Stevan Kragujevic/Grua Livros
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Clássico bósnio do Nobel de Literatura Ivo Andric ganha tradução no Brasil

'Ponte sobre o Drina' é um romance-paisagem que abrange quatro séculos do cotidiano da cidade de Víchegrad

Luis S. Krausz*, Especial para o Estado

05 de setembro de 2020 | 16h00

Há, em Ponte sobre o Drina, de Ivo Andric (1892-1975), uma passagem, ambientada em 1516: um franzino montenegrino recita um poema acompanhado pela gusla, instrumento primitivo de uma só corda. Os que o ouvem são arrebatados, “calafrios atravessam-lhes as costas, endireitam a espinha, estufam o peito, os olhos brilham, os dedos das mãos abrem-se e contraem-se e os músculos do queixo se retesam” (p. 41). 

Este romance esplêndido abrange quatro séculos de história da localidade bósnia de Víchegrad. Perto do seu final, ambientado já à época do domínio austríaco, e não mais otomano, sobre a região, ressurge um tocador de gusla, que é o mesmo de quatrocentos anos antes, e que é também outro: “quase sempre um montenegrino, magro como um asceta, vestido pobremente”. “A grandeza daquilo que tem na alma” contrapõe-se à “miséria e fraqueza daquilo que pode expressar e mostrar diante dos outros” (p. 253). 

Ao som da guslas, estes dois homens, o de 1516 e o de 1890, se transformam: desfaz-se, neles, a máscara de modéstia e “vislumbram vitórias desejadas, contemplam batalhas, heróis, glória e brilho que não há em lugar algum do mundo”.

Rapsodos ou aedos, com suas guslas, eram conhecidos nos Bálcãs ainda no início do século 20, legatários, em linha direta, daqueles da Grécia arcaica, que recitavam a épica homérica, portadores da memória coletiva, que encantavam com sua arte.

A escrita de Andricćinsere-se nesta tradição: sua prosa está impregnada de poesia e de oralidade, assim como a narrativa do romance está encharcada com a água gelada do rio Drina. Ao lê-lo, parece que estamos ouvindo a voz de Andric misturada à voz do Drina. É uma literatura que é um jogo: um jogo de quem joga um jogo e um jogo de quem toca um instrumento (em várias línguas existe um só verbo para referir-se a “jogar” e também a “tocar um instrumento”). 

Andric é um instrumentista das palavras. Seu tema, aqui, é a ponte de pedras que foi construída em Víchegrad, por ordem do Grão-Vizir Mehkmeh-paxá Sokolluem, em 1516. Seu livro, por assim dizer, é a versão escrita da ponte de pedras, feita com fineza e habilidade de ourives. Pois o livro-ponte liga a paisagem física de Víchegrad a uma paisagem metafísica, feita de histórias, que são determinadas pela História e, excepcionalmente, deixam marcas na História. 

Andric descreve como cada uma única das pedras com as quais se fez a ponte foi pacientemente cinzelada e lavrada, um pouco com devoção, um pouco às chicotadas, por bem e também por mal. As pequenas unidades de que é feito o livro, delicadas como joias sobre veludo, gravitam em equilíbrio instável, como pedras no fundo de um rio, por entre as quais a água corre gelada, rápida e nervosa, embora aparentemente plácida e tranquila. 

Constela-se, assim, um tipo muito especial de texto corrente, ao qual Andric, a certa altura, se refere, modestamente, como “uma crônica a respeito da ponte sobre o Drina” (p. 360). Obras como essa ponte “não conhecem nem o envelhecimento, nem as mudanças e, pelo menos assim parece, não compartilham do destino das coisas transitórias deste mundo”. Diz um dos muitos provérbios víchegradenses introduzidos, a cada tanto, no fio da narrativa que “o maior bem fazer é construir uma ponte porque cada ponte tem o seu anjo, que a guarda e cuida dela até quando Deus tenha determinado que fique em pé” (p. 289). 

Ponte sobre o Drina é um romance-paisagem, aparentado, na abrangência de suas dimensões e em sua estrutura, a um romance como Danúbio de Claudio Magris – aliás, leitor de Andric, a quem considera um escritor capaz de registrar não as coisas, mas as sombras deixadas pelas coisas. A diferença é que a extensão, aqui, é temporal e não geográfica. Pois o centro da Europa, senão do mundo, torna-se a fronteira entre a Bósnia e a Sérvia, a partir da qual o narrador observa, por assim dizer, a água que corre por baixo da ponte, levando o sal das pedras, sempre idêntica a si mesmo, sempre diferente de si mesma, ao longo de quatrocentos anos.

Um dos muitos pontos altos do livro diz respeito à chegada dos austríacos a Víchegrad em 1890 (p. 178): eles passam a governar a cidade por força de um acordo feito meio à força entre o Kaiser e o Sultão e representam, também, o começo do fim: operosos, diligentes, persistentes, trazem a mentalidade racionalista e fáustico-titânica do século 19 europeu a uma antiga, distante e sonhadora província otomana. Vão transformar “os hábitos e os temperamentos dos vivos, do berço ao túmulo” (p. 186), levando todos a buscarem a “vida barulhenta, excitante e agitada (p. 305)”, própria de uma modernidade efervescente e desvairada. 

Ponte sobre o Drina trata de tradições e da destruição de tradições, de História e de histórias, mas é, sobretudo, literatura, livre do dever de comunicar um “o quê”: apresenta-se, antes de mais nada, como puro jogo. E a pergunta que fica pairando ao final é: a vida, os séculos, são algo mais do que um jogo de sombras e luzes?

A tradução, direta do sérvio, de Aleksandar Jovanović, possui a virtude, ao mesmo tempo indispensável e praticamente impossível, de fazer um texto assim cantar, em português, com a grandeza que tem na alma o autor. É, pois, digna de todos os louvores. 

*LUÍS S. KRAUSZ  É PROFESSOR LIVRE-DOCENTE DE LITERATURA HEBRAICA E JUDAICA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, ROMANCISTA E TRADUTOR

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