Editora Estação Liberdade
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Coletânea de textos mostra importância da arquitetura construtivista russa

Como a obra de El Lissitzky e Vladimir Tatlin influenciou obras contemporâneas como as arenas de Corinthians e Palmeiras

Gutemberg Medeiros*, Especial para o Estado

27 de abril de 2019 | 16h00

Em 1923, desembarcava nas pedras do cais do Porto de Santos um imigrante dos mais qualificados. Trazia na bagagem formação universitária e experiência como arquiteto. Iniciou seus estudos em Odessa e os complementou na Itália. Pioneiro da arquitetura moderna no Brasil, Gregori Ilich Warchavchik (homenageado com exposição no Itaú Cultural) introduziu aqui vários elementos das vanguardas, aprendidos na Universidade Nacional de Odessa, em 1918, de dois professores que iniciavam uma das melhores páginas da arquitetura e urbanismo da primeira metade do século passado – Vladimir Tatlin (1885-1953) e El Lissitzky (1890-1941).

Pela primeira vez chega ao Brasil uma das obras de referência desse movimento com a publicação de ensaios esclarecedores com Rússia: A Reconstrução da Arquitetura Soviética (Estação Liberdade), coletânea de 20 ensaios a partir do ensaio seminal de Lissitzky, escrito em 1929, que reúne colegas russos e estrangeiros diretamente envolvidos nessa nova arte de construir. A tradução do original alemão é de Renata Dias Mundt somada à revisão dos textos em versão russa e consultoria de Neide Jallageas, incluindo prefácio do arquiteto Paulo Mendes da Rocha. O livro de Lissitzky é um clássico em teoria arquitetônica e de planejamento, bem como importante documento na história social e intelectual. 

O volume é nomeado com o primeiro ensaio abrangente de Lissitzky, apresentando esta utopia em concreto armado a partir dos principais projetos entre 1920 e 1929 – vários não construídos por limitações técnicas ou tecnológicas, que inspiram gerações de profissionais pelo mundo até hoje. O construtivismo para projetar novas edificações e cidades, como explicita o arquiteto, nasceu da condição básica aberta pela Revolução de 1917. Mudou-se o público a ser servido, das elites à massa, do cliente individual ao destinatário social. Desafio este que, apesar de circunstâncias diversas, se mantém atual em todo o planeta.

A publicação não é voltada exclusivamente a profissionais da área, mas aos interessados em estética e história da arte – especialmente vanguardas. Lissitzky traça panorâmica em texto acessível ao expor o contexto histórico e desafios, amparado todo o tempo com exemplos de projetos e realizações exemplificados em ilustrações entre plantas e ou fotos de maquetes ou edificações. 

O fato de ser um texto acessível não é exclusivo mérito deste arquiteto, mas foi traço de amigos e colegas das vanguardas russas da década de 1920 a exemplo de Vladimir Maiakovski, Aleksandr Rodchenko e Serguei Tretiakov. Eles trabalhavam visando as massas e ansiavam pela comunicação o mais direta possível. Esta característica era mais necessária ainda mais para a edição primeira em 1930 deste alentado ensaio pela vienense editora Anton Schroll & Co – também dedicada à arquitetura modernista – e apresentar o construtivismo russo em perspectiva. Infelizmente quando se dá esta divulgação que repercutiu na Europa e EUA, no mesmo ano todas as vanguardas começaram a ser estranguladas pela ditadura stalinista até o estabelecimento do chamado Realismo Socialista, em 1932, provocando completo silenciamento de toda e qualquer possibilidade das inovações e experiências. 

O trabalho de Lissitzky foi reeditado por editora berlinense, em 1965, e acrescidos outros ensaios do autor e seus contemporâneos como J. Ginzburg, Bruno Taut, Ernst May, Wilm Stein e Hannes Meyer para maior visibilidade desta vertente. O que provocou a redescoberta do construtivismo e traduções em várias línguas, adotadas pelos cursos de arquitetura. Apenas na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP estão a primeira edição (1930) e a norte-americana da MIT Press (1970) e espanhola da Gustavo Gili (1970). 

