Cisma entre o catolicismo e a santería

A revolução pôs em carne viva a fratura entre a Igreja [br]da elite espanhola e o candomblé da massa trabalhadora

José de Souza Martins*, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 20h53

O socialismo da Revolução Cubana foi o resultado inevitável do capitalismo impossível. Cuba não teve uma burguesia competente e patriótica que nela promovesse e liderasse uma verdadeira revolução burguesa e construísse uma nação próspera e democraticamente pluralista. Os escassos membros da elite politicamente lúcidos, os filhos das famílias ricas que discreparam da elite servil e desfrutadora, colônia de Miami, optaram por continuar a luta pela independência no cenário inevitável de polarizações da Guerra Fria. Os irmãos Castro - Fidel, Raúl e Ramón - são filhos de latifundiários. Foram os filhos radicais da elite que lideraram o que foi, na verdade, a consumação da independência. Não é casual que a revolução tenha tido como herói ideológico o poeta da independência, José Martí. A Revolução Cubana, por isso, pôs em carne viva a fratura que ocultamente dividia o país ainda colonial, esquematicamente, a elite branca e espanhola, de um lado, e a massa trabalhadora, negra, mestiça e branca, de outro. Expôs, também, a fratura entre o catolicismo da elite e a santería do povo, o candomblé de lá. A fuga em massa foi, praticamente, fuga de uma classe social inteira e sua religião, a burguesia e a pequena-burguesia que não conseguiram criar na ilha um modelo de capitalismo includente e democrático. Hoje, apenas pouco mais de um terço dos cubanos é católico e menos de 5% são praticantes.A elite cubana, quando muito, cooptara mestiços como Batista, deposto pela revolução, que era pai-de-santo. A questão da religião é, justamente, a chave para desvendar muitos dos dilemas e dificuldades políticas da Revolução Cubana. O grande drama de Cuba não foi apenas o decreto do bloqueio econômico por parte dos Estados Unidos. Foi, também, o bloqueio religioso decretado pela Igreja Católica. Cuba deixara de ser colônia política da Espanha, mas não deixara de ser colônia religiosa da Igreja Católica da Espanha. Num país de católicos nominais, sincretismo religioso e forte presença de cultos africanos, as vocações religiosas católicas eram recrutadas fora do país, especialmente na metrópole. Quando, em 1980, o professor Florestan Fernandes voltou de Cuba, com materiais para o livro que escreveria sobre o socialismo, trouxe-me o convite do poeta Roberto Fernández Retamar para integrar o júri do Prêmio Casa de las Américas de 1981. Deu a entender que alguém em Cuba queria falar comigo sobre a Igreja. De fato, já em Havana, fui visitado no hotel por alguém que me convidava para um encontro com o homem que, no Partido Comunista Cubano, cuidava do assunto das religiões. Foi um encontro interessante. Ele era mulato, muito informado sobre religião, com o amplo escritório cheio de livros religiosos ou sobre religião. Explicou-me que o povo mesmo inserira Fidel no panteão da santería considerando-o filho de Xangô. O que me levara até lá, fiquei então sabendo, eram as minhas ligações com vários bispos da Igreja Católica identificados com a Teologia da Libertação. O governo cubano queria um contato com os bispos brasileiros. Tinha esperança de que, por esse meio, o catolicismo em Cuba se tornasse mais ativo e socialmente participativo, disseminando comunidades eclesiais de base (CEBs). O governo queria vencer o bloqueio religioso da Igreja. Desde a morte do último cardeal, Cuba não tivera um substituto, sinal ostensivo do congelamento das relações do Vaticano com Havana. Com a revolução, muitos clérigos se foram, a Igreja cubana se fechou, limitando-se a celebrar missas. Até mesmo um grupo de sacerdotes espanhóis foi apanhado de armas nas mãos, na invasão da Baía dos Porcos, em 1961. Foram deportados para a Espanha. Para eles, a Guerra Civil espanhola contra a república e o comunismo não terminara, continuava em Cuba. Alguns dias depois, fui novamente procurado no hotel por um senhor em mangas de camisa, pastinha embaixo do braço. Convidava-me para jantar no restaurante El Conejito. Queria conversar sobre o modo de fazer a ligação com a Igreja no Brasil, sobre quem poderia ser a correia de transmissão do pedido cubano de socorro religioso. Sugeri que o melhor caminho seria o de convidar algum religioso brasileiro, intelectual, para uma das atividades da Casa das Américas e pedir-lhe que organizasse o contato. Depois de examinar vários nomes, propus o de frei Betto. Betto tinha um papel importante nas CEBs e mantinha um relacionamento de confiança com um grande número de bispos. O interlocutor exclamou: "Frei Betto seria sopa no mel!", pois já o conhecia de nome. E assim foi feito. Betto foi a Cuba, acabou entrevistando longamente Fidel Castro e publicou Fidel e a Religião. Esse livro seria lido pelo papa João Paulo II. O bispo dom Pedro Casaldáliga também foi a Cuba e conversou com Fidel. Além do enorme prestígio que tem no Brasil, é influente em setores do catolicismo espanhol e latino-americano. O papa acabou nomeando um bispo cubano como cardeal de Havana e fez a famosa visita a Cuba que descongelou o catolicismo naquele país. Nessa viagem de 1981, conheci os três irmãos Castro e participei de dois encontros com Fidel. Num deles, na casa do ministro da Cultura, Armando Hart, ficamos sentados no pequeno jardim que dava para a rua. Ao chegar, sentara-se quase ao meu lado, a cerca de um metro de onde me encontrava. Confessou sua paixão pela literatura. Notívago, passava boa parte da noite lendo. Falou pouco e perguntou muito, nas três horas de conversa, rodeado pelos escritores latino-americanos que lá se encontravam e por vários sobreviventes da guerrilha de Sierra Maestra. Um guarda-costas fardado, em duas ocasiões, a um sinal dele, passou-lhe um charuto. Vi claramente quando jogou no chão o toco de um deles e pisou sobre ele com a bota. Mal levantou o pé, o peguei. Eu o tenho até hoje como uma espécie de relíquia e símbolo de uma era de sofrimentos e de esperança, o momento em que a revolução procurava se reconciliar com a Igreja e destravar politicamente o campo da fé.

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