Coitado do Mário...

Antes uma casa que abrigara gerações de intelectuais, a BMA virou o retrato do abandono

Fred Melo Paiva, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2007 | 10h46

Valmir Pereira dos Santos está decidido a não se estrumbicar. É sem dúvida uma boa causa, mas não há nenhuma garantia de que tenha sucesso: o Valmir já se encontra para lá de estrumbicado. De qualquer maneira, agarrou-se com afinco à filosofia de Abelardo Barbosa, segundo a qual o processo de autoestrumbicamento está diretamente ligado à incapacidade do sujeito de se comunicar. Agora o Valmir não sai mais da Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo. "Quem não se comunica vira um excluso", balbucia o Valmir, cuja voz quase não se ouve. "Eu estou aqui para me aperfeiçoar neste campo, para evitar a gíria, para tentar alcançar o inglês, o russo, o francês, enfim, para escapar dos rótulos. A partir disso terei novos horizontes, talvez a química, a matemática." O Valmir tem 31 anos. Nasceu na capital. Mora na rua. De vez em quando dorme nos albergues da Prefeitura. Seus colegas de pernoite freqüentam muito a biblioteca nas primeiras horas da manhã. "O pessoal vem para dar uma olhada no jornal e jogar uma água na cara." Quinta-feira passada, Valmir estava lendo um dicionário de mitologia. "É o de sempre", diz. "Eu só pego este." O problema é que a biblioteca vai fechar para reforma. As obras devem durar um ano e meio. O dicionário de mitologia tem um mês para aperfeiçoar o Valmir. A Biblioteca Municipal Mário de Andrade, fundada em 1926, tem o segundo acervo mais importante do Brasil, perdendo apenas para a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Seus primeiros livros e documentos vieram da Câmara Municipal de São Paulo. Em 1936, adquiriu a coleção privada de brasiliana do poeta e político Félix Pacheco, apontada como uma das mais raras de sua época. Três anos depois, incorporou todo o acervo da Biblioteca Pública do Estado, com cerca de 70 mil volumes. Batizada com nome do escritor Mário de Andrade em 1960, recebeu doações de livros, periódicos, manuscritos, mapas e obras de arte que pertenceram a Paulo Prado, Sergio Milliet, Carvalho Franco, Pirajá de Souza, Maynard de Araújo, Paulo Duarte, Otto Maria Carpeaux. Há 5 anos, um último levamento contou 3,3 milhões de itens. Desde 1975, quando passou a ser gerida como mais uma entre as dezenas de bibliotecas do município, a Mário de Andrade viveu o mesmo processo de decadência que atingiu o seu entorno. Antes uma casa que abrigara gerações de intelectuais e estudantes, transformou-se em um dos exemplos mais bem acabados do desrespeito pela educação e do mau trato ao patrimônio público. Freqüentada no passado por acadêmicos como Michel Debrun, Bento Prado e Lívio Teixeira, pelos jovens Fernando Henrique Cardoso e Marilena Chauí, a BMA é hoje a biblioteca do Valmir. Até aí tudo bem. O problema é quando ele precisa sentar no trono - está faltando papel higiênico e tampa de privada.Nas últimas décadas, o descaso com a Biblioteca Mário de Andrade guarda episódios que seriam risíveis, caso fossêmos o Marco Aurélio Garcia. A coleção particular de livros e documentos do crítico literário Otto Maria Carpeaux, por exemplo, foi "descoberta" recentemente pelo diretor da BMA, o advogado criminalista Luís Francisco Carvalho Filho, no posto desde 2005. Quando a coleção chegou ao prédio da biblioteca, o pessoal abriu as caixas e começou a limpa: "Ih, olha só, o cara guardava um monte de recorte de jornal dentro dos livros... Vamos tirar essa sujeira fora!". Depois, cerca de um quarto das obras foi distribuído nas mais variadas estantes. "Esse aqui é de Português, leva para a Sala de Linguística. Esse é de História, põe lá junto com os outros." Depois, por sorte, a turma desistiu da arrumação, pondo fim ao processo de esquartejamento da biblioteca. O restante, cerca de 1.300 livros juntados por Carpeaux durante uma vida inteira, foi esquecido em um canto. Sem qualquer trabalho de catalogação, lá permaneceu, inacessível ao público, por 30 anos.Durante a gestão da prefeita Luiza Erundina, entre 1989 e 1993, a filósofa Marilena Chauí esteve à frente da Secretaria Municipal de Cultura. Ligada profissional e afetivamente à BMA, ela empreendeu importantes