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Clássicos russos chegam ao País com visões conflitantes do comunismo

'O Diário de Kóstia Riábtsev', de Nikolai Ognióv, e 'Inveja', de Iuri Oliecha, oferecem pontos de vista distintos sobre a vida soviética

Aurora Bernardini, O Estado de S.Paulo

06 Janeiro 2018 | 16h00

Tanto O Diário de Kóstia Riábtsev, escrito em 1926 por Nikolai Ognióv (1888-1938), quanto Inveja (1927) de Iuri Oliecha ( 1899-1960), ambos publicados pela Editora 34, parecem se encaixar admiravelmente, um ao lado do outro, na própria sequência cronológica em que foram escritos e por retratarem, mutatis mutandis, em primeira pessoa, a personalidade do respectivo autor: o primeiro, um pedagogo ilustrado que quer contribuir para formar “o novo homem soviético” e o segundo – um gozador brilhante que consegue se safar da censura sob o disfarce expiatório do velho homem burguês.

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O primeiro livro, diário do adolescente proletário de quinze anos e meio, Riábtsev, acompanha o galgar de sua consciência partidária através dos fatos tragicômicos que ocorrem na escola pública mista onde ele frequenta a terceira série, escola essa na qual está sendo introduzido o Plano Dalton (criado nos EUA em 1919, seguindo as pegadas de Maria Montessori e John Haden Badley). Mind, Body and Spirit, preconizava o Plano, que prezava a criatividade individual e os princípios da perseverança e da cooperação entre alunos e professores (os funscolares, na nova nomenclatura, que têm medo das organizações do partido). Uma linguagem muito viva e engraçada (inclusive mérito da excelente tradução de Lucas Simone) acompanha os impasses: no começo não se entende muito bem se são devidos mais aos percalços do plano inovador ou à insegurança ideológica do jovem engajado (novato, entre outras, nas questões do sexo e do tratamento das “meninas”), mas aos poucos, entre socos, enfrentamentos e ideologia “que ajuda a viver”, ele se firma, aprende a decidir depressa, a se defender argumentando e – finalmente – a liderar seus “pioneiros” rumo a uma “percepção ponderada” da vida comunista, conforme explica o posfácio.

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Já o segundo livro, Inveja – na reedição da tradução magistral de Boris Schnaiderman – além de ser a melhor obra de Oliecha, é uma obra-prima de humor. Antes de mais nada pela autoexposição em tom patético e hilário a que se submente o herói da história, Nikolai Kavaliérov. “Bobo do rei” do rechonchudo Andriéi Petróvitch Bábitchev, mestre salsicheiro, confeiteiro, diretor do Departamento da Indústria Alimentícia, que o rebocou para sua casa após recolhê-lo na rua, desfalecido de tanto beber cerveja, em substituição a Volódia, o jogador de futebol que albergava antes dele e cujo retrato sorri-lhe da parede. “ É da Produpão? O camarada Bábitchev está na Comprinconcess?...”— O que tenho eu com isto? – pensa Kavaliérov, atendendo ao telefone. – Mas eu tenho uma sensação agradável, pelo fato de tomar uma parte indireta nos destinos da Produpão e de Bábitchev. Experimento um júbilo administrativo. No entanto, bem que meu papel é insignificante. Um papel de lacaio (...). Penso que não sou pior do que ele. Não sou um homem comum. Vou demonstrá-lo." 

De demonstração em demonstração, “o novelo do irreparável” vai se enrolando furiosamente.

Embaixo da varanda ouve-se a voz de Ivan Petróvitch, a quem o irmão salsicheiro odeia: o inventor sem sucesso de Ofélia, a máquina universal que o ameaça , e o pai da mocinha por quem o coração de Kavaliérov bate mais forte. – No Ocidente gostam da glória alheia – pensa Kavaliérov, – aqui o êxito individual é interrompido por barreiras... 

"– Tenho vinte e sete anos. Não serei, a partir de agora, nem bonito nem famoso. Não serei cabo de guerra, nem comissário do povo, nem cientista, nem corredor, nem aventureiro. Em breve voltarei ao velho apartamento, ao quarto com uma cama assustadora. Ali há uma triste vizinhança: a viúva Prokópovitch, também chamada Ánietchka (que tem uma cama maravilhosa). Ela alimenta gatos. Gatos quietos e magros esvoaçam atrás de suas mãos, com movimentos magnéticos. Ela lhes joga não sei que tripas: a viúva Prokópovitch é velha, obesa e flácida. É o símbolo de minha humilhação masculina..."

Mas, de repente, a cena muda.

Por baixo dos impulsos de inveja e ódio por Bábitchev, que aniquilam Kavaliérov, surge, inesperada, uma segunda trama, uma trama oculta que – segundo a teoria – só os grandes escritores sabem inserir.

– Prevejo algo. Vou estorvá-lo. Sim, estou quase certo de que será assim. Mas eu não permitirei ao senhor fazer o que pretende. Está procurando possuir a filha de seu irmão...

As descobertas se sucedem, as cartas de Kovaliérov e de Volódia, o homem novo que propõe casamento à mocinha, se cruzam, uma mais controversa do que a outra. Bábitchev manda prender o irmão que assim responde às perguntas do inquiridor:  

– Eu abro os olhos a uma numerosa categoria de pessoas.

– Quem o senhor enquadra nessa categoria?

– Todos aqueles que o senhor chama de decaídos.

– ...toda uma série de sentimentos humanos parece-me destinada à extirpação.

– Por exemplo, os sentimentos...

– de compaixão, de ternura, orgulho, ciúme, em suma quase todos os sentimentos em que consistia a alma do homem da época que perece. A época do socialismo criará uma nova série de estados da alma humana.

Cai o pano e a cena muda uma terceira vez. Os decaídos recolhem-se à sua insignificância.

– Ah, que malandrão – murmura a viúva Prokópovitch –, ah, que malandrão...

– Não fique enciumado, Kólia – diz a viúva, abraçando Kavaliérov. Ivan é muito solitário, que nem você. Tenho pena de vocês dois.

– O que significa isto? Pergunta baixo Kavaliérov.

– Ora, o que estão inventando aí? –zanga-se Ivan. – Isto não significa nada.

– Vamos beber, Kavaliérov! ... Aliás, hoje escute: eu... eu vou comunicar-lhe uma coisa agradável...hoje, Kavaliérov, é a sua vez de dormir com Ánietchka. Viva!

*Aurora Bernardini é professora de pós-graduação de literatura russa na USP 

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