Sever Studio
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Clássico dos irmãos Strugatsky critica perseguição aos intelectuais

Romance de ficção científica escrito na União Soviética imagina cientistas que visitam um planeta parado na Idade Média

Guilherme Solari*, Especial para o Estado

14 de março de 2020 | 16h00

É Difícil Ser Deus é um clássico da ficção científica russa dos irmãos Boris e Arkady Strugastky que está sendo lançado em março pela editora Rádio Londres. O livro traz um tema que talvez hoje seja ainda mais atual do que em seu lançamento original, em 1964: o perigo da perseguição furiosa ao conhecimento. Até o fim dos anos 1990, mais de 2,6 milhões de exemplares do livro foram vendidos em russo, além de edições em mais de 20 países, se tornando a segunda obra mais popular dos autores, atrás apenas de Piquenique na Estrada, adaptado para o cinema por Andrei Tarkovski.

No livro, pesquisadores terráqueos se infiltram em um planeta que está em um período semelhante à Idade Média para observar o seu desenvolvimento social. Em vez disso, acabam sendo testemunhas de uma caçada sanguinária a intelectuais, letrados e a qualquer tipo de sabedoria. A obra se mantém atual em um momento em que, apesar de termos acesso à quase totalidade do conhecimento humano pela internet, também temos acesso a toda a ignorância – e a validade dos conhecimentos científicos mais básicos passa a ser contestada.

A obra traz uma curiosa combinação de teoria marxista com Star Trek. Os observadores russos são de uma Terra na qual o comunismo já se estabeleceu e entendem o desenvolvimento histórico como uma ciência exata. A Idade Média seria um estágio de desenvolvimento social necessário para que a sociedade evolua para outras formas de governo, o que levaria eventualmente ao comunismo. Por isso, apesar de sua tecnologia avançada, eles não podem intervir diretamente na sociedade que observam, princípio semelhante ao da Primeira Diretriz de Star Trek. Uma intervenção apenas atrasaria o “aprendizado” daquele povo.

A história é acompanhada do ponto de vista do agente Anton, que atende por seu nome de infiltrado Don Rumata. Um amante da cultura, da ciência e das artes que passa a testemunhar de camarote um pogrom contra pessoas com qualquer tipo de educação, que são acusados de causar todos os problemas do reino. Vendedores de ervas são arrastados na rua e mortos por serem “alquimistas”, artistas são caçados e cientistas considerados bruxos e torturados. O simples fato de saber ler é suficiente para se colocar um alvo na testa de alguém.

A escrita traz uma recriação não só visual e sonora da Idade Média, mas olfativa. As descrições de cheiros e fluidos fazem outros livros n a Idade Média ou de fantasia parecerem limpos demais. É uma obra que fede, com a repulsa de Rumata pela falta de higiene física só aumentando sua aversão à sujeira moral da sociedade. Isso faz com que É Difícil Ser Deus tenha um tom muito realista e dê ao leitor a dimensão de semelhantes atrocidades e perseguições, que afinal aconteceram diversas vezes ao longo da violenta história humana.

Talvez não tenhamos – ainda – uma perseguição tão violenta quanto a do livro, mas ela lembra o momento atual de descrença no conhecimento acadêmico: retorno a dogmas religiosos, terraplanismo, negação do aquecimento global e da teoria da evolução. Vivemos uma época em que a ignorância consegue se organizar e encontra respaldo político para combater o conhecimento. Basta olhar nas linhas do tempo das redes sociais para se sentir com um pé na Idade Média. A perseguição, no livro, é tão sistemática que faz com que Rumata questione a teoria da evolução histórica, já que caminha para a criação de um estado fascista durante a Idade Média, algo sem paralelo na Terra.

É Difícil Ser Deus tem como pano de fundo a perseguição a artistas na União Soviética – a realidade dos autores. Segundo Boris Strugatsy, a história começou com o objetivo de ser uma aventura aos moldes de “Os Três Mosqueteiros no espaço” e se tornou um grito de criatividade e crítica ao regime escrito por trás da cortina de ferro.

Ele foi lançado em 1964, uma época na qual o então primeiro-ministro, Nikita Kruchev, estava em pleno esforço de suprimir toda arte que não glorificasse o Estado, que era analisada a pente fino por uma comissão ideológica. Na literatura, todo livro era analisado previamente pela censura, em um verdadeiro labirinto de diversas entidades burocráticas que deixaria Kafka de cabelo em pé. Às vezes, as exigências da própria da censura já era um livro à parte. A resposta apenas do “editor de linguagem” para Piquenique na Estrada, por exemplo, tinha nada menos de 18 páginas de “comentários sobre comportamento imoral dos heróis”, além de ordens de trocas de palavras vulgares e ajustes para a publicação ser liberada.

Nesse contexto, É Difícil Ser Deus passou milagrosamente sem muitas mudanças pelo lento e minucioso trabalho de aprovação frente aos censores – talvez por sua descrição do comunismo como o modelo social final e mais avançado –, mas sua crítica incisiva nas entrelinhas de uma aventura com ares de Os Três Mosqueteiros não se perdeu para os leitores. O livro se tornou particularmente popular entre adolescentes por sua crítica ao totalitarismo, além ser um dos mais belos exemplos de como a autocensura se insere na alma dos artistas que vivem em um regime totalitário, tornando a arte insípida. Em determinado momento, há um artista antes genial e que Rumata compara a Shakespeare, mas que depois de tantas perseguições mais parece um cachorro domesticado pelo regime, sua arte antes rica transformada em versos patrióticos e vazios. Um personagem que era bem real para os autores, conforme mostra a extensa troca de cartas entre os irmãos.

É Difícil Ser Deus questiona a responsabilidade dos poderosos, que podem impedir atrocidades e nada fazem, mas aventa também a incapacidade de se intervir nas atrocidades do rolo compressor histórico. Em uma cena, um homem – que suspeita que Rumata é um deus – pede a ele seu poder “dos raios” para acabar com a barbárie. Mas Rumata argumenta que isso apenas levaria um novo ditador, talvez ainda pior, ao poder.

A mensagem final do livro acaba sendo que seres humanos de conhecimento acabam tendo um poder maior do que um Deus, porque só eles podem mudar o mundo realmente. O céu e o inferno podem existir, mas somos nós que os construímos, lentamente, através da ignorância ou do conhecimento.

*GUILHERME SOLARI É JORNALISTA E ESCRITOR

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