Clássico do russo Ivan Turgueniev retrata família desajustada

Clássico do russo Ivan Turgueniev retrata família desajustada

'Diário de um Homem Supérfluo' se coloca em uma linhagem que investiga um tipo literário e social próprio da Rússia

Flávio Ricardo Vassoler*, Especial para o Estado

24 Novembro 2018 | 16h00

No bicentenário de nascimento do russo Ivan Turgueniev (1818-1883), a Editora 34 lança o Diário de um Homem Supérfluo (1850), obra que, segundo o tradutor Samuel Junqueira, no posfácio, O Trágico Destino dos Melhores Homens na Rússia, estabeleceu a síntese do homem supérfluo como tipo literário, histórico e social: “Da publicação de A Desgraça de Ter Espírito (1824), de Aleksandr Griboiedov (1795-1829), até Oblomov (1859), de Ivan Gontcharov (1812-1891), a literatura russa giraria em torno desse tipo, influenciando todos os grandes escritores do período”. 

Com a vaga antimonarquista aberta pela Revolução Francesa, em fins do século 18, um espectro passou a rondar a Rússia czarista, o espectro da guilhotina. A despeito de as tropas do czar Alexandre I (1777-1825) terem rechaçado, de forma heroica, a invasão maciça do país pelos exércitos comandados por Napoleão Bonaparte (1769-1821), em 1812 – contraofensiva imortalizada pelo romance Guerra e Paz (1865-1869), de Liev Tolstoi (1828-1910) –, o oficialato russo pôde entrar em contato, Europa adentro, com a opulência ocidental que contrastava, aberrantemente, com o atraso econômico-político da Rússia. 

Em dezembro de 1825, oficiais do exército se opuseram à coroação de Nicolau I (1796-1855) e deram vazão à primeira contestação do regime czarista, que só viria a ser derrubado em fevereiro de 1917. De origem nobre, os oficiais da Revolta Dezembrista foram amplamente reprimidos – fuzilamentos e o exílio siberiano foram as punições do czar contra eles para desencorajar novas sublevações. Assim, é do seio de filões nobres, revoltosos e emparedados que surge a figura do homem supérfluo. 

Segundo Samuel Junqueira, “os homens supérfluos são caracterizados como jovens de origem nobre, dotados de grande capacidade intelectual e dos mais elevados princípios morais, mas também incapacitados para a ação, para a luta em nome de seus ideais, tanto devido ao sistema repressor sob o qual estão submetidos quanto à própria educação que receberam”.

O homem supérfluo de Ivan Turgueniev escreve seu diário à beira da morte radicalmente precoce, já que a personagem mal havia cruzado a fronteira dos 30 anos. Com céleres pinceladas – tão fugazes quanto os parcos dias que lhe restam –, o narrador-personagem esboça o retrato de sua família abastada e desconjuntada: o pai perdulário era viciado em jogatina; a mãe, a despeito de ser justa e, por vezes, carinhosa, era bastante fria; filho único, o homem supérfluo, qual um bibelô, fora educado em seu casarão por tutores. 

Para além do privilégio de classe – a bem dizer, de casta –, o homem supérfluo desponta como uma figura efetivamente humana na ocasião de seu profundo pesar por causa da morte do pai pródigo: 

“Completamente transtornado pela tragédia, fiquei sentado à mesa em que jazia o cadáver, com uma vela na mão e ouvindo a densa melodia do sacristão, de quando em quando entrecortada pela voz frágil do padre; lágrimas escorriam-me pelo rosto, lábios, colarinho e peitilho; contemplava com insistência e atenção o rosto imóvel do meu pai, como se esperasse dele alguma coisa; enquanto isso, mamãe prostrava-se, erguia-se lentamente e, persignando-se, apertava com força os dedos na testa, nos ombros e no peito. Não conseguia concentrar-me em nada; estava inteiramente apático, mas sentia que algo terrível acontecia comigo... Então a morte encarou-me e tomou nota de mim...”

Se o sumo sofrimento faz com que nos apiedemos do homem supérfluo, suas rememorações líricas e lúdicas revolvem o baú de brinquedos da infância e encarnam um belo aforismo do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900): “Maturidade do adulto: recuperar a seriedade da criança ao brincar”. É assim que, moribundo, o homem supérfluo se lembra do “doce aroma do trigo sarraceno ceifado nos campos de minha terra; gostaria de mais uma vez ouvir ao longe o toque discreto do sino rachado da igreja de nossa paróquia; mais uma vez ficar deitado à sombra fresca sob um pé de carvalho na encosta de uma ribanceira familiar; mais uma vez seguir com os olhos o movimento ágil do vento e do fluxo escuro que flui pela relva dourada do nosso prado”.

Mas eis que, em meio ao elogio panteísta da natureza, o homem supérfluo desvela o nobre usurpador como a outra face do poeta que não precisa ganhar o pão com o suor do próprio rosto. Assim, no jardim do Éden de sua infância que já se encaminha para a adolescência libidinal, o homem supérfluo avistou “a criada Klávdia, que, apesar do nariz arrebitado e do hábito de rir sob o lenço, suscitou-me uma tão meiga paixão que, em sua presença, mal podia respirar; certo dia, no Domingo de Ramos, quando chegou sua vez de beijar reverentemente minha mão de senhorzinho, por pouco não me lancei a beijar-lhe os sapatos gastos de couro de bode”.

*Flávio Ricardo Vassoler é doutor em letras pela FFLCH-USP, com pós-doutorado em literatura russa pela Northwestern University (EUA); autor de 'Dostoievski e a Dialética: Fetichismo da Forma, Utopia como Conteúdo' (editora Hedra)

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