano. The White Crow, atualmente em fase de produção, é um filme biográfico sobre Rudolf Nureyev, dançarino de balé russo que desertou em 1961. Uma nova adaptação em seis episódios do livro de John Le Carré, O Espião que Veio do Frio, sobre um espião britânico na Alemanha Oriental, também está em fase de realização.

Essas produções divergem espetacularmente do tom maniqueísta de muitos filmes de sucesso realizados à época do conflito, sobretudo na era Reagan (John Le Carré sempre foi uma sutil exceção). Por exemplo, Ivan Drago, o antagonista de Rocky IV (1985) eram um bruto insensível: “Se ele morrer, morre”, sua frase memorável sobre um boxeador americano derrotado. No filme Da Rússia, Com Amor (1963) a assassina Rosa Klebb tem enorme prazer em infligir dor em seus compatriotas e inimigos. Em seu livro Hollywood’s Cold War, o historiador Tony Shaw resume os soviéticos de celuloide do passado desta maneira: “normalmente usavam um terno barato, um chapéu preto e tinham um rosto sinistro... A rara mulher comunista era ninfomaníaca, frígida ou reprimida.”

“Eles” eram criminosos impiedosos, subversivos e pervertidos; “nós” éramos defensores iluminados da democracia e da liberdade. Mesmo em trabalhos mais realistas, com mais detalhes ou fatos específicos, as motivações dos personagens comunistas eram raramente exploradas. Eles eram considerados mais como “oponentes contra os quais os homens do Ocidente demonstravam suas habilidades superiores”, diz Michael Kackman, da Universidade de Notre Dame.

Esses psicopatas de rosto duro hoje deram lugar a cidadãos soviéticos mais texturizados. The Americans tem a ver tanto com o casamento de Philip e Elizabeth Jennings, agentes russos (retratados) e as experiências de criar os filhos nos EUA, como com a espionagem. O casal luta com a culpa e o significado de liberdade. Flashbacks da era de sofrimento na Rússia de Stalin ajudam a explicar sua devoção à missão; mesmo assim, dúvidas e desilusões com a causa soviética surgem internamente.

Os papéis coadjuvantes são também cuidadosamente representados, como o diplomata soviético que está disposto a cometer uma traição por um bem maior. Esses personagens são tão humanos que os espectadores são convencidos a não só simpatizar com eles, mas esperar que consigam evitar sua captura, mesmo quando matam e chantageiam americanos. A esperança fomentada em A Ponte dos Espiões é de que o afável agente soviético Rudolf Abel não seja executado quando enviado para seu país natal. Em A Forma da Água Dimitri Mosenkov, um cientista soviético infiltrado é vital para a segurança da criatura e sua relação com Elisa, a heroína do filme.

Nessas histórias, a ideia da superioridade ocidental – moral e profissional – é questionada. No caso de The Americans, é risível: um dos momentos mais divertidos da série ocorre quando o chefe da contrainteligência do FBI descobre que sua secretária casou-se em segredo com um oficial da KGB. O vilão em A Forma da Água não é Mosenkov, mas um repulsivo coronel americano. Em Stranger Things, os maus são cientistas pagos pelo governo americano que usam a Guerra Fria como pretexto para experimentos perigosos e com objetivo de exploração.

A riqueza desses novos enredos reflete em parte o dividendo intelectual do colapso da União Soviética. No caso de The Americans os produtores e roteiristas Joe Weisberg, ele próprio um ex-oficial da CIA, e Joel Fields – extraíram os detalhes e os plot points (ou pontos de virada) de material de arquivo que antes era inacessível. Eles contrataram Masha Gessen, escritora russo-americana para assegurar que os diálogos em russos fossem fiéis ao idioma. Do mesmo modo Simon Corwell, filho de John Le Carré e produtor na nova versão de O Espião que Veio do Frio, diz que vai incorporar provas documentais que estavam indisponíveis quando seu pai escreveu o romance no início da década de 1960. “Para um escritor cujo trabalho está tão baseado na realidade, ele não tinha nenhum acesso a essa realidade”, disse Simon.

Mas o ambiente político na Grã-Bretanha e nos EUA também teve seu papel. A confiança nos serviços de inteligência ocidentais nunca era absoluta. No romance de John Le Carré, o Controle, chefe da inteligência britânica, admite amargamente que “você não pode ser menos implacável do que a oposição simplesmente porque a política do seu governo é benevolente, sabe?” Mas a fé nos espiões ocidentais diminuiu drasticamente depois da guerra no Iraque e recentes escândalos envolvendo os serviços de vigilância.

Além disto, apesar de toda a conversa de “uma nova Guerra Fria”, da interferência de Putin na eleição, e o revanchismo, muitos espectadores de língua inglesa não acham hoje que a Rússia seja uma ameaça existencial. A necessidade de desviar as críticas para o exterior, tão visível nos anos 1980, não existe mais. O temor dissipado tornou mais fácil colocar o foco no lado pessoal do confronto.

E essas narrativas mais sutis refletem a evolução do gosto do público. Acostumados a navegar por campos minados morais em séries como The Wire e Os Sopranos, os espectadores já superaram a fase das histórias simplistas sobre o bem e o mal. Prova disto é o filme Operação Red Sparrow, lançado este ano e estrelado por Jennifer Lawrence no papel de uma sedutora russa cujo alvo é um agente da CIA. “Foi concebido para fazer os americanos se sentirem melhor eles próprios, mostrando como seus espiões são mais amáveis do que os colegas russos”, disse Denise Youngblood, historiadora do cinema soviético e russo. A julgar pela bilheteria, a trama pouco original não entusiasmou.

Trazer personagens soviéticos do frio, traçar seus conflitos privados junto com os geopolíticos, torna a trama mais convincente. E lembra os espectadores que devem duvidar de generalizações sobre a história que ocultam as experiências e complexidades de indivíduos. “Como a Rússia sempre tem sido a terra dos vilões, ela também tem seus heróis e santos”, disse Rodric Braithwaite, ex-embaixador britânico em Moscou. Finalmente, o cinema de Hollywood se tornou criativo o suficiente para dar espaço para todos eles. / Tradução de Terezinha Martino 

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