Roger Arpajou / Curiosa Films
Roger Arpajou / Curiosa Films

Clássico 'Ilusões Perdidas' questiona o papel da imprensa do século 19

Romance de Balzac segue atemporal e inspira novas gerações, como Xavier Giannoli, que adaptou história de Lucien Chardon para o cinema

Luiz Zanin Oricchio, Especial para o Estadão

25 de junho de 2022 | 16h00

Trazer para o cinema de 2022 uma obra-prima do século 19 significa apostar na permanência de sua aura artística ou na atualidade dos problemas que ela aborda? Pode-se dizer que, ao adaptar Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac, Xavier Giannoli faz essa dupla aposta. Por sua excelência artística, o filme faz vibrar o texto que o inspira. Ao mesmo tempo, ao evocar o passado, debruça-se sobre algumas das mais angustiantes questões da nossa época: como distinguir verdade de mentira, polêmica real de mero sensacionalismo, a crítica séria do insulto gratuito? Qual o papel da imprensa na trabalhosa tarefa de separar o joio do trigo, e publicar este último? 

O romance de três partes em mais de setecentas páginas traz ainda muito mais do que tudo isso. É quase um mundo em si, com uma multidão de personagens, intrigas e situações, vistos na província e ramificados por Paris, capital da França e da inteligência do mundo ocidental naquele período. Estamos à época da segunda Restauração monárquica, reação à tempestade de 1789. 

Das três partes, Giannoli concentra-se na segunda, e mais importante do livro, chamada de “Um grande homem de província em Paris”. O título sugere zombaria. Sobretudo quando nos familiarizamos com esse “grande homem”, o jovem e obscuro Lucien de Rubempré (Benjamin Voisin), poeta de Angoulême, apaixonado por uma mulher mais velha, aristocrática e casada, Louise de Bargeton (Cécile de France). O entrevero com o marido obriga Lucien a precipitar sua mudança a Paris - em companhia da amante. Mas as coisas não saem como esperava. 

Em território estranho, Lucien logo descobre que não conhece nada das regras do jogo do “grand monde” parisiense. Constrangida pelos modos provincianos do amante, Louise o deixa. Lucien passa a sobreviver só numa cidade hostil, vive numa pensão barata e come num restaurante de três vinténs enquanto busca editor para publicar seu livrinho de poesias, As Margaridas, dedicado “À Elle”. A Ela, ou seja, a Louise que, a esta altura do campeonato, já está em outra e submete-se a uma repaginação aristocrática sob o comando de sua prima, a Marquesa D’Espard (Jeanne Balibar), um dos narizes mais empinados de Paris.

O hábito da refeição no restaurante modesto faz com que Lucien tire a sorte grande. Ou, pelo menos, ele assim pensa durante algum tempo. Naquela mesa modesta, conhece um jovem que mudará sua vida. Trata-se do jornalista Étienne Lousteau (Vincent Lacoste), também ele vindo da província e com veleidades literárias. Apesar da pouca idade, Etienne é já um jornalista experiente, perfeitamente adestrado nos meios, mentalidades e vícios do ofício. Simpatizam um com o outro e Étienne resolve ajudar o recém-chegado e desanimado Lucien. 

Apresenta-o a editores, mostra os bulevares mais movimentados da cidade, as mulheres, os espetáculos, as manhas, malícias e mumunhas da capital. Em pouco tempo, ministra lições de vida que serão avidamente absorvidas pelo novato. Em uma cena antológica, Lucien diz ao amigo que lhe é impossível destruir um livro que amou numa resenha desfavorável. Lousteau ri: “Se o livro for inteligente, diga que é indulgente; se é clássico, escreva que é conservador. Se for engraçado, é superficial. Se soar culto, é pretensioso. E se o enredo for bem construído, é previsível”. Com as palavras justas pode-se dizer tudo e o seu contrário. Que lição para críticos de todos os tempos!

Em suma, em pouco tempo, Lucien absorve o cinismo do amigo, passa a escrever em jornais e descobre que sua pena afiada pode ser de fato uma arma. Com ela ganha dinheiro, pressiona editores, conquista mulheres. Desperta inveja. E passa a ser requisitado até mesmo por aqueles e aquelas que o desprezaram em sua chegada a Paris. Tudo é muito rápido. E as reviravoltas, radicais. A cidade é um redemoinho, um sonho em espiral, no qual Lucien embarca, deixa-se levar e supõe que dure para sempre. 

