Coisa de criança

De como as mulheres da casa real espanhola vivem a desarmar as travessuras de seus protagonistas, sempre homens

O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2012 | 03h07

BORIS IZAGUIRRE

Mais uma vez temos de agradecer à família real por sua fantástica disposição para nos prover de novos assuntos nestes dias atribulados. O tiro aristocrático e acidental no pé direito de Felipe Juan Froilán, neto do rei, que todos conhecem como Froilán, o traquinas, bombou no Twitter. Trouxe de volta a palavra metatarso, mais usada com jogadores de futebol e bailarinas, e também proporcionou tranquilizadoras imagens da rainha e sua filha mais velha, mãe do infante que se deu o tiro no pé, saindo da clínica onde convalesce o pequeno caçador.

"São coisas de criança", declarou a rainha, com o benévolo sorriso de avó. "Eu não estava lá", sintetizou a filha, protegida por um sólido par de óculos escuros.

Não eram óculos de caçadora, e sim do tipo usado por mães de Hollywood interpretadas por Lana Turner, que procuram desesperadamente os filhos na praia sem tirar os óculos, temendo que, se o fizerem, terão de enfrentar a incômoda realidade.

A rainha, armada com seu eterno sorriso conciliador, conseguiu tirar um pouco a importância do acidente doméstico com esse resumo hábil - "coisas de criança", desviando assim o tiro. Agradecemos: há meses estávamos em sobressalto quase permanente. Mas também ficamos um tanto inquietos com esse exercício das damas da casa real de representarem o papel de mulheres que fazem de conta que, na realidade, não houve nada. Um elenco feminino explicando os atos dos protagonistas - sempre homens, incluindo meninos. A infanta ausente na foto, Cristina, é hoje uma mulher que desconhece o alcance das coisas de criança em que seu marido pode estar implicado. Como a infanta Elena, ignoramos se ela sabia ou não que seu filho manipula armas proibidas para sua idade na sua ausência. A rainha talvez não tenha imaginado quão apropriada foi sua frase. Não apenas o ato do seu neto foi coisa de criança. Na verdade, muito do que está acontecendo parece coisa de criança.

Não é hora de especular se o pai de Froilán deve submeter-se às indiscretas opiniões da mídia sobre sua responsabilidade. Quem está numa situação difícil é (o primeiro-ministro) Mariano Rajoy, que, com sua decisão de limitar a 2.500 os pagamentos em dinheiro em qualquer transação, nos obriga a voltar às aulas de aritmética para saber como o pai do menino poderá pagar uma possível multa de 3 mil: em duas parcelas de 1.500 ou em três de 1.000?

Outra criancice foi José Fernando, filho adotivo de (cantora) Rocío Jurado e (toureiro) José Ortega Cano, fugir de casa quando soube que tinha dinheiro e idade para gastar. Também durante a Semana Santa, ele deixou em suspenso o lar paterno. Depois da reconciliação, o toureiro, como a rainha, resumiu tudo a uma travessura do filhote. Mas José Fernando não fez mais do que anunciar futuras verônicas (lance de tourada) no agitado círculo familiar. Depois do ocorrido, voltou a Yerbabuena, sabendo agora que as "primas" podem pulverizar sua montanha de euros.

A vida não é sempre necessariamente um jogo de criança, mas existem coincidências. Tanto Felipe Juan Froilán como José Fernando estiveram matriculados em severos colégios britânicos. Froilán, o traquinas, queixou-se do frio e do ambiente espartano e o pai o trouxe de volta para a ensolarada Espanha. José Fernando, que é originário de um país abrasador como a Colômbia, não pôs entraves ao clima, mas com seu gênio difícil envolveu-se em brigas que transformam travessuras de criança em travessuras de adulto.

Com histórias como essas em nosso país, que necessidade tem Gerard Mortier, diretor do Teatro Real, de contratar Marina Abramovic e seus extenuantes monólogos de grande intelectualidade? A renovação da nossa alta cultura talvez não esteja nos excessos narcisistas dessa artista milionária, mas nos tiros perdidos dos personagens da nossa baixa cultura.

É assim que devemos entender esse gesto de cômoda tradição machista no protocolo de muitas mulheres, incluindo as da família real, em que podem brincar de ser ingênuas. Outra tradição é que alguns pais aproximam as armas para seus filhos porque, uma vez mais, caçar e disparar são também coisas de criança. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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