reformas no prédio da biblioteca, um conjunto de 22 andares com pé direito reduzido ao ponto de acomodar estantes que dispensam o uso de escadas, além dos grandes salões térreos destinados ao público. Entre os melhoramentos feitos por Chauí, estava um moderno sistema de canalização de gás carbônico, dispositivo capaz de combater um incêndio sem fosse necessário jogar água ou espuma de extintores em cima dos livros, inutilizando-os. Na ocasião, foi colocado também um ar-condicionado central, já que a biblioteca funcionava desde sempre à base de ventiladores. Acontece que o governo acabou e a Marilena Chauí ainda não tinha finalizado as novas instalações. Faltava pouquíssima coisa - o maquinário estava pronto para o uso, as tubulações tinham sido levadas a todos os andares. Mas as obras nunca foram concluídas. Agora, a reforma do prédio prevê a ativação dos dois sistemas. "Nos novos projetos, íamos retirar o ar-condicionado, um equipamento que julgávamos irrecuperável", diz o diretor Luís Francisco Carvalho Filho. "Mas um especialista alemão nos disse que, para funcioná-lo, basta trocar uma correia e colocar óleo." Vai custar R$ 4 mil. E ficou 15 anos desligado. Pelo menos não pegou fogo.A falta de um inventário da BMA é outro grave problema, levado por longos anos ao modo dos fazedores de telhas de antigamente - nas coxas. O resultado é a comprovação de que foram furtadas da biblioteca uma lista de preciosidades: pelo menos 42 gravuras de Debret, 58 de Rugendas, 3 litografias de Burmeister, 24 gravuras do Atlas de Spix e Martius, a obra Souvenirs do Rio de Janeiro, com 12 gravuras coloridas de Johann Jacob Steinmann. Parte dos objetos foi levado por um ex-estagiário e um antigo restaurador. As obras foram postas à venda na casa de leilões Babel Livos, no Rio de Janeiro. Acabou todo o mundo preso - mas até hoje falta pessoal e dinheiro para um levantamento rigoroso do que realmente sumiu. A Biblioteca Municipal Mário de Andrade é parte de um outro tempo - quando o centro da cidade reunia um vasto acervo de sua cultura. A USP, o Mackenzie, os cinemas de arte, os teatros Arena e Oficina, a Livraria Francesa. O Restaurante Paribar ficava bem atrás do prédio da biblioteca, na praça dom José Gaspar. Na BMA, Ruth Cardoso, estudante secundarista, gostava de descobrir nas fichas os livros que o Florestan Fernandes tinha lido. "Eu reconhecia a letra dele", conta dona Ruth em depoimento para o projeto Memória Oral, iniciativa dos atuais gestores da biblioteca. "A Mário de Andrade era o elemento catalisador de tudo o que acontecia e que era novo em São Paulo", lembra Marilena Chauí. "Mas, quando voltei para o Brasil, no fim dos anos 60, eu encontrei outra cidade. A USP tinha saído da Maria Antônia, os teatros tinham sido silenciados. E assim fomos nos distanciando da biblioteca. Ela foi ficando sozinha, cercada por essa outra cidade. Uma catrástrofe."O paulistano Walter Coelho, 80, é um freqüentador que não arreda pé. Vai à BMA desde 1958. Chegou a substituí-la pelo Centro Cultural São Paulo, construído inicialmente para ser uma extensão da biblioteca. Não foi o que aconteceu, e o seu Walter não gosta de lá: "As mulheres falam demais no celular". Sempre "correndo atrás da filosofia", leu "34 dos 60 livros do Bertrand Russell". Antes de se aposentar, trabalhava na área contábil de uma grande empresa. Gosta de filosofia mas adora números (ponto para Bertrand Russell, que também era matemático!). Na quinta-feira de manhã, duas mesas à frente do Valmir, o seu Walter emburacava-se num Claude Lévi-Strauss, de quem estava "apanhando demais". De tudo o que leu, "30% é filosofia, 20% psicologia, 50% romances, 10% em inglês". Só tem respeito por escritores brasileiros nascidos no norte e nordeste. À exceção de Guimarães Rosa - que, "mesmo tendo feito de Diadorim uma mulher que foi homem, ele nada tem a ver com esse negócio de Parada Gay". Na Mário de Andrade, o seu Walter é igual à estátua do Camões: está sempre por ali. Nos próximos 18 meses, terá de filosofar em outro pedaço. O Camões, de costas para a biblioteca, coitado, ao menos será libertado da jaula em que se encontra. A reforma vai retirar as grandes que cercam o prédio, liberando também o Cervantes.

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