Mais do que um prefácio, o belo texto do professor da FAU Paulo Mendes da Rocha que abre a edição brasileira é um relato entusiasta da importância destes ensaios. Um dos principais arquitetos brasileiros vivos, colega de Vilanova Artigas e premiado com o Pritzker de 2006, define o ensaio de Lissitzky “como convocação de conhecimento para realizar, amparar novos e atuais modos de vida – são agentes ativos de uma transformação”. Rocha lembra que o construtivismo soviético foi “a luz da minha formação” e “belíssimo espetáculo na dança do conhecimento”. Pondera ainda como estes criadores não expunham doutrinas ou teorias acabadas, mas estimulantes aberturas. Para o arquiteto, uma “publicação oportuna, quase esperada, nestes tempos difíceis de abertura do século 21”. 

A nova arquitetura soviética enfrenta uma mudança social extrema a partir da Revolução de 1917. A missão social da arquitetura é trabalhar para dar conta das necessidades da massa. “O foco se deslocou do íntimo e individual para o geral, para a multiplicidade.” A razão de ser do título desse trabalho centrado em “reconstruir” a arquitetura é devido a este deslocamento de lugar, ao não continuar construindo o que foi interrompido pela a 1.ª Guerra Mundial ou mesmo a Guerra Civil Russa que se seguiu de 1918 a 1921, mas de começar algo a partir das “novas formas de vida a fim de participar de todo o devir do novo mundo por meio do planejamento de construções adequadas”.

Para tanto, ele atenta para uma condição especial pela qual passou a URSS, de como as manifestações artísticas – da literatura à arquitetura passando pelo cinema – estavam juntas e misturadas quando o assunto eram as vanguardas. O próprio Lissitzky levou para três dimensões o abstracionismo geométrico do pintor Kazimir Maliévitch. Um claro exemplo disso está na ilustração de capa, com a idealização do conceito de arranha-céus horizontais.

Ele também conviveu intensamente com Chagall, Maiakovski, Meierhold, Rodchenko, Popova, Stepanova, Tretiakóv, Vertov, Pudovkin, Eisenstein e outros quase todos colaboradores do LEF ou Frente de Esquerda da Arte. Este grupo editou as revistas Lef (1923 a 1925) e Novyi Lef (1927 a 1928). 

Torre de Tatlin

O projeto indicado como inicial de toda esta vertente, o “mentor”, foi Vladimir Tatlin com seu projeto para o Monumento à 3.ª Internacional (1920). “Essa foi uma das primeiras tentativas de criar uma síntese entre o ‘técnico’ e o ‘artístico’.” Lissitzky enxerga esse trabalho e outros experimentos com materiais e modelos como exemplares do que se chamou “construtivismo”, que os novos arquitetos seguiram. Uma réplica perfeita da maquete esteve disponível na grande mostra sobre a escola de arte e design soviética Vkhutemas no Sesc Pompeia de São Paulo, de agosto a setembro passados, sob a curadoria de Celso Lima e Neide Jallageas.

Seguem-se outros exemplos dos mais variados ao longo do texto: teatros, clubes de operários, pavilhões de exposição, edifícios para moradia ou escritórios, teatros, estádios, sedes de governos, escolas e inclusive projetos para novas cidades. Destaca-se, no espírito de era das massas, concepções de casas-comuna. Onde se aliam espaços privados essenciais com os de convivência ou compartilhamentos coletivos. “O objetivo, hoje, é transformar o edifício composto por uma soma de apartamentos privados em uma casa-comuna.” 

Ao fechar esta coletânea de textos, o leitor pode perceber como são exatas as palavras de Paulo Mendes da Rocha de como o construtivismo russo inspirou muito do que se produziu nas últimas décadas. Especialmente nos projetos pode-se reconhecer elementos ou traços presentes, a exemplo das arenas do Palmeiras e Corinthians.

*GUTEMBERG MEDEIROS É PESQUISADOR, PROFESSOR, MESTRE E DOUTOR PELA ECA/USP E PÓS-DOUTORANDO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA NA PUC-SP

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