Clássicos da literatura erótica mostram que o desejo caminha com a violência

Clássicos da literatura erótica mostram que o desejo caminha com a violência

Reedições de livros de Marquês de Sade, Georges Bataille e Pierre Louys revelam relação entre sêmen e sangue

Flávio Ricardo Vassoler*, Especial para o Estado

30 Junho 2018 | 16h00

Os 120 Dias de Sodoma ou a Escola da Libertinagem (Companhia das Letras, tradução de Rosa Freire d’Aguiar), História do Olho (Companhia das Letras, tradução de Eliane Robert Moraes) e Três Filhas da Mãe (Iluminuras, tradução de Letícia Coura), de autoria respectiva dos franceses Marquês de Sade (1740-1814) e Georges Bataille (1897-1962), e do belga Pierre Louÿs (1870-1925), escarafuncham, radicalmente, as relações entre sexualidade e poder. A leitura atenta (e ofegante) nos faz entrever que o falo e o clitóris intumescidos se assemelham a facas e baionetas. Sêmen e sangue, ejaculação e disparos, orgasmo e masmorra, suma liberdade e caos se veem atados pelo cordão umbilical do incesto e da ruptura do quinto e do sexto mandamentos do Decálogo de Moisés: “Não matarás” e “Não pecarás contra a castidade”. 

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Não nos esqueçamos de que Sodoma foi dizimada pela ira de Deus, no Velho Testamento, por causa da prática contumaz da sodomia. (Historicamente, as religiões abraâmicas – o judaísmo, como tronco histórico; o cristianismo e o islamismo, como galhos derivados do profeta Abraão – tendem a condenar o prazer que se volta sobre si mesmo, o prazer e a felicidade que buscam o êxtase para além da perpetuação da espécie – e para além do nascimento de novos fiéis.) O catecismo ateu e libertino de Sade – não à toa, o autor francês é o pai (e o parricida) do adjetivo “sádico” – sentencia que, se Deus não existe, tudo é permitido. Afinal, o orgíaco sádico se dá conta de que “estou sozinho aqui, estou no fim do mundo, longe de todos os olhares e sem que nenhuma criatura possa chegar até mim; nada mais de freios, nada mais de barreiras. (...) Menina, não se atreva a falar de Deus aqui dentro [do castelo das orgias]. Se Deus existisse, ele não deixaria a gente fazer isso com você.” 

Neste momento, quem ainda não se matriculou na escola de libertinagem do Marquês de Sade está se perguntando: a que tipo de experiências o niilismo sádico dá vazão? As parábolas do evangelho segundo Sade estão repletas de sodomia e incesto, adultério e estupro, sacrilégio e assassinato. Símbolos sagrados do cristianismo, a hóstia e a cruz são utilizadas como instrumento de masturbação e flagelação; recorrentemente, Sade associa facas e espingardas ao falo – punhaladas e disparos prenunciam a ejaculação. 

Não nos deve chocar a associação entre o esperma e a pólvora. Se adaptarmos a famosa máxima do químico francês Antoine Lavoisier (1743-1794), diremos que, na sociedade, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Munidos da empiria que a psicologia de massas do fascismo lhes fornece, os líderes de movimentos autoritários bem sabem que a castração libidinal subjacente à (de)formação familiar, escolar e laboral acumula uma energia monstruosa que pode ser canalizada (e ejaculada) para fins políticos determinados. 

Sade nos leva a pensar que a subordinação histórica ao pai e ao padre, ao patrão e ao pastor prenunciam as genuflexões, urros e gemidos diante do Führer (o paralelismo com o ato sexual é bem sádico). Sem jamais abrir a jaula da castração para a expansão emancipatória de nossa subjetividade, o fascismo arregimenta a libido em busca de sua reversão como ejaculação da violência contra o bode expiatório, aquele que é condenado como o pervertido por excelência. Não nos deve chocar que o fascismo atribua ao outro (ao inimigo) o esgoto de sua própria perversão, uma vez que é por meio dessa castração/inversão sádica que os mecanismos de dominação se perpetuam. Não à toa, Adolf Hitler (1889-1945) escreveu, em sua autobiografia política intitulada Minha Luta (1925), que, “se não houvesse o judeu, teria sido necessário inventá-lo”. (“Teria sido necessário ejaculá-lo”, arremataria o horror niilista do Marquês de Sade.)

É assim que, na História do Olho, Bataille nos faz entrever que os condenados à forca ou ao garrote ficam com o pênis tão ereto, no momento do estrangulamento, que disparam sêmen. O sadismo embasa a tal ponto o subsolo de nossas experiências – ele as castra e apequena, deforma e barbariza – que a dor, nossa velha conhecida, se transforma na condição de nossas vivências fraturadas. Não à toa, Bataille afirma que “a sedução extrema está provavelmente no limite do horror” – será por isso que a língua francesa reserva o termo extático e agônico petite mort (pequena morte) para o orgasmo? Vejamos, então, como as personagens de Bataille vivenciam o prazer como mortificação e a ejaculação como excreção: “Eu estava pálido, manchado de sangue, vestido de qualquer jeito. Corpos sujos e despidos jaziam atrás de mim, numa desordem desvairada. Dois de nós estavam sangrando, cortados por cacos de vidro; uma moça vomitava; nossos ataques de riso haviam sido tão violentos que alguns tinham molhado as roupas, e outros, as poltronas ou o chão; a consequência era um cheiro de sangue, de esperma, de urina e de vômito que faria qualquer um recuar de horror.”

Se, como afirma Bataille em seu ensaio A Literatura e o Mal, “a literatura, sendo inorgânica, é irresponsável; nada pesa sobre ela; pode dizer tudo”, retomemos um breve diálogo entre o narrador-personagem da obra de Pierre Louÿs e a lasciva Teresa, mãe, amante e cafetina de suas três filhas – Mauricette, Charlotte e Lili. Teresa insinua ao narrador lascivo que ela pode saciá-lo de forma oral ou sodomita. Quando ela ouve que o narrador a quer por inteiro, Teresa lhe responde, então, que já não dispõe de mais nenhuma gota de prazer em seu ventre, pois suas três filhas passaram a manhã toda fornicando com a própria mãe. Ao que, de pronto, o narrador tresloucado nos revela: “Ela me viu empalidecer. A imagem de Mauricette me voltou à cabeça toda nua com as palavras: ‘Eu te dou a mamãe’. Eu já não sabia muito bem o que estava vivendo. Uma hora antes, eu acreditara que Mauricette seria a heroína da minha aventura... Sua mãe me inflamava dez vezes mais.” 

Não sabemos se, algum dia, a construção de nossa subjetividade poderá resgatar o prazer da masmorra de sermões e adultérios, relações monogâmicas e prostíbulos, confessionários e casas de swing. Não sabemos, ademais, se, algum dia, chegaremos ao orgasmo fora das balizas da hipocrisia e da violência. Entretanto, ao lançarem luz sobre a dinâmica de alguns dos desejos mais indômitos, castrados e administrados da história humana, as obras niilistas, escatológicas e libertárias de Sade, Bataille e Louÿs nos ajudam a escarafunchar as feridas libidinais do Brasil: de acordo com um levantamento da ONG Transgender Europe divulgado no início de 2017, vivemos no país que mais mata transexuais no mundo; segundo um levantamento do site de vídeos eróticos Redtube, divulgado à mesma época, o Brasil lidera o ranking de buscas por pornografia transexual. 

*É doutor em letras pela USP, com pós-doutorado em literatura russa na Northwestern University 

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