O livro tem mesmo esse ritmo, em especial em sua segunda parte, da qual se ocupa o filme. O grande mérito de Giannoli é ter feito uma obra de época sem o ranço habitual desse tipo de adaptação. Segue a recomendação do crítico André Bazin: a obra literária deve ser adaptada não literalmente, mas em seu espírito. 

Tudo em Ilusões Perdidas é impecável, dos figurinos à reconstituição da cidade. Mas a encenação jamais parece engessada. Há um ritmo que se sustenta; sem ser obsessivamente acelerado, mantém a passada e concentra a atenção. O elenco contribui. Aliás, é decisivo para a qualidade da obra. Voisin vai muito bem no papel do frágil e depois confiante Lucien. Lacoste é brilhante como o cínico Lousteau. Em poucas aparições, Gérard Depardieu marca a obra com seu Dauriat, o editor desbocado e manipulador que exerce o ofício sem saber ler e escrever. A frágil mas interesseira Louise ganha corpo (e alma) com Cécile de France. Salomé Dewaels é correta como a trágica Coralie. E Jeanne Balibar encanta como a maquiavélica Marquesa D’Espard. Xavier Dolan manda bem como o escritor emergente Nathan D’Anastazio. 

Escolhas precisam ser feitas quando se adapta obra da extensão de Ilusões Perdidas. No romance, Lucien fica espremido entre o imediatismo do jornalismo de escândalo (literário), que lhe abre tantas portas rapidamente, e o ascetismo de um grupo de literatos dedicados à pureza da arte, como a um sacerdócio. No filme, esse dilema passa muito rapidamente e Lucien atira-se à vida fácil com demasiada prontidão. O brilho, o poder e o luxo o atraem da mesma forma que insetos são magnetizados pela luz que vai queimá-los. 

Essa ligação com o fogo fácil da fama, traço da nossa vida contemporânea, vida líquida, como diz Zygmunt Bauman, valeu algumas críticas a Giannoli. Poucas na verdade, porque, em geral, o filme foi bastante incensado pela ainda exigente crítica cinematográfica francesa.

Pois é justamente nessa aproximação, feita sem artificialismo, entre os brilharecos da Paris do século 19 e os nossos tempos de leviandade e redes sociais que Giannoli acerta. Aproxima a obra do nosso tempo e a torna viva e pulsante. Obra de amadurecimento e desilusão, torna as ilusões perdidas daquele tempo similares à perdidas ilusões do nosso. 

Os livros

Há duas boas edições recentes de Ilusões Perdidas em português do Brasil.

A da Estação Liberdade (2007) tem tradução e apresentação de Leila de Aguiar Costa. Contém também os prefácios das três partes do livro: Os Dois Poetas, Um Grande Homem de Província em Paris e Os Sofrimentos do Inventor.

A da Penguin/Companhia (2011) tem tradução de Rosa Freire D’Aguiar e introdução de Herbert J. Hunt. Apresenta uma particularidade interessante. Mantém a opção original de Balzac, dividir cada uma das partes em vários capítulos, pequenos em geral. Depois, contra a vontade do autor, os editores da obra abandonaram a forma original e suprimiram a divisão em capítulos. 

Para consulta em francês, existe uma boa edição de bolso, pela Pocket Classiques (1991), apresentada e comentada por Daniel Mortier, professor de literatura da Universidade de Rouen. 

Em e-book, pela Amazon, estão disponíveis as obras completas de Honoré de Balzac (Oeuvres complètes e annexes - 115 titres) a preço irrisório.

Os assinantes do kindle unlimited também podem acessar os volumes da Comédia Humana, tradução de 1946 que, em alguns trechos, soa um tanto antiquada, embora assinada por Ernesto Pelanda e Mário Quintana. Editora Globo, com orientação, introdução e notas de Paulo Rónai. 

Tudo o que sabemos sobre:
Honoré de Balzacliteraturalivro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.