The New York Review of Books
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Coleção reúne textos ficcionais de grandes filósofos

'Ficcões Filosóficas' é o nome da série da editora É Realizações, que começa com romances de Mário Ferreira dos Santos, Roger Scruton e Samuel Johnson

Martim Vasques da Cunha, Especial para O Estado

14 de setembro de 2019 | 16h00

Nos últimos anos, uma das maiores bobagens lançadas pela crítica literária é a de que há uma disparidade entre o escritor que reflete sobre a sociedade onde vive, por meio dos seus tratados de não ficção, e o romancista que dramatiza as ideias do mundo que habita em uma forma narrativa feita para cativar a imaginação do leitor. Segundo esses críticos, o sujeito que pratica o discurso ensaístico seria incompatível com a elaboração de uma história capaz de ter o mesmo impacto de um axioma filosófico – e vice-versa.

Nada mais errado. A história da literatura mundial mostra que, muitas vezes, a não ficção alimenta a ficção. É só ver os casos exemplares de Julio Cortázar, Edmund Wilson, Jorge Luis Borges, Hermann Broch e Thomas Mann. Todos foram excelentes ensaístas no decorrer da construção da sua obra e, sem o exercício do pensamento abstrato que auxilia na contemplação do Ser, jamais conseguiriam produzir a carne e o osso dos seus personagens ficcionais.

O Brasil tem agora a oportunidade de reconsiderar essa falácia com o lançamento da coleção Ficções Filosóficas, publicada pela É Realizações – e que consta de três títulos inaugurais: As Memórias de Underground, do pensador britânico Roger Scruton; A História de Rasselas, Príncipe da Abissínia, do gigante da crítica literária inglesa Samuel Johnson; e Homens da Tarde, do filósofo brasileiro Mario Ferreira dos Santos.

No primeiro livro, Scruton mostra uma habilidade insuspeitada na carpintaria dramática da sua trama. O cenário é a Checoslováquia de 1985, alguns anos antes da Revolução de Veludo feita por Václav Havel e da queda do Império Soviético que sufocava o país. Jan Reichl é um jovem que, ao lado da mãe, distribui panfletos no ‘samizdat’, o subterrâneo intelectual que serve tanto como metáfora da sua vida interior como o cenário do encontro amoroso que terá com a misteriosa Betka. Por um descuido de Jan, a mãe dele é presa pelo Serviço Secreto checo, e ele passa a viver uma surpreendente trama com Betka, que o fará ser uma testemunha da transição do espírito de uma nação que se libertou graças à polis paralela criada por seus dissidentes, para uma nova província sustentada pelo capitalismo global de uma Europa renascida.

Já em A História de Rasselas, uma obra-prima que só pode ser comparada à Utopia, de Thomas More, por causa do número de enigmas feitos deliberadamente por Samuel Johnson, temos a superação de um clichê da época em que foi escrito – no caso, o ambiente orientalista –, para meditarmos sobre o príncipe (Rasselas) que deseja, com sua irmã Nekayah e o poeta Imlac, descobrir como se deve praticar a sua “escolha de vida”. Isolado em um castelo impenetrável às tormentas do mundo real, o trio sai em busca de conhecimento e sabedoria, mas encontra somente incerteza e luto. 

O luto, comum a todos nós, é o tema central de Homens da Tarde, de Mario Ferreira dos Santos, um desses milagres filosóficos ocorridos no Brasil e que até agora poucos ousam compreender adequadamente. Ao tecer um enredo tênue sobre os problemas metafísicos de três amigos – Paulsen, Pitágoras e Vítor – que tentam sobreviver numa capital brasileira no final da década de 1930, Mario consegue esboçar dramaticamente ideias e axiomas que depois seriam desenvolvidos com rigor e inventividade em obras filosóficas posteriores, como Filosofias de Afirmação e Negação (1958) e este colosso da especulação que é a Filosofia Concreta (1962).

O que liga esses três livros não é apenas o fato de que eles são “ficções filosóficas”, como afirma o nome da coleção que os agrupou, mas sim que, sem a síntese entre a ideia e o drama, esses autores jamais conseguiriam mostrar ao leitor o que acontece com a vida de alguém que vive nesses conturbados tempos modernos. Eles precisaram criar, cada um a seu modo, uma nova forma dramática para retratar o que se passa no coração dos aniquilados que somos – e a qual, sem a ficção que criamos nas nossas próprias biografias, jamais suportaríamos sobreviver neste mundo repleto de inquietude.

Talvez a “moral” dessas histórias (se há alguma) já tenha sido proferida pela princesa Nekayah ao seu irmão Rasselas, criações sublimes do dr. Johnson (e inusitados produtos do luto que o autor sofreu pela morte de sua querida mãe), quando ela diz, à guisa de conclusão, que enquanto ficou preocupada com o modo da sua “escolha de vida”, esqueceu-se de praticar o que era realmente importante: viver segundo a perspectiva da eternidade.

Neste ponto, o romance filosófico de Mario Ferreira dos Santos desenvolve o tema até chegar a uma conclusão inusitada: o ser humano precisa mergulhar nas profundezas do nada para então conhecer, dentro de si, que há “algo” neste universo aparentemente sem sentido – e que, a partir dele, podemos encarar as vicissitudes que nos atacarão. Mesmo assim, permanece uma pergunta: e se este “algo” não passar de uma mera crença – enfim, de uma mera ficção?

Eis aqui o enigma também lançado por Roger Scruton em As Memórias de Underground. É aqui que a surpreendente carpintaria literária demonstrada no seu romance mostra, em suas brechas, o mesmo problema espiritual que foi vislumbrado anteriormente em seus ensaios filosóficos, como O Rosto de Deus e A Alma do Mundo. Para Scruton, a dimensão metafísica estará sempre subordinada à dimensão estética; na prática, isto significa que, apesar do drama interior de Jan Reichl ser algo que o destrói por completo, a provável redenção que ele encontra, por meio de um padre que não cumpriu os seus votos, não passa de uma suposta mentira que serve apenas para consolá-lo – uma vez que, segundo o filósofo inglês, a imortalidade da alma seria a maior (e a melhor) de todas as histórias já contadas pelo gênero humano.

Este diálogo intrincado entre o pensamento e o drama, articulado nesses três livros, já indica o modo como a crítica literária ainda não percebeu a arapuca que preparou para o leitor que pretende somente se divertir e saborear um pouco da boa literatura. As obras completas de Roger Scruton, Samuel Johnson e Mario Ferreira dos Santos precisam ser lidas e entendidas em sua unidade completa e orgânica, assim como as de outros escritores que usaram da não ficção para estabelecer posteriormente (ou ao mesmo tempo) um projeto puramente ficcional.

No fim, o que importa com esses lançamentos importantíssimos para o mercado editorial – e que também incentivam a criação de um debate cultural mais saudável, especialmente em tempos de reducionismos e linguagens corrompidas – é que o encontro da filosofia com a literatura de ficção é algo que deve ser incentivado não só entre os leitores, mas principalmente entre os criadores, esses aniquilados que ainda vivem no subterrâneo da sociedade. Afinal, sem uma boa história, o pensamento não nos ajudará a compreender qual é a nossa “escolha de vida”; e sem a filosofia, jamais teremos a capacidade de encontrar a consolação necessária para fazer o encontro com a eternidade que só a contemplação do Ser pode nos dar.

Martim Vasques da Cunha é autor de 'Crise e Utopia - O Dilema de Thomas More (Vide Editorial, 2012) e 'A Poeira da Glória - Uma (Inesperada História da Literatura Brasileira' (Editora Record